sábado, 31 de janeiro de 2009

O improvável colóquio entre um chimpanzé e uma barata – Parte I


Minha mãe possui o irritante (porém saudável) hábito de trocar os móveis de lugar de tempo em tempo. Ontem, enquanto eu tentava escrever o sacrossanto post diário para este blog, ela invadiu meu quarto e começou a esvaziar o guarda-roupa. Atirou roupas, sapatos, livros, apostilas, DVDs etc. sobre a cama; pôs-se a varrer os cantos, vãos e reentrâncias do piso, debaixo da cama, do beliche, varreu e passou pano até nas paredes e no teto. E eu, sentindo-me cada vez mais coagido, não conseguia escrever uma linha inteligível sequer. Então pensei: ela pensa que estou sentado aqui de brincadeira (o que não chega a ser uma total inverdade), gastando tempo e dinheiro à toa. Não sabe que isto é um verdadeiro sacerdócio, e que toda manhã (lá pelas duas, três da tarde), após a toalete de praxe, visto meu traje episcopal, preparo uma xícara de café e venho para diante desta telinha a fim de produzir um texto (crônica, conto, comentário, poemeto ou quejandos); dar um alô pros amigos próximos e pros distantes, pros desconhecidos do hemisfério sul e do norte, pros habitantes da Terra e pros extraterrestres... aquele abraço!; compartilhar minha solidão enfim? Bem, acho que ela não faz ideia. Como todas as mães, ela só quer que o filho seja ALGUÉM na vida – e um chimpanzé que passa boa parte do dia em frente ao computador não é exatamente um modelo de pessoa bem-sucedida.

Mas minha mãe varria o quarto. Enquanto isso eu misturava alhos com bugalhos e me envergonhava do resultado. Lá pelas tantas, ela pediu que eu pelo menos – e esse pelo menos vinha eivado de ressentimento e ironia da boa - organizasse meus livros e DVDs no novo compartimento que ela reservara para eles no guarda-roupa. Fechei com ela e, assim que acabei de redigir o post, comecei a me ocupar das cinco pilhas de volumes de literatura, gramática, filosofia, matemática, entre outros, que fediam a mofo. Pobres dos meus livros massacrados pelas traças e pela umidade! Se eu dispusesse de um lugar melhor para alojá-los... Penso numa enorme estante em cerejeira abarrotada de livros, em frente à qual tirarei a foto de divulgação do meu trabalho – para não fugir ao lugar-comum. Penso na tal foto e sou tomado por uma alegria incrivelmente tênue, fogo-fátuo que se desfaz ao menor golpe de ar.

O que tinha tudo pra ser uma tarefa simples, transforma-se numa presepada. Pego cada um dos livros e imediatamente lembro o que têm de bom, muito bom, genial, e sinto uma vontade avassaladora de reler esses trechos inesquecíveis, e assim a tarefa se arrasta infinitamente. Acabo fedendo a poeira também. Me esparramo pelo chão, os livros caem sobre mim, e eu experimento cada um deles - uma verdadeira suruba literária. Este é ótimo (Desonra, do J.M Coeetze); estes também são excelentes (O Nariz do Morto, do falecido Antonio Carlos Villaça, e Matadouro 5, do também falecido Kurt Vonnegut); e mais este, e aquele, aqueles outros... Comprei, ganhei, roubei - ops! mentirinha; nunca o fiz, mas não por falta de vontade.

A festa corria às mil maravilhas quando, debaixo de um exemplar de Lolila, de Nabokov, vislumbro duas anteninhas pardas que se movimentam sincronicamente para cima e para baixo: uma baratinha leitora. A princípio reluto em puxar conversa, mas logo me dou por vencido:

- Olá!

Mas a baratinha esnobe não me dá bola.

Tento uma segunda investida.

(To be continue...)

Mais que mil palavras

Imagens da semana



Protesco contra a devastação da Amazônia, no Fórum Social Mundial, em Belém do Pará.

Os donos do dinheiro discutem como salvar seus bolsos, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça.

Pai e filho descansam em colchão sobre os escombros de sua casa, na Faixa de Gaza.

Estudante carrega quadro do ex-presidente Fidel Castro durante comemoração da independência, em Cuba.

Prece coletiva por crianças assassinadas em creche na Bélgica.



Chineses comemoram a chegada do Ano do Porco.

Fotos extraídas do MSN Notícias.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Diário de um chimpanzé (III)

Bem ou mal, ele está no jogo. I’m in, reporta o agente secreto ao chefe da missão. O chimpanzé doido continua a dar corda no músculo cardíaco precocemente debilitado. Periga rebentarem-se as frágeis estruturas do órgão. Ele se levanta do banco onde tentara relaxar debalde. A recepcionista morena (sim, ela é morena e bonitinha) segue lixando as unhas pontudas e pintadas de roxo. Com licença. Não; ele não diz isso porque não estamos num filme americano dublado. Diz: obrigado. E se encaminha à sala estanque do dono dos porcos (a expressão é do pai). À esquerda do corredor que desemboca no escritório do chefe, um grupo de funcionárias do setor administrativo grasna sem parar. Quase não é possível ouvir o que dizem aos berros porque, além das vozes agudas se anularem umas às outras, o tapume que separa o departamento do corredor produz um certo isolamento acústico. Ele sente uma vontade quase irrefreável de permanecer parado no meio do corredor, tentando captar e entender o que aquelas mulheres conversam. Mas faz um esforço para não dispersar sua atenção, que deve estar totalmente voltada para a entrevista que terá lugar dentro de instantes. Respira fundo, ajeita a camisa dentro da calça, tateia os cabelos ralos. Bate três vezes na porta. Entre, por favor, responde a voz do outro lado. E agora sim ele diz com licença, como num filme americano dublado. Postado atrás de uma mesa simples de madeira escura, o entrevistador, um senhor na casa dos 70, de aparência saudável, bem vestido, e com duas discretas bolsas de gordura sob os olhos castanhos denotando abatimento, aponta a cadeira para que o candidato se acomode. Apertam-se as mãos. Uma vez sentados, encaram-se taciturnos e assim permanecem por alguns segundos, como num jogo infantil em que dois adversários medem forças para ver quem consegue sustentar o olhar por mais tempo. A mesa está abarrotada de blocos de notas, faturas, calendários, porta-retratos, porta-lápis, celulares e calculadoras. Um relógio retangular com o logotipo da loja e um pôster do Palmeiras guarnecem a parede atrás da mesa. À direita, há uma estante repleta de arquivos, e à esquerda um frigobar e um sofá bege de dois lugares, rente à varanda cuja vista não chega a ser exatamente enaltecedora.

- Gostei muito do seu currículo. Não entendo por que você não conseguiu uma colocação até hoje. Você está com quantos anos mesmo? – e põe-se a examinar a folha bem diante dos olhos.

- Vinte e quantro!?

- Isso.

- E sua única experiência foi como estagiário!?

Ele responde que sim e passa a fornecer detalhes sobre o estágio. Apesar do indisfarçável ar de enfado, o dono dos porcos quer saber mais a seu respeito. Pergunta se mora com os pais, no que eles trabalham, quantos irmãos tem.

- Em que setor você gostaria de trabalhar?

Perguntinha cavilosa. À qual ele responde não sem titubear.

- No setor que for mais conveniente... E sabendo que precisa ser mais específico: Com sinceridade, eu não me vejo trabalhando na linha de frente; os bastidores me caem melhor. Mas não fujo aos desafios. Estou pronto a assumir com responsabilidade e dedicação a função que o senhor me confiar.

Não deu pra aferir o efeito que sua retórica abobalhada causou no entrevistador, pois a campainha do telefone soou em seguida. Ele aproveitou os dois ou três minutos que o homem ficou ao telefone para pensar no que poderia dizer para salvar a entrevista. Não lhe ocorreu nada. Dissera o que achara fundamental: tinha conhecimento disso e daquilo, disposição para contribuir e aprender; o pai estava desempregado, as contas se acumulavam, o irmão pequeno...

- Muito bem. Como eu já disse, gostei do seu currículo. Agora, no começo do ano, há sempre remanejamentos, reestruturações etc. etc. Eu vou conversar com a chefe do RH para ver se consigo encaixá-lo à equipe, provavelmente no setor administrativo. O.k.?

- O.k.

Levantam-se e trocam outro aperto de mão.

- Em breve entraremos em contato para darmos um parecer definitivo. Foi um prazer conhecê-lo, garoto – diz o dono dos porcos.

- O prazer foi meu. Obrigado pela sua atenção. Tenha um bom dia.

Ele deixa a sala amargando a derrota que lhe pareceu tão palpável quanto qualquer um dos inúmeros objetos que atulhavam a mesa de madeira escura do entrevistador. A equipe de mulheres do setor administrativo continuava a grasnar. Ao passar pela recepção, agradeceu novamente a mocinha das unhas roxas e ato contínuo ganhou a rua.
***
Louis Armstrong interpretando La vie en rose num clipe da animação Wall-E, um dos filmes mais apaixonantes do ano passado.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Diário de um chimpanzé (II)

As abluções matinais contra as secreções produzidas pelo corpo à sua completa revelia. Depois três bolachas de água-e-sal e uma xícara de café como desjejum. Veste sua melhor camisa - herdada do avô materno -, sua calça jeans menos desbotada, seus sapatos pretos mal engraxados, e sai para a entrevista de emprego. Mais uma. Pega o ônibus semilotado; a cobradora negra de cinqüenta e poucos anos o cumprimenta com um sorriso complacente, mas que se analisado com frieza e distanciamento, revela-se simplesmente automático - o que é bom. Senta-se num banco ao fundo; divide-o com uma moça de uniforme verde-água, de uma rede de farmácias local. Ela tem os cabelos escovados, sua pele recende a sabonete de erva-doce. Ele tenta ensaiar mentalmente o que dirá ao recrutador, como causar boa impressão. Por que merece o emprego? O que o torna digno de confiança? Pensa nas contas que se acumulam sobre a escrivaninha. Pensa na barba hirsuta e grisalha que cresce no rosto do pai; no seu discurso inflamado contra tudo e todos, cujo contraponto principal era encontrado na inocência destemida do irmão caçula. Até quando ele não sabe. Caminha no centro da cidade como um fugitivo da polícia. Vive como um fugitivo. E é absurda mas inevitável a comparação com um criminoso refugiado sob a chancela do governo. Chega ao local da entrevista, uma grande loja de departamentos, confiante, esperançoso, ridículo. A avó vive dizendo que para quem está se afogando jacaré é tronco. O irmão do meio acha graça. Ele também tenta rir de tudo. Mesmo constrangido, ri de suas tentativas de fugir às perguntas de conhecidos sobre sua vida profissional. Da sua idéia boba e estapafúrdia de manter um blog na internet. Dos livros que tem vendido – a contragosto, na maioria das vezes – pela internet. De sua deplorável dependência da internet; da própria citação indiscriminada da palavra internet. Mas então pensa numa verdade alentadora: ele não precisa da internet; mas precisa dos livros. Precisa ler – porque é um animal que lê, acima de tudo. E pouco pode fazer para mudar isso, como em relação às secreções e excreções produzidas diuturnamente pelo corpo. Chega à recepção e diz a que veio para a moça que lixa as unhas pontudas. Ela o anuncia para o recrutador, que pede para que ele aguarde um instante, que em breve será atendido. Enquanto isso, um gato ronrona dentro do seu estômago, e um chimpanzé doido dá corda no seu coração, que passa a bater de modo desenfreado.

***
A grande Nina Simone interpretando Sinnerman. De parar o coração.

Incursão Diurna ao Centro da Cidade Monstro


“Nós buscamos outras realidades porque não sabemos como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos pelo desejo de saber como é o nosso interior."
Montaigne

"A tragédia é o estado natural do homem."
Lúcio Cardoso

Blade Runner sabe que precisa chegar ao topo da torre antes do início da tempestade – que, de acordo com o boletim meteorológico que consultara pela manhã, seria uma das mais mortíferas em décadas. Sua missão naquela tarde: exterminar o Grande Recrutador. Antes de deixar seu Q.G. particular, pouco depois da primeira revoada de vampiros do dia, Blade passou em revista seu arsenal de armamentos extremamente letal: o legado do pai finalmente começava a se mostrar de grande valia. O traje era o mesmo de sempre. Calça preta de sarja, camiseta branca e jaqueta cinza escuro.Vestiu um colete repleto de escaninhos em que esconder os armamentos por baixo da jaqueta. Óculos também escuros; gel no cabelo. Indispensável mascar um chiclete de hortelã sem açúcar até sobrevir uma leve sensação de desconforto estomacal. Apesar dos óculos, os olhos ardiam da fumaça oriunda do pólo industria e da noite mal dormida. Ao passar pela ponte pênsil deparou com dois homens barbudos e maltrapilhos que pescavam pacientemente; um deles vez em quando puxava papo com uma sereia popozuda que marcava bobeira na margem do rio. De repente todos se voltaram para a pista a fim de ver a passagem do comboio de zumbis escoltado por cerca de vinte policiais armados de escopetas. Andou cerca de quatrocentos metros até chegar ao hospital geral, em frente ao qual estendia-se uma fila com cerca de duzentas mulheres azuis de sangue prata que aguardavam sua vez de tomar a pílula do dia seguinte. Blade flertou com uma delas enquanto se dirigia ao terminal de caixas eletrônicos. As mulheres azuis tinham fama de ser grandes amantes, o que até então Blade não havia podido comprovar. Sua única parceira sexual era Elaine, que desde que abandonara o negócio de crepes suíços não voltara a dar notícias. Os dois haviam se conhecido num rodízio onde eram servidos variados tipos de carne de seres mitológicos: de faunos a dragões. A picanha de duende era uma verdadeira iguaria; o mesmo podia ser dito acerca das costeletas de saci. Além de crepes, Elaine fazia poesia. Blade era seu único leitor. Ao sacar trinta e seis reais no caixa, lembrou-se de uns versos da amada: À noite a noite abarca / meus pensamentos / E os remete ao limiar da loucura / Há um estremecimento / em face da triste urdidura. Estava triste porque achava que Elaine havia retornado à cidade natal, o que significava que dificilmente voltariam a se ver. Vai demorar?! – exclamou ruidosamente um ciclope espadaúdo que esperava a vez de usar o caixa. Já terminei, disse Blade, após ter sido violentamente sacado do seu mundo de abstrações. E saiu do terminal em disparada, rumo ao topo da torre, onde o Grande Recrutador regia férrea e sadicamente o teatro de bonecos que se dava cá embaixo, em terra firme. Quem passasse pelo corredor de mendigos corria o sério risco de ter um naco de sua carne arrancado às dentadas. Logo à entrada do mercado municipal, cuja fachada servia de abrigo para as lactantes andaluzas que amamentavam seus filhotes, anjos e demônios, protegidos por seus respectivos mascotes - lobos, tigres, falcões, rinocerontes. Blade sentiu pena dos lobisomens magros que bebiam a água turva que escorria nas sarjetas. As mulheres barbadas exibiam seus corpos roliços em vitrines esverdeadas. Cerca de quinhentos metros de um calçadão onde se comerciavam todo tipo de mercadoria imaginável. Granadas, especiarias, tubarões-baleia. Blade almoçou mariscos e bebeu meio litro de refresco de tamarindo. Restaram-lhe vinte e três reais. Quando passava distraidamente por uma galeria, foi puxado pela gola da jaqueta para dentro duma câmara escura. Os primeiros relâmpagos iluminaram o ambiente, e ele pôde ver os homens e mulheres perfilados em poltronas vermelhas e aveludadas, prestando atenção ao filme exibido na tela grande. Um rosário audiovisual de miséria, dúvidas e conquistas. E Blade podia jurar que, entre as mulheres encapuzadas que praguejavam contra a tribo inimiga em meio às ruínas e aos cadáveres de seus filhos e maridos, estava Elaine. Todos na sala riam, choravam, soluçavam, grunhiam. E ele se lembrou de um filme em que um delinqüente juvenil era obrigado a assistir a sucessivas imagens de violência. Mas, ao contrário do rapaz do filme, ele podia fechar os olhos, sair imediatamente do local e se concentrar de novo no que era realmente importante: o encontro mortal com o Grande Recrutador. Não foi difícil atravessar a praça central apinhada de bombos, consumidores, pesquisadores, ambulantes. O imbróglio de nuvens lilases já expelia jorros intermitentes de água púrpura, além das descargas elétricas que fritavam indistintamente camundongos e chimpanzés. O que restara do dinheiro foi gasto com o suborno ao leão-de-chácara que vigiava a torre. Surpreendentemente fácil chegar à sala em que o Grande Recrutador jazia, expectante, debruçado sobre sua enorme mesa de tampo de mármore. E o Grande Recrutador, sangüíneo, corpulento, eminente dono do mundo, levantou a cabeça pesada e olhou na direção de Blade Runner:

- Eu ansiava pela sua chegada.

Blade enfiou a mão direita por baixo da jaqueta e percorreu os escaninhos do colete à procura da arma perfeita.

- Venha. Não oferecerei resistência. Cumprirei minha sina à risca, disse o Grande Recrutador, após abrir a camisa cinza de linho e expor o peito nu ao sacrifício.

Tendo encontrado a faca ordinária de cozinha com a qual pretendia abater o Grande Recrutador, Blade caminhou na direção do alvo, e, desviando por um instante o olhar do rosto afogueado de sua vítima, viu as almas que despencavam do céu junto com a chuva púrpura que se adensava.

- Ande, carniceiro! Sua sede de vingança é mais um sintoma da sua mediocridade moral. Ela crava seu nome no rol dos que nasceram apenas para engordar as estatísticas oficiais – e abriu um sorriso obsceno e revelador.

Como quem descasca uma laranja pela primeira vez, Blade deu cabo do Grande Recrutador. Em seguida abandonou a faquinha sobre a mesa, deu as costas para o corpo largado na cadeira giratória, e seguiu em direção da escada. Quando colocou o pé direito no primeiro degrau, deu-se o que ocorreria, por exemplo, se alguém tivesse, displicentemente, retirado o fio do universo da tomada.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Crônica não acabada

(Autorretrato de Francis Bacon)

Às vezes, caminhando pela rua, distraído, me pego a imaginar que sou outra pessoa. Ora me vejo como o mendigo que arrasta seus petrechos pelo centro da cidade; ora como o dentista que desce as escadas do consultório assoviando uma canção de Chico Buarque. E, sendo o andarilho andrajoso, ou o graduado trajando branco, me sinto satisfeito.

Parte disso talvez advenha do fato de a gente sempre se supor mais infeliz que os outros. Querer ser o que se é, já dizia o pensador holandês Erasmo de Roterdã, no século XVI, é o segredo da felicidade. Mas quantas pessoas de fato sentem-se felizes consigo mesmas? O ideal de felicidade para um pode não ser o mesmo para outro. E ainda assim muitos insistem em projetar seu ideal de existência em outras pessoas. O dentista supracitado, por exemplo, nunca terá se imaginado na pele de um ator de novelas? E o mendigo? Terá ele algum dia aspirado à condição de senador da república, fazendo discursos acalorados no senado federal?

Imaginar-se na pele de outro alguém é um tipo de fantasia à que as pessoas mais comuns costumam recorrer. Para tanto, uns apelam à ficção - assistindo a filmes, lendo romances, ou indo ao teatro; enquanto outros escrevem suas próprias estórias, real ou mentalmente. Se essa é uma prática saudável, eu já não sei dizer. Mas a verdade é que sonhar costuma ser uma atitude recomendada, para a maioria dos seres humanos. Homens e mulheres sem imaginação costumam ser tachados de idiotas ou de desprovidos de ambição; quem não sonha não sabe para onde vai, ou não quer sair do lugar.

Aquele que sonha em demasia, no entanto, corre o risco de ser tomado por louco. Dom Quixote de La Mancha, por exemplo, era tido por seu fiel companheiro, Sancho Pança, como o maior dos lunáticos. Montado em seu cavalo Rocinante, e investindo contra moinhos de vento como se estes fossem cavaleiros inimigos, Dom Quixote moldava o mundo à sua imaginação. Por isso é tido, ainda hoje em dia, como o pai dos sonhadores – daqueles que imaginam um mundo paralelo, no qual o sonho é a moeda corrente e o livro seu mais ilustre receptáculo.

O limite entre o sonho e a loucura é muito tênue, e por isso sonhar é correr o risco de se enveredar por um caminho sem volta, que desembocará num mundo de solidão perpétua. Por essa razão é sempre aconselhável saber onde pisamos, mesmo no território da imaginação. Nada nos impede de nos projetarmos em outras vidas ou em outros mundos, mas é sempre reconfortante saber que podemos voltar a qualquer momento para nossa triste porém sólida realidade.

07/12/2006

Pot-pourri sinistro

Janeiro: mistura desordenada de calor e umidade.

A abundância de chuva gera enxurradas devastadoras e fornece condições ideais para a proliferação de mosquitos e outras pragas indesejáveis. No noticiário, pessoas e carros imersos num mar lamacento; crateras sendo abertas no asfalto, encostas vindo a baixo. Tudo... Perdi tudo com a enchente – diz um senhor grisalho de meia-idade ao repórter.

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Na China, a justiça condenou dois homens à morte e uma mulher à prisão perpétua pelo episódio que envolveu a adulteração de leite em setembro do ano passado. Seis crianças morreram e mais de trezentas mil adoeceram por ingerir leite contaminado.

Mais informações aqui.
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Uma senadora e um dos paramédicos que prestaram socorro ao filho de 16 anos de John Travolta, Jet, morto no último dia dois em conseqüência de uma convulsão, estão sendo acusados de exigir U$ 52 milhões do ator para não divulgar fotos do garoto agonizando.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Cabeça a prêmio

Após ter sido bebida e comida pela cantora brasileira Ana Carolina numa canção, a pop star Madonna corre o risco de ter a cabeça decepada por fundamentalistas islâmicos. Isso mesmo. Como você pode conferir clicando aqui, um grupo de fanáticos religiosos pediu, em sua web page, que alguém corte a cabeça da cantora.

O ódio que esses seguidores de Maomé nutrem por Madonna proveria do fato de ela ser praticante da Cabala, religião ligada ao judaísmo, além de ser uma notória defensora de Israel. Segundo o grupo extremista, o comportamento de prostituta e a admiração que Madonna sente por Israel afrontam o povo islâmico.

A loura que se cuide. Essa gente, além de não não ter o menor discernimento para ler as sagradas escrituras, também não possui senso de humor.

Que Alá a proteja!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Do diário de um chimpanzé (I)

Rota de Fuga

Mal a arquitetura do dia se forma, ele pensa em ir embora. Há pouco os cães ladravam e os pássaros chilreavam por atenção, sem sucesso. O mundo não está para eles nem para nós. E ele sentia um certo ódio à insistência do dia em nascer: queria amordaçar os cães e os pássaros que clamavam por atenção. Todos eles. Queria deter o sol, toldar a abóbada celeste. Mas o mesmo espetáculo que o atormentava o convidava a um passeio pelo que a vida pode oferecer de melhor àqueles que é dado vestir-se com o manto da existência. Os olhos queimando de curiosidade e rancor, o corpo mantido em stand by no espaço acolchoado entre o sono e a vigília. Fechou o livro, levantou do sofá, se espreguiçou e caminhou na direção do quarto.

Ao abrir a porta, sentiu um forte cheiro de mofo e desodorante for man. O irmão dormia na parte de cima do beliche, e a avó - com quem há anos eles dividiam o mesmo cômodo - dormia em posição fetal numa cama estreita pegada à janela. Ele caminha lentamente na penumbra a fim de não acordar ninguém; curva o corpo para deitar-se, estica-se bem, sente aos poucos o colchão moldar-se ao desenho do corpo, e procura em vão aquela sensação de relaxamento que sempre vem na esteira do sono.

Não encontrando posição confortável na cama, o corpo produz constantes sensações de contrariedade. Ele e o corpo (porque nunca pensou seu próprio corpo como um aliado) falham na tentativa de penetrar a esfera aconchegante e segura em que a avó e o irmão parecem repousar suavemente. Então decidem, após firmarem um acordo provisório de não-agressão, partir para uma outra empreitada, bem mesmo reconfortante que o sono porém muito mais auspiciosa. Salta da cama e corre a juntar-se aos cães e aos pássaros no coro algo desesperado por atenção - e redenção.

***
Uma canção do Radiohead, a banda de rock (?) inglesa que no final de março aportará aqui na terrinha para uma miniturnê de dois shows.

No Surprises

sábado, 24 de janeiro de 2009

A falta que ela não me faz


Não sinto falta da máquina de escrever. Nunca cheguei a usar uma para fins utilitários. Em criança eu às vezes teclava algumas frases numa máquina velha da secretaria da escola onde minha mãe era inspetora de alunos. Mas nunca cheguei a compor um texto completo. Para mim era só mais um brinquedo. Dotado de atrativos, sem dúvida, como o tac-tac das letras formando-se no papel e o contato dos dedos com as teclas, que o computador também proporciona.

Todavia sempre me pego imaginando grandes escritores tecendo suas obras em máquinas pequenas ou enormes, feias ou bonitas. Lembro a foto de Clarice Lispector com sua máquina no colo, e imagino a relação de amor e ódio que Clarice vivia com seu equipamento de trabalho, por meio do qual materializava seu pensamento sempre além das palavras.

Horas e mais horas a teclar. Fumando ou bebendo. Sendo interrompidos muitas ou poucas vezes. Assim como também havia os que por opção trabalhavam isolados do resto do mundo e não eram interrompidos nunca. Garcia Márquez em sua água-furtada em Bogotá (?), dando vida aos Buendía em “Cem anos de Solidão”; Érico Veríssimo fechado num quartinho em algum canto do sul do Brasil, traçando o destino de um certo Capitão Rodrigo, e tantos outros.

E ao imagina-los escrevendo, é como se eu estivesse lá, ao lado deles, quando de seus momentos de maior entrega. Vendo Guimarães Rosa travando um verdadeiro duelo com sua máquina de escrever para preencher as tantas laudas do “Grande Sertão: Veredas”. Cavalgando por desertos e paragens mineiras reais ou fantasiosas, acompanhado de Riobaldo e dos outros jagunços, léguas e mais léguas “sem topar com casa de morador.” Após a pausa para o cafezinho, outros rumos, verbos, adjetivos. Ajeitando o papel, trocando a fita, sem jamais perder os filamentos da estória.

Ponho-me no lugar dos autores estreantes, em busca do tom e das palavras certas. A ansiedade dos novatos e o forte bater dos dedos nas teclas, como se assim o texto adquirisse uma densidade maior. Com pressa de chegar logo ao fim da estória para poder soltar o “filho” no mundo, deixar que vá, que encontre seus leitores abrindo caminho por entre preconceitos e recusas de toda sorte.

E penso ainda naqueles que trocaram suas máquinas por computadores. Como devem ter sofrido. Ou será que sofriam mais antigamente, com equipamentos obsoletos e toscos? Não sei. Acho que há os que sofreram e os que comemoraram o advento da informática. Como também há os que ainda escrevem à máquina e os que escrevem à mão. Que preferem ignorar esses objetos cômodos porém pouco confiáveis que são os computadores. Eu mesmo - como bom cidadão do século XXI - não confio nenhum pouco neles. Mas até que demorei a aprender a lição. Tive primeiro que amargar a perda de vários escritos próprios – contos, crônicas, poemas, trabalhos acadêmicos etc. – para então passar a me precaver contra eventuais falhas e danos causados por esse ser astuto e diabólico que atende pela alcunha de Vírus, e que fez com que eu me sentisse tão mal quanto o velho Hemingway, na ocasião em que sua esposa Hadley, numa viagem de trem à Suíça, perdeu um baú com vários contos que o marido escrevera durante anos, e que os leitores jamais conhecemos.

Mesmo saudoso dos momentos de intensa criação que grandes escritores viveram com seus equipamentos de trabalho, tenho de admitir que, embora o computador muitas vezes suscite ódio e desprezo de minha parte, não sinto falta da máquina de escrever. Acho-as charmosas. Mas também as encaro como símbolo indelével de burocracia. E basta-me passar em frente a algum escritório e escutar um ruidoso tac-tac para que se avive em mim um profundo desprezo pelo estabelecimento.

20/08/2006

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O melhor de Hollywood


São três os gênios do cinema de animação contemporâneo em Hollywood: John Lasseter, Andrew Stanton e Brad Bird . O primeiro é responsável por nada menos que duas obras-primas seminais: Toy Story e Toy Story 2. O segundo, além de ter dirigido o execelente "Procurando Nemo", é o criador de um dos filmes mais belos e comoventes de 2008 - "Wall-E", sobre o simpático robozinho-gari que cumpre sua solitária sina de compartimentar o lixo numa Terra abandonada pelos humanos. E o terceiro é o ganhador do Oscar de animação do ano passado por "Ratatouille."

Juntos, os três diretores moldaram o moderno cinema de animação. O estúdio para o qual trabalham, o Pixar Animation Studios , tornou-se referência absoluta tanto em matéria de tecnologia como em fabulação para o cinema dito infantil - que, registre-se, de tolo não tem nada. Muito pelo contrário. A maioria das superproduções milionárias criadas por estúdios famosos como Pixar e DreamWorks - criador da série Shrek e principal concorrente da Pixar - é de ótima qualidade, muitas vezes superando em originalidade o cinema hollywoodiano adulto.

A safra de 2008 foi particularmente notável. Além da obra-prima "Wall-E", ganhador do Globo de Ouro e favorito ao Oscar deste ano, foram lançados "Kug-fu Panda" (DreamWorks), e "Bolt-Supercão"(Walt Disney Pictures). Este último, ainda em cartaz no Brasil, narra as aventuras de um cãozinho que protagoniza, juntamente com sua dona, um seriado de ação para a tevê, e acredita realmente possuir os superpoderes do personagem.

Em relação à qualidade artística, por assim dizer, "Wall-E" e "Bolt" superam muito "Kung-fu Panda", mas, pelo menos no Brasil, o longa da DreamWorks sobre o desajeitado urso panda que sonha em se tornar um mestre do kun-fu superou os rivais na bilheteria.


Disputas à parte, os três títulos - que concorrem ao Oscar de Melhor Animação deste ano - são um bom exemplo do que Hollywood nos ofereceu de melhor em 2008.

By the way, meu filme de animação predileto é "O Rei Leão", um clássico.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Nos Cinemas

Foi divulgada na manhã de ontem a lista completa com os indicados ao Oscar 2009. O filme "O Curisoso Caso de Benjamim Button" lidera a lista com 13 indicações, incluindo as de melhor filme, melhor ator, e melhor diretor.

Dirigido pelo veterano David Fincher, "O Curioso Caso..." narra a trajetória de um homem (o Benjamin do título) que nasce com o físico de um velho de 90 anos e vai remoçando ao longo da vida, cumprindo assim um trágico destino antinatural.

O personagem-título é interpretado por Brad Pitt, em sua terceira parceria com o diretor: as anteriores foram em "Seven - Os Sete Crimes Capitais", e no cult "Clube da Luta." Resguardado por um brilhante trabalho de maquiagem, Pitt consegue conferir certa dramaticidade ao papel, que, convenhamos, não é dos mais fáceis. No entanto, a se confirmarem as expectativas da crítica mundial, o ator não deve ser premiado na cerimônia deste ano; os favoritos ao prêmio de melhor ator são Mickey Rourke (vencedor do Globo de Ouro) e Sean Penn.

Quem estrela o filme junto com Brad Pitt é a sempre competente Cate Blanchett, numa atuação contida e elegante. Ela vive Daisy, o amor da vida de Button. Eles se conhecem quando ele ainda tem a aparência de um idoso de 80 anos e ela é uma garotinha de 10. Cada um segue um caminho diferente, e eles só voltam a se encontrar na metade do filme, quando suas idades já estão similares.

Eric Roth, roteirista ganhador do Oscar por Forrest Gump, em parceria com Robin Swicord, assina o roteiro, uma adaptação do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald.

"O Curioso Caso de Benjamin Button" é, sem dúvida, o filme mais sereno de David Fincher, que se notabilizou por dirigir tramas violentas como "Alien 3 - A Ressurreição" (sua estréia em Hollywood), "Seven", "Clube da Luta", "O Quarto do Pânico", e "Zodíaco" - seu brilhante trabalho anterior, injustamente desprezado pelo júri do Oscar no ano passado.

A seguir, o trailer do filme:


A Igreja dos Direitistas dos Últimos Dias


Um bom contraponto ao discurso superotimista de Arnaldo Jabor (ver post abaixo) pode ser encontrado no blog do jornalista Reinaldo Azevedo.

Não gosto desse tipo de taxação, mas, como não considero ofensa ser classificado como esquerdista ou direitista, darei a secunda alcunha a Reinaldo. (Como ele nem mesmo sabe da existência deste blog, não irá se importar.)

Pois bem, se você ainda não conhece a Igrejinha do Tio Rei, sugiro que a visite assim que possível - mesmo que você não seja religioso (leia-se interessado em política). Lá, você irá encontrar comentários a respeito de todo o noticiário político-econômico e social, nacional e internacional - tudo com muito bom senso e, mais importante que tudo, bom-humor. Sim, porque um sujeito que se refere a si próprio como tio Rei, à sua esposa como Dona Reinaldo, e às duas filhas como Reinaldinhas, tem de ser dotado de um grande senso de humor.

Mas paro por aqui com os elogios. Articulista de Veja, e um dos blogueiros mais populares do País, Reinaldo Azevedo não precisa de propaganda. Ao contrário deste escriba, sem dinheiro nem prestígio, que precisa imediatamente encontrar uma maneira de ganhar uns trocados.

Em clima de (Obama)euforia


"O século XXI começa hoje".

Frase final da crônica de Arnaldo Jabor, ontem, no Jornal da Globo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Enjoy de music

Não entendo nada de música. Mas gosto muito de conhecer bandas e canções novas (pelo menos para mim) - a ignorância, isto é, o ato de ignorar sumariamente o que desconheço, não está entre as atitudes que costumo adotar. Portanto sempre que topo com uma dica interessante, que recebo uma indicação, ou encontro por acaso algo que me agrada no campo das artes, procuro (principalmente na internet, que, para quem sabe usar, pode ser uma ótima fonte de pesquisa) informações a respeito.

Nesta madrugada, enquanto pulava de canal em canal à procura de algo em que fixar a atenção, parei na MTV, no programa do Lobão (Lobão ao Mar). Numa pequena arena montada na praia, o anfitrião recebia a roqueira baiana Pitty e um DJ cujo nome agora me foge, e, entre um papo e outro, eles executavam clássicos do rock mundial. Dentre a porção de músicas tocadas por ele, uma das que mais me agradaram foi "Pale blue eyes", da banda americana formada nos anos 60, Velvet Underground.

Aí vai:


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A nova cara da América



Tenho de confessar que não acreditava na vitória de Obama. Para mim, os eleitores que nas pesquisas diziam apoiar o senador de Illinois capitulariam diante da urna de votação. O lado mais conservador da América se imporia, e o herói de guerra (quem mesmo?) John MacCain se elegeria de maneira surpreendente.

Mas, para minha felicidade, isso não ocorreu. Obama venceu com facilidade, como indicavam as pesquisas. Suas qualidades patentes como inteligência, firmeza e elegância conquistaram os americanos, e hoje este advogado mulato de 47 anos, filho de um imigrante queniano com uma americana, se tornou o governante da nação mais poderosa do mundo.


Acompanhei a apuração dos votos e o discurso de vitória de Obama pela tevê, madrugada adentro. Aquilo me emocionou de verdade. Não que eu seja um ingênuo que acredite cegamente que Obama resolverá todos os graves problemas dos EUA e do mundo; ele não é um super-herói egresso de uma HQ da Marvel ou da DC comics, claro que não. Mas a adesão de boa parte da sociedade americana a uma proposta de governo diametralmente oposta à de George W. Bush me parece digna de atenção, respeito, e, por que não?, comemoração.


Espero que a “era Obama” seja a do diálogo, e não a da “guerra preventiva.” Um tempo de reconciliação política mundial; de uma mudança significativa de valores no que tange à preservação ambiental. Enfim, desejo tudo que as “pessoas de bem” desejam. Um mundinho menos podre. Um mundo mais supimpa, como nas tirinhas que o cartunista Adão Iturrusgarai tem publicado na Folha de S. Paulo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

De leituras e temores

Os milhares de leitores deste blog me cobram uma relação dos livros que tenho lido. Pois bem. Há meses não compro livro algum (aqui em casa, à exceção de meu irmão do meio e de minha avó, que é pensionista, estamos todos desempregados - e apavorados!); o último que comprei foi o novo romance do escritor paulistano Marcelo Mirisola, “Animais em Extinção”, o qual não correspondeu às minhas expectativas. Mas recomendo muito outros livros do Mirisola, principalmente “O Azul do Filho Morto” e “Joana a Contragosto” – alta literatura.

Em se tratando de leitura, sou muito guloso, e sempre pego uma penca de livros emprestados nas bibliotecas de Guaratinguetá e Lorena já sabendo que não darei conta de ler todos dentro do prazo. Atualmente estou com quatro livros em casa: “De repente, nas profundezas do bosque”, do escritor israelense Amós Oz; “A Louca da Casa”, um livro de ensaios da espanhola Rosa Montero; “Histórias de Cronópios e de Famas”, do grande autor argentino Júlio Cortazar; e “A Imortalidade”, do romancista tcheco Milan Kundera.

Já acabei de ler “De repente...”, uma fábula contemporânea sobre uma aldeia onde há muito tempo não se vê um animal sequer. Não gostei do livro, ponto. Sempre tive muita curiosidade de conhecer a obra de Oz, mas acho que comecei pelo livro errado. Na verdade só li esse romance porque é o único título desse autor disponível nas bibliotecas que frequento. E os outros romances dele, editados pela Companhia das Letras, são caros demais: o mais barato custa R$31,00 – quantia de que atualmente não disponho. Mas não desisti de ler (e gostar) de Amós Oz. Não é porque tive uma primeira experiência ruim que vou me abster de ler outros títulos dele. Se agíssemos sempre assim, jamais gozaríamos de uma série de atividades, sendo o sexo a mais óbvia delas.

“Histórias de Cronópios e de Fama” foi uma indicação indireta da jovem escritora e jornalista paulistana Vanessa Bárbara, autora de “O Livro Amarelo do Terminal” e do romance “O Verão do Chibo” – este último em parceria com Emília Fraia. No domingo dia 11, em entrevista ao jornal Estadão, Bárbara citou o livro como um de seus prediletos. E como além de linda a moça é inteligente e talentosa, segui sua indicação.

Estou lendo simultaneamente “A Imortalidade” e “A Louca da Casa” – ambos indicações de amigos. O primeiro me foi fortemente indicado pelo Alexandre, um grande amigo com quem não tenho contato há séculos. E o segundo, na realidade, foi uma indicação que colhi no blog do contista carioca Marcelo Moutinho. Estou apreciando ambos. “A Louca...” é um livro para quem gosta de literatura, para leitores iniciados, pois nele a autora trata da escrita, de escritores, de leituras, ou seja, de tudo que tem relação com a literatura. Já “A Imortalidade” é um típico romance de Kundera: mistura ordenada de ficção e ensaio. Estão presentes na obra temas caros a esse autor, como as relações amorosas, a política, as questões históricas e filosóficas etc. Por vezes a leitura se torna cacete, mas de um modo geral o livro é instigante.

Eis um trecho engraçado, angustiante e verdadeiro:

“O homem deseja a imortalidade, e um dia a câmera nos mostra sua boca deformada por uma triste careta, única coisa que nos restará dele e que se transformará na parábola de toda sua vida; ele entrará na imortalidade dita risível. Tycho Brahé era um grande astrônomo, mas hoje não lembramos mais nada dele, salvo por esse célebre jantar na corte imperial de Praga em que ele refreou pudicamente sua vontade de ir ao banheiro, até que sua bexiga explodiu e ele, mártir da vergonha e da urina, foi prontamente juntar-se aos imortais risíveis. (...) Não conheço no mundo romancista que me seja mais caro que Robert Musil. Ele morreu uma manhã levantando halteres. Agora quando vou levantá-los, antes tomo meu pulso com angústia e tenho medo de morrer, pois morrer com um halteres na mão, como meu querido autor, faria de mim um imitador tão inacreditável, tão frenético, tão fantástico, que a imortalidade risível me estaria imediatamente garantida.”

Com esse trecho, Kundera descreveu um sentimento que, por incrível e risível que seja, acomete muita gente. Eu, por exemplo, tenho medo de morrer de qualquer jeito. Mas existe uma maneira que me aterroriza particularmente. Como as pessoas que me conhecem bem sabem, sou um grande admirador do escritor mineiro Guimarães Rosa. Rosa, autor de “Grande Sertão: Veredas”, um dos maiores romances da nossa literatura, tinha receio de ingressar na Academia Brasileira de Letras porque acreditava que não suportaria a emoção de tamanho reconhecimento. Durante anos se absteve de tomar posse na ABL em razão desse temor, até que em 16 de novembro de 1963, quatro anos após sua eleição, Rosa tomou posse na Academia. Três dias depois, seu coração parou de bater.

Ainda não fui reconhecido como escritor, não tenho nenhum livro publico, e nem mesmo tenho perspectiva de que isso aconteça algum dia, mas só de pensar em morrer após receber algum prêmio ou homenagem (tomar posse na ABL me parece inatingível demais), como o grande Guimarães Rosa, sinto um frio na espinha.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Notas políticas



A recusa do governo brasileiro em extraditar o criminoso italiano Cesare Battisti é uma vergonha nacional. Ao conceder asilo político a Battisti, acusado pela justiça italiana de ter cometido quatro assassinatos na década de 70, o presidente Lula afronta o governo italiano, que supostamente não teria condições de garantir um julgamento justo e imparcial ao ex-terrorista.

Ex-militante de um grupo armado de esquerda responsável por uma série de atentados terroristas na Itália dos anos 70, Battisti vivia incógnito no Brasil desde 2004. Sua prisão ocorreu em março de 2007, no Rio de Janeiro, numa operação conjunta da polícia brasileira com a francesa.

Na semana passada, o ministro da justiça Tarso Genro anunciou a concessão de asilo político a Cesare Battisti – decisão que muito desagradou à Itália, onde ele foi condenado à prisão perpétua.

Tarso, como é sabido, foi militante de esquerda durante a ditadura militar. Recentemente, o ministro entrou em conflito com alguns setores do próprio governo e da sociedade por defender o indiciamento de ex-militares acusados de tortura na época do regime. Para Tarso, tortura não é crime político e nem tampouco prescritível. Portanto as leis de anistia não se aplicariam aos torturadores. Isso me parece bastante razoável. Mas não sei se essa “caça às bruxas” seria benéfica para o país. Temo que ela seja contraproducente. Mas, em todo caso, essa causa defendida pelo ministro me parece pertinente.

No caso de Cesare Battisti, a história parece ser outra. Ele foi julgado e condenado por um país reconhecidamente democrático e dotado de instituições responsáveis, e portanto capazes de fornecer um julgamento honesto a qualquer acusado. Se a justiça italiana falhou parcial ou integralmente ao condenar Battisti, não cabe ao governo brasileiro interferir.

Vale lembrar que quando dois atletas cubanos se desligaram da delegação daquele país, durante os Jogos Pan-americanos de 2007, e pediram asilo político ao governo brasileiro, não foram atendidos. Tiveram de voltar para os braços do “companheiro” Raúl Castro, que deve tê-los recebido com as condolências de praxe do regime ditatorial cubano.

***



O governo Bush agoniza. Na realidade, vem agonizando desde que eclodiu a crise econômica. Ao contrário do que muita gente acredita, Bush não é o demônio; não é sequer um parente próximo do tinhoso. O quadragésimo terceiro presidente dos EUA também está longe de ser um simplório – embora muitas vezes tenha feito por merecer o epíteto. Acontece que a chegada de Bush à presidência foi um erro desde o começo, basta lembrar o nebuloso episódio de contagem de votos no estado da Flórida. Em seguida vieram os atentados de 11 de setembro de 2001, tragédia que marcaria indelevelmente a administração Bush e que acabaria por balizar toda a sua gestão. As guerras do Afeganistão e do Iraque foram o corolário direto dessa enorme agressão sofrida pelos americanos. Há quem as defenda e quem as repudie. Eu acredito que a invasão do Afeganistão tenha sido inevitável, e que a ofensiva no Iraque foi um equívoco. Mas, assim como o recentíssimo episódio da retaliação israelense em Gaza, ambas as guerras deixaram feridas profundas e incuráveis. As “conquistas” políticas advindas dessas guerras jamais compensarão as inúmeras vidas inocentes que foram ceifadas. O sangue semeará a terra e dela brotará mais ódio.

Que venha Barack Obama. E que seu governo corresponda à enorme expectativa criada com sua eleição.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Bons tempos aqueles

Quando eu era garoto, eu e meus amigos costumávamos organizar bailinhos com direito a iluminação especial e tudo numa garagem qualquer - geralmente a da casa dos meus avós - para colocar em prática nossos planos de conquista amorosa. Quase sempre fracassávamos, mas nos divertíamos à beça.

Elton John e outros ícones da música pop internacional tinham presença cativa no repertório musical desses eventos. E, uma vez que o cara está no Brasil para duas apresentações, uma em São Paulo e outra no Rio, deixo essa canção para relembrar aquele tempo besta e melancólico - tipicamente interiorano - que não voltará mais.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Lego divino

Passagens da Bíblia ilustradas com Legos:




(Gênesis)



(Êxodus)





(Atos dos Apóstolos)




(David vs Saul)

Mais aqui.

Geração Uhuuu!

No dia primeiro deste mês, um grupo de arruaceiros causou pânico e destruição na Praia Grande, na Baixada Santista. Num surto coletivo de insânia, cerca de 1.500 jovens depredaram carros, lojas e residências em plena festa de réveillon. Os policiais, em número muito menor que o de desordeiros, só conseguiram controlar a situação por volta de cinco da manhã, após solicitar reforços de batalhões vizinhos.

Três "manifestantes" e três policiais ficaram feridos.

Treze pessoas foram detidas e indiciadas por crime contra o Patrimônio Público.

Dois dias depois, ocorreu um tumulto similar em São Vicente, onde carros, lojas, lixeiras e telefones públicos foram alvo de vandalismo.

Os cerca de 800 arruaceiros entraram em confronto com a polícia, atirando pedras e disparando foguetes contra os policiais, que reagiram com balas de borracha e bombas de efeito moral.

***
Baseado nesses dois episódios, o professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, José de Souza Martins, escreveu um excelente artigo publicado no caderno “Aliás”, no jornal O Estado de S. Paulo do último domingo, sobre o "niilismo antissocial" que parece mover muitos jovens hoje em dia.

Selecionei alguns trechos interessantes que gostaria de compartilhar com vocês:

“Os arrastões deste início de ano põe em cena a criminalidade da classe média e o vazio com que se defrontam seus filhos sem causas altruístas a defender e sem projeto social e histórico com o qual se identificar. O fim da ditadura militar deixou os filhos dos setores sociais afluentes sem um inimigo a combater e uma causa de referência pela qual lutar.”

“A causa do impedimento de Collor reanimou a juventude politicamente enfraquecida pelo conformismo da geração adulta, cansada de guerra...”

“Mas havia ainda o ideário juvenil de uma esquerda dividida e sem um projeto de nação, representada sobretudo pelo PT, que cresceu na pregação de que só ele era o partido do progresso social, da democracia, das reformas sociais e econômicas, da justiça e da liberdade. (...) O caso do mensalão acabou por varrer dos espíritos dos jovens a convicção de que o partido estava acima de qualquer suspeita. Um conjunto de desencantos e enganos pôs em xeque a competência do partido para inovar social e politicamente. Os últimos anos deixaram para os jovens a certeza da orfandade política, do vazio e do cinismo.”

Esses jovens filhos da classe média, como ressalta o professor, “não são materialmente pobres, mas são pobres de esperança, pobres de competência para mudar o curso da história.” Eles questionam e combatem a ordem vigente, mas não tem um projeto melhor e mais justo para substituí-la. Usam de violência para afastar o marasmo, o tédio. Picham, depredam, agridem, urram, matam. Ateiam fogo em mendigos; espancam negros, nordestinos, homossexuais; homens e mulheres da classe trabalhadora. Compaixão é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Eles não ligam a mínima para os problemas sociais do país ou do mundo. Querem curtir. Uhuuu! E fazem o que bem querem sem medo de represálias, como se o “manto sagrado” da juventude lhes facultasse uma blindagem inviolável contra qualquer tipo de repreensão. Eles se julgam deuses que tudo podem.

Mas, antes que me acusem de generalista ou de reacionário, quero enfatizar que existem jovens e jovens, e que a conduta da juventude atual está muito longe de ser uniforme. Há jovens (a maioria, a meu ver) com consciência social, que levam a sério seu papel de cidadãos responsáveis, e que deploram essa cultura fascista e autodestrutiva.

Eu, de minha parte, acredito que a juventude não passa de um engano. E que portanto não dá a ninguém o direito de entrar no BBB e urrar de prazer e desespero como um bom selvagem forjado na cultura do shopping center. Nem tampouco de sair por aí quebrando tudo e todos para espantar o tédio.

Ela, a juventude, pode (e deve) ser usada por pessoas de todas as idades para gozar a vida sem ferir ninguém ou destruir o Patrimônio Público. Pode ser usada em prol de causas sociais e políticas, como na eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, para citar um exemplo expressivo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Ele

(Autorretrato de Salvador Dali)


Ele se lembrava de uma novela de Machado de Assis, A Parasita Azul, de que mais ninguém se lembrava. Conhecia uma região montanhosa no interior de Minas que mais ninguém conhecia. Ele criava cães de uma raça da qual ninguém ouvira falar. Visitava uma tia centenária que se encontrava abandonada a um asilo numa cidade afastada. Ele amava mulheres por quem homem nenhum se sentia atraído. Deitava-se com prostitutas de nenhuma fama. Ele cultivava plantas que nem no Brasil nem no Japão. Aventurava-se em corredeiras que nem de fotografias. Ele cozinhava pratos típicos de lugar nenhum. Via programas de tevê que nem de madrugada. Ele tinha um corte de cabelo que não tinha paralelo. Uma compleição física nunca reproduzida. Ele tinha conhecimento de um itinerário para Trancoso que ninguém mais. Assobiava uma canção de Caymmi como ninguém. Escrevia como ninguém. Nadava como ninguém. Ele tinha um jeito próprio de dizer não. Conseguia todos os favores que queria sem jamais ter de implorar. Ele era imediatamente reconhecido em qualquer lugar que fosse. Citava pensadores que nem na Idade Média nem na Renascença. Ele escrevia com as duas mãos. Chutava com as duas pernas. Tirava queda-de-braço com ambos os braços. Ele dormia apenas três horas por noite. Tinha sonhos eróticos com atrizes do cinema que nem em Hollywood nem na Boca do Lixo. Ele acreditava em santos anteriores à Bíblia. Adorava deuses que nem na Índia nem no Olimpo. Ele visitava páginas na Internet prestes a serem retiradas do ar. Ria de anedotas que nem Chico Anísio nem Groucho Marx. Usava de adjetivos que nem Dalton Trevisan nem Guimarães Rosa. Ele ia ao cinema em horários que ninguém mais. Freqüentava supermercados na alta madrugada. Ele chorava a morte de pessoas que ninguém conheceu, sequer ouviu falar. Ele sofria de alergias crônicas que nem os homens mais frágeis da Holanda nem os do Zimbábue. Contornava situações inexistentes. Trilhava atalhos inexistentes. Dizia, em voz alta, poemas inexistentes, de poetas inexistentes. Ele torcia por times de futebol que nem aqui nem em Liverpool. Fumava marcas de cigarro que nem a Sousa Cruz nem a Tabacaria de Fernando Pessoa. Contraía viroses que nem no verão mais intenso nem no inverno mais rigoroso. Ele apreciava vinhos que nem na França nem no Chile. Ele se lembrava de gols históricos que nem Pelé nem Maradona. Recordava marcas de automóveis nunca desde Ford. Ele se lembrava de uma viagem espacial sem registros na NASA nem em nenhum outro programa espacial. Teve filhos que ninguém nunca viu nem amou. Chorou a morte de heróis que revolução alguma conheceu. Ele nunca se esqueceu de onde viera. Trouxe consigo até os últimos dias a lembrança dos seus. Ele pediu para que apagassem as luzes ao saírem, mas ninguém o ouviu. Disse que também sentia medo de morrer como qualquer outro. Idealizou um mundo após a morte que nem Buda nem Jesus Cristo. Ele teve coragem de dizer o que todos desejavam dizer. Pediu desculpas por toda mágoa que causou. Ele, somente ele, provou daquilo que todo homem e homem nenhum. Só ele.

02/11/2006

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Continho impudico

Rita


Para os amigos Paulão e Flávio, onde quer que eles estejam

Sua boca cheirava a bueiro e flor recém-colhida. Rita, Rita, Rita... Na hora, não liguei pra tatuagem nas costas e pros dentes pontiagudos. Tinha sido, na verdade, indicação de um amigo. É bem feito pra minha mãe... Bom pra ela aprender. Que nem sempre botar pra fora é a melhor solução, pois o choro, em certos momentos, pode nos levar a aceitar passivamente o que deveria ser terminantemente repelido.

- eu tenho um blog!

Que bom. Nele, depositava diariamente todos os prós e contras da profissão. Observei as várias barbies em cima da penteadeira. De uma em especial me lembrei. Costumava brincar com minha prima. Eu era o Ken disfarçado de Jaspion, ou o contrário?! Até o dia em que minha tia pegou o Ken trepando a barbie sobre a cama de casal improvisada.

Eu tinha uma pergunta a fazer, mas a língua deu de travar bem na hora. Queria saber se aquele papo de filme pornô era verdade. A entrevista pro jornal do sindicato dos metalúrgicos continha alusões a propostas de um diretor americano. Era o que menos importava. Pensei no velho truque do tapinha nas nádegas.

- você quer que apague a luz?

Melhor na penumbra. Afinal de contas meu pau não é dos maiores. E eu sabia que meus amigos eram clientes cativos. Na agência todo mundo conhecia a Rita. Nada a ver com os macetes de vestiário. De repente, era como se houvesse um vaso dependurado sobre a cama e dele pendessem orquídeas. O que minha avó iria pensar (?). O jeito que mexia as pernas... Tão acostumada. Com quantos, será? Quinhentos? Uma senhora de 80 anos. Nada tinha que ver com sexo. Não dava mais pra desistir.

Tá. Vou dizer do que eu gosto. Se pela internet já era difícil, imagina. Precisa lubrificante? Ponho a camisinha. Esse vai ser um dinheiro bem empregado. Ganha pouco um estagiário. Eu quero ver a vulva. É um direito meu. E o romantismo, onde fica? Eu divido o quarto com a minha irmã mais nova. (Coloquei a mão no seu joelho.)

Ai, ui, ui... A gente não tem que ter vergonha. Todo mundo gosta. Até quem não faz gosta. E quem não gosta faz. Já fomos expulsos mesmo. O paraíso já era. Panturrilha eu mesmo não lambo. É meio roxinha. Não fica bem ir assim colocando o dedo. Nossa, será que é silicone? Agora já peguei. Tá feito. O segredo é humanizar o sexo. Quentinho. Na boca, a gente logo remete aos mamilos maternos. Tara é outra coisa. Mesmo sendo inumano não é má idéia.

- (...)

Ahaaaaaa. Halls preto funciona, disseram. Troquei seu nome. Cravou as pernas nas minhas costas. Depois que entra, o negócio segue automático. Milhares de anos até chegarmos aqui. Putz, ela deve pesar dez quilos mais que eu. Olho os pelos pubianos. Escuros como os cabelos escovados. Faz porque gosta. Sua boca cheira a cigarro. Vejo a marca de vacina.

- uma vez um elefante marinho se arrastou até aqui.

De cinco a dez minutos pro pau voltar a enrijecer, na minha idade.

- põe ali, a camisinha.

Certo, Rita, minha puta de luxo. Cento e cinqüenta reais por uma hora e meia. Rende mais que uma caderneta de poupança. Cê topa casal?

- entra no meu blog e comenta, tá?

Eu sou homem e ela é mulher. Um belo par de orelhas. Sinuosos os lóbulos. Bandeirola do Brasil pintada na unha do dedão do pé. No calor da hora sempre sai um palavrão. Aborto. E o amor se multiplicando qual bactéria na troca de salivas. Puta beija, sim. O gozo repartido por igual. Ela dá vivas à pílula do dia seguinte; e eu dedico à minha mãe o sêmen derramado.

- sonho com uma casa cheia de crianças.

Na nossa sociedade o cu é oferecido em sacrifício. Baco vem brindar conosco e bebe do nosso vinho de fluidos corporais. Apagando as diferenças. Chuva doirada lava o nosso corpo e conspurca os brancos lençóis. Dessa vez ela fica por cima. É assim que meu professor de filosofia faz amor com sua esposa. Ela lava a louça, faz a lista do supermercado e fica por cima. Tão polido, ele, que a turma cogitava a possibilidade do pobre pedir licença para abrir as pernas da sua senhora. Isso tudo num filme brasileiro dos anos 80 com um som de quinta categoria.

- Uma vez eu peguei no do meu colega, no banheiro da escola. Ele tinha tirado D na prova de matemática.

As barbies todas fazendo strip-tease. O ursinho de pelúcia tapou os olhos. Uma espinha brotara no seu queixo. Caras e bocas. Meu voto pela legalização da sacanagem.

O que resta de tudo isso, no entanto, é um olhar de tristeza alegre, um membro levemente esfolado, e uma culpa cristã encalacrada na carne de quem nunca sangrou para a remissão dos pecados.

- cê volta, né?

Eu volto, Rita. Tão logo eu morra num acidente de trânsito e engorde as estatísticas. Assim que acabar a novela. Depois da polução noturna eu volto. Das ruas submersas na enchente. Dos quadros e do semblante melancólico de Van Gogh. O apêndice explodindo, eu volto. Em não cicatrizando a perda, não rimando amor e amor eu volto.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A solidão do blogueiro

O post anterior foi motivado pela leitura da entrevista que o poeta e cronista gaúcho Fabrício Carpinejar concedeu ao Paiol Literário deste mês.

O trecho da entrevista, reproduzido abaixo, descreve à perfeição a angústia do blogueiro iniciante:

"O blog é difícil porque, ali, tu tem que saber exercitar e administrar tua solidão. Tem gente que não suporta blog, porque até tu conseguir engatar um é difícil. Imagine: tu faz um blog e ninguém responde. Tu pensa que vai fazer um blog e todo mundo vai entrar lá. Que agora tu vai ser conhecido. Agora vai ser consagrado. E ninguém entra. Fica aquele contador parado. E, daí, tu começa a ter alucinações. Começa mesmo. Encontra o primeiro comentário do teu blog e vê que é da tua mãe. "Ah, muito bonito o teu blog, continue assim". Até tua mãe já notou que ninguém lê o teu blog, é por isso que ela entrou. E, de repente, tu percebe que até tua mãe cansou de ir ao teu blog. E tu começa a ser laranja. Tu passa a deixar comentários no teu blog como se fossem de outro. E o pior de tudo: tu começa a responder a esses comentários. Tu começa a responder aos e-mails falsos."

Carpinejar, que se autodenomina a "drag queen da poesia brasileira", dispara várias pérolas durante a entrevista. Seguem algumas:

Literatura

"A literatura é contágio. É uma forma de organizar sua vida. É uma forma higiênica de lidar com a imaginação, de lidar com a memória, de filtrar os fatos."

"Se tu vai ler um poema e a outra pessoa fala "ai, que bonito", saiba que ela não gostou daquilo. Se um poema provoca uma resposta rápida numa pessoa, significa que ela não está nem aí para ele. Porque o poema produz silêncio. Eu sei que um poema é bom pela extensão do silêncio de quem o lê."

Família

"Acho que há tanta desagregação familiar porque as famílias não almoçam nem jantam juntas. É tão importante olhar para o outro, encarar o outro, saber decifrar esse silêncio, essa soletração. É muito fácil saber se alguém está fingindo ou não, se alguém está enganando a sua emoção ou não, quando jantamos e almoçamos com ele. Porque a fome traz uma honestidade que nenhum outro momento traz."

"... a gente parte do princípio de que, se temos algum problema, precisamos ter um psicólogo. Se a gente tem um problema com o filho, tem que colocar o filho no psicólogo. Se a gente tem um problema no casamento, a gente tem que fazer terapia de casal. A gente não fala em casa, na família. A psicologia está substituindo as amizades, de certa forma. Mas os psicólogos não vão conseguir dar conta de toda essa demanda. (...) Como a gente está condicionado a ir ao consultório, a gente fala, fala, fala, fala e não sabe mais ouvir. Em casa, a gente não está mais ouvindo. Por isso é que eu fiz as unhas. Eu não entendia por que minha mulher ia à manicure e voltava mais alegre. Eu pensava que ela tinha um caso com a manicure. Daí, comecei a fazer as unhas e comecei a voltar mais alegre de lá. E minha mulher pensou que eu tinha um caso com a manicure. Mas a manicure fazia a única coisa que eu não fazia: ouvir. Ouvir até o fim. Ouvir sem julgamento, sem sentença. É isso que nos falta: ouvir. Ouvir uma pessoa até o fim."

Quem quiser ler a entrevista na íntegra e/ou saber mais sobre o Paiol Literário, clique aqui.

Para encerrar, deixo um (belo) poema do Fabrício:

Reserva de chuvas

Fabrício Carpinejar

Na escola, zombaram de minha pronúncia torta,
ameaçaram-me com canivetes no recreio.
Assisti a covardia crescer, aquietado no fundo da sala.
Durante anos, contive o veludo áspero da pata,
a soleira da pata, a vogal da pata.
Preparei a vingança pelas palavras.

Roubei o dízimo, enrolei o papel seda
dos versículos para fumar tuas promessas.
Pisei em teu rosto com a luz suja de um livro.
A neblina me perseguiu enfurecida
e não viu que estava nela.

Peço desculpas como uma criança,
as mãos algemadas
na inocência nociva.

Como enganar os gestos?
Minha vontade de abraçar
esgana.

Todos meus erros descendem do excesso,
não da penúria.

Deus, será que tua água
vem da sede do homem?
Será que nossa sede é potável?

As diferenças nos assemelham,
o único vizinho do mar é o abismo.
Estou extremamente perto
e morro distante.
Mora numa morte emprestada.

Cerca-me da cegueira,
tal relâmpago que acende o bosque
para as aves pousarem nele.

Cerca-me da cegueira,
desapegando do que não vi.

Cerca-me da cegueira,
a fidelidade do vento é testada no naufrágio.
Cerca-me da cegueira,
como uma fruta apanhada com os dentes.

Cega-me.
Meu desespero fracassou
ao passar a noite em claro.
Fez amizade com as sombras.

(Do livro "Biografia de uma árvore", 2002.)

É isto um blog?

"Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento."
Carlos Drummond de Andrade.


Em meados de 2001 eu não sabia o que era um blog; pouca gente sabia. Só tomei conhecimento do que era um blog quando li uma reportagem na Folha de S. Paulo sobre essa nova mania entre os internautas brasileiros. A reportagem trazia uma lista de endereços com alguns dos blogs mais badalados do país. Assim cheguei, por uma irrefreável curiosidade, até o blog de uma curitibana de 15 anos, um ano mais jovem que eu à época.

Não recordo o nome da garota e tampouco o endereço do seu blog. Ela era bonita: morena clara, corpo esbelto, olhos amendoados. E inteligente também. Seu blog era estritamente um diário, em que ela descrevia suas atividades cotidianas, compartilhava gostos, dúvidas, anseios. Falava da família, do colégio, do namorado. Lembro que no primeiro post seu que li ela lamentava o fato de ter perdido uma lapiseira muito estimada. Parece que a tal lapiseira fora parar dentro de um lago perto da sua escola por um descuido, uma distração.

Passei a visitar seu blog quase que diariamente. Mas só tomei coragem para comentar um de seus textos depois de alguns meses. Fiz um comentário lacônico, cortes, piegas. Ela o replicou de maneira igualmente sucinta e cordial.

Quando lhe enviei um de meus contos por e-mail, ela o criticou de maneira polida, mas firme: o conto era uma merda.

A princípio fiquei magoado, mas logo a razão se impôs e eu concordei tacitamente com ela. O texto era horrível! De doer!

Essa foi minha primeira experiência como leitor de um blog. Como criador e mantenedor, só fui me arriscar dois ou três anos depois. Criei um blog, publiquei meu primeiro post, e saí correndo de vergonha. Dei um fim naquilo de saída. Ninguém tomou ciência daquela babaquice. Criei ojeriza a blog.

Só há pouco tempo voltei a ter prazer em ler blogs. Principalmente os dos escritores e jornalistas cujo trabalho admiro. Mas apenas como leitor. Continuava a me julgar incapacitado para desenvolver e fomentar uma publicação dessa natureza. Sempre tive a impressão (errônea!) de que a pessoa que mantém um blog tem por objetivo ensinar algo a outrem; que o intento principal de um blogueiro é direcionar a atenção do leitor para aquilo que ele julga essencial. Mas não é bem assim. Não posso falar por todos os blogueiros, mas, no meu caso, a “necessidade” de criar um blog surgiu do meu pendor para compartilhar coisas de que gosto, de que não gosto; que julgo essenciais ou dispensáveis; coisas sérias e coisas fúteis. Enfim, “compartilhar minha solidão, torná-la meio de conhecimento.”

Foi então que num domingo modorrento resolvi tirar o rabo do meio das pernas e partir para outra empreitada on-line. Desde então você (se é que você está aí) vem acompanhando o resultado dessa incursão. Não tenho nada a ensinar a você. Não quero ensinar nada a você. Eu não sou melhor, não sou mais inteligente, mais bem-humorado, informado, solitário, feliz que você. Eu ando por aí com a cabeça cheia e os bolsos vazios, querendo (e temendo) encontrar você. Eu sou ridículo! Graças a Deus! E este blog é um elogio à imperfeição - ao ridículo. Nada mais que isso.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Eta vida besta, meu Deus*

"Caipira Picando Fumo" (Guilherme de Almeida-1882)

Está muito calor para ler o jornal. Muito quente para caminhar até a padaria e comprar pães frescos, dois litros de leite, e uma broa de milho. Está muito calor para uma caminhada, para jogar futebol, para ir à igreja, para ir ao cinema. Está quente demais para ficar em casa. Muito quente para passar o dia aqui, no interior do estado. Calor demais para ver televisão, navegar na internet, ler um livro. A canícula está demais para fazer amor. Mas para ir à praia está perfeito - apesar do negrume que se anuncia pelas nuvens gris que vem vindo (do oeste, leste?). E faz trezentos anos ou mais que eu não vou à praia. Que eu não me banho em rio, lago ou cachoeira. Que o pouco cabelo de que disponho não é maltratado pela alta concentração de cloro de uma piscina. Hoje está bom para tomar sorvete, açaí na tigela, caldo-de-cana. Para ouvir música alta. Conversar alto, tomar três latinhas de cerveja ou dois chopes absurdamente gelados. Hoje está perfeito (reitero) para caminhar pela orla da praia apreciando o mulherio, tomando água de coco, afofando a areia molhada com os pés, e um mergulho antes do pôr-do-sol... Um mergulho do qual sairemos renovados de energia e (não há como escapar!) coliformes fecais.

Hoje está quente demais para morrer.


*Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Do livro Alguma poesia (1930), de Carlos Drummond de Andrade.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Notas perdidas

Algumas sábias e pungentes palavras do grande escritor americano Truman Capote, sobre o dom (de escrever):

“Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação”.

***
Quantos contos ruins eu sou capaz de escrever até me dar conta de que meu talento é zero? Porra! Tenho que tomar uma atitude. Deixe estar. Deixe estar que amanhã é domingo e, se eu desejar, poderei até ir à missa. Que mais eu poderia querer? Escrever aquele conto sobre o filho que volta à cidade natal para procurar o pai alcoólatra que está sumido há dias. Esse filho que é acionado pela mãe desesperada, que vê nele a última salvação possível para o marido. Esse filho que vem de longe, duma cidade onde trabalha como guarda-noturno numa escola de idiomas, e põe-se a errar pela cidade de sua infância perdida, à procura daquele fantasma sem rosto, que já não representa mais nada pra ele. Esse filho que está prestes a completar trinta anos, e cujo sonho, já morto, era tornar-se cineasta. Esse jovem que deixou uma jovem namorada na cidade grande, e que tem medo de confrontar-se com o próprio passado, e de sucumbir ante o remorso por ter abandonado a mãe e o irmão à própria sorte, na companhia de um operário bêbado e arruinado cujo único propósito na vida é percorrer os bares da cidade em busca sabe-se lá de quê. E o título desse conto é Véspera.
26/12/2006
***
Ontem jurei a mim mesmo que nunca mais caminharia sobre as águas. Que nunca mais cometeria perjúrio. E como é difícil manter minhas promessas. Também jurei que nunca mais escreveria poesia. A poesia fede, diz um personagem dum conto de Danton Trevisan – no extraordinário “Cemitério de Elefantes”. O mundo fede ao natural, mas a fedentina poética é muito mais nauseabunda. Ah, disso só os poetas sabem!
***
Um homem pode perder a luta, mas nunca desistir da batalha. Ai, ai! Um homem sem coração. Vendendo queijos no centro da cidade ou fazendo a manutenção noturna dos trilhos do metrô. Um homem sem medo. Que não leva desaforo pra casa. Não. Um homem de verdade não leva desaforo pra casa. Assim como um homem nunca fica indiferente a uma mulher bonita. Não um homem de verdade. Esse mesmo homem que tem orgulho de se barbear pela manhã; que se regozija ao observar o jacto de esperma que acaba de verter para o nada, ou para dentro do ventre da mulher que o originou. Um homem vivo ou morto. A recompensa é a mesma. Desprovido ou pejado de desejo. Ele lavará seu carro no sábado à tarde. Mas ninguém poderá impedi-lo de se sentir só. Ninguém poderá ampará-lo quando do seu momento de ocaso. O homem acaba por ficar velho. Às vezes acontece num domingo, outras vezes numa sexta-feira. É uma coisa subjetiva. Tem a ver com sexo e metal retorcido, como todas as coisas. Tem a ver com as unhas das mãos. Um arco-íris que se borrou de cinza.
24/03/2007
***
Consigo redigir mais de 600 palavras e fico feliz como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo novo. Escrever ficção é como dragar um rio de águas turvas, com o perdão da comparação cafona.

Estamos vivendo tempos difíceis. De correria e incertezas. Alguns apelam à auto-ajuda e outros pedem pelo amor de Deus. Eu fico na corda bamba. Acho mais divertido. Sabe aquela coisa: tomar banho de esguicho e ficar alegre por pegar um resfriado? Tome-se como exemplo o suicídio coletivo cujos membros integrantes estão calçando tênis Nike. Sei lá. Às vezes, quando viajo de ônibus, fico pensando nessas coisas que quase ninguém pensa. Alguém tem de se ocupar delas. É como aquelas pessoas que defendem animais exóticos em extinção. Isso mesmo. Meus pensamentos enviesados são animas em extinção. E viva a metáfora barata!
29/03/2007

Eles só pensam "naquilo"

Saiu na Folha de S. Paulo de ontem:

Indústria pornô pede ajuda nos EUA

Depois dos bancos e das montadoras, a indústria pornô dos EUA saiu atrás de socorro. Larry Flint, da revista "Hustler", e Joe Francis, criador da série "Girls Gone Wild" (Garotas Selvagens, em português), lideram pedido de ajuda de US$5 bilhões ao setor, dizendo que 'o americano pode viver sem carro, mas não sem sexo.'

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Olhares sobre 2008

Algumas das melhores fotos de 2008, segundo o jornal americano The Boston Globe.

Dica colhida no blog do Rodrigo Levino.

Duas amostras:



Garotinho afegão procura abrigo contra tempestade de areia.



Urso polar se sacode após banho no lago.

Que tipo de idiota é você?

Há basicamente dois tipos de idiota no mundo: o que se julga superior a todos, e o que se julga inferior a todos; o que pratica esportes regularmente, e o que nunca se exercita; o que acredita em Deus, e o que não acredita; o que acha que a humanidade não tem salvação, e o que ainda nutre esperanças quanto a um futuro melhor; o que não come carne vermelha, e o que se delicia ante um bom churrasco; o que é apaixonado por futebol, e o que zomba dos que são apaixonados por futebol; o que aceita a orientação sexual alheia, mesmo que essa seja diversa da sua, e o que repudia e condena os que não são heterossexuais; o que tem filhos ou deseja ter, e o que julga o planeta inabitável para tê-los; o que no sexo não vai além do velho e bom papai-mamãe, e o que acredita que entre quatro paredes vale tudo; o que crê na vida após a morte, e o que insiste em que a morte é o fim de tudo; o que usufrui ao máximo das novas tecnologias, e o que é infenso a toda e qualquer novidade tecnológica; o que se alimenta somente de produtos naturais, e o que come de tudo; o que não acredita que o homem realmente tenha ido à lua, e o que acha que os que não acreditam que o homem esteve na lua no ano de 1969 são lunáticos; o que prevê o futuro através de cartas, búzios, leitura de mão, e até mesmo observando a borra do café, e o que acha que todos os ditos videntes não passam de charlatães; o que admite ter visto seres extraterrestres sobrevoando os arranha-céus da cidade na madrugada de um domingo qualquer, e o que só acredita vendo; o que gosta de cachorros, e o que quer distância deles; o que dorme cedo, e o que nunca dorme antes das 2 da manhã; o que chega à terceira idade sem ter abandonado o hábito de se masturbar de vez em quando, e o que afirma que a masturbação é fruto da imaturidade e da concupiscência; o que gosta de televisão, e o que acha que televisão é um veículo formador de imbecis; o que gosta muito de ler, e o que acha que ler é uma perda de tempo; o que, após ter dado descarga, olha para o vaso sanitário para se certificar de que o excremento rodou, e o que nunca olha para o próprio excremento, com medo de se observar a si mesmo a fundo; o que vive se desculpando, e o que nunca se desculpa; o que acha que os livros de auto-ajuda são uma porcaria, e que na realidade não ajudam ninguém em nada, e o que acredita piamente que passou a viver melhor após ter lido um desses livros; o que acredita na felicidade plena, e o que acredita que a felicidade é feita de curtos momentos, pequenas alegrias; o que é semelhante à mãe, e o que é mais semelhante ao pai; o que acha legítimo fazer sexo só depois do casamento, e o não dá tanta importância a essa preservação, e transa assim que a primeira oportunidade surge; o que é a favor do aborto em caso de estupro, e o que é contrário ao aborto em qualquer circunstância; o que só bebe socialmente, e o que se embriaga quase que diariamente; o que acredita que todos nascem para sofrer, e o que acredita que todos nascem para ser feliz; o que, quando vai preparar café com leite, despeja primeiro o leite na xícara, depois o café, e o que despeja primeiro o café,depois o leite; o que beija a mãe e/ou a esposa e os filhos, e o que nunca beija ninguém antes de sair, tampouco quando chega em casa; o que acredita que dinheiro não trás felicidade, e o que joga na loteria toda semana, na esperança de garantir sua felicidade para o resto da vida; o que tem um ou mais ídolos, e o que não admite adorar ninguém (ou mesmo não adora ninguém); o que faz muitas perguntas, e o que nunca as faz porque tem medo de ser taxado como ignorante; o que acredita em amor à primeira vista, e o que não acredita em nenhuma forma de amor; o que ama o próximo como a si mesmo, e o que não ama nem a si mesmo.

Há dois tipos de idiota no mundo. De que tipo é você?

07/06/2004

(P.s. - há um terceiro tipo de idiota não mencionado na crônica acima: aquele que cria blogs e os alimenta com toda sorte de textos e vídeos. Abraços!)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Thundercats, Hooooohhhhhh!


Para os nascidos na década de 80, o vídeo a seguir é um verdadeiro deleite.

Um maluco divulgou no YouTube um falso trailer de um inexistente filme dos Thundercats, a série de animação que contava a história de um grupo de gatos guerreiros que lutavam para defender seu mundo das forças das trevas - em especial do feiticeiro Mumm-Ra, eterno obcecado pelo "Olho de Thundera."



O autor usou cenas dos filmes Troia, Eclipse Mortal e X-Men para criar o trailer, cuja qualidade surpreende e faz até pensar num filme verdadeiro sobre os felinos que habitavam na Toca dos Gatos.

Diálogos


- Volta um pouco o disco. Escuta esse pedaço em que ele fala que a Mônica queria ver um filme do Godarte. Quem é esse tal de Godarte? – perguntou-me, enquanto procurava carrapatos em seu Cocker Spaniel, com seus dedos longos e ágeis.

Eu estava deitado no sofá bege de frente para ela, mirando seus pés alvos, delicados, sempre sem vestígios de esmalte.

- É um cineasta francês muito conhecido. Chama-se Jean-Luc Godard. Eu nunca vi nenhum filme dele, mas sei que eles fizeram a cabeça de muita gente.

- E por que a Mônica queria ver um filme do Godard?

- Porque ela era uma intelectual que gostava de filmes de alto valor artístico, com conteúdo, entende?

Cruzei meus braços sob a cabeça, tirei meus sapatos e ajeitei os pés sobre o sofá. De repente ouvi o som agudo do carrapato sendo esmagado pelas unhas de Noêmia, que demonstrava estranho brilho de felicidade nos olhos. Se ao menos ela soubesse que os homens sentimos dor, não me torturaria de tal maneira.

* * *

- Por que você escreve?, perguntou Noêmia, enquanto revirava seu guarda-roupa à procura de uma pasta com antigos papéis de carta.

- Pelo mesmo motivo que desejo você!, senti vontade de dizer.

Para ela tudo necessitava uma explicação lógica e razoável.

- Não sei. Acho que é uma forma de estar no mundo. Ou de fugir desse mundo.

- Antigamente eu costumava escrever cartas pros meninos de quem gostava.

Os ursos de pelúcia e sua boneca quase centenária estavam harmoniosamente dispostos junto à cabeceira da cama. Eu sentia pudor em tocá-los. Pois, ao fazê-lo, seria como se estivesse a palpar os limites eróticos do seu corpo.

- Não encontro os papéis de carta. Talvez a empregada tenha colocado no armário do corredor.

- E o que a gente vai fazer agora?

- Primeiro eu acho melhor você fechar a janela. Tá começando a chover.

Nesse momento fui acometido de um estremecimento. Suas palavras me haviam soado como uma declaração de amor. Esse mesmo amor que eu tantas vezes contestara, e que até repudiara em ocasiões análogas a essa. De repente vi a mim e a Noêmia num futuro próximo, de mãos dadas, indo tomar sorvete num domingo à tarde. Eu diria que a desejava mais que tudo, e que sua companhia anulava totalmente minha necessidade de compreensão das questões mais complexas sobre a vida e a morte. Seu corpo deixaria de ser um enigma a ser decifrado, e seu toque conjugaria amor e sexo.

Depois viria a fome, o riso amarelo, o deboche, a dor do parto. Os beijos não mais proveriam pães quentes. E o cotidiano se interporia entre o sublime e o olvido. A felicidade se mostraria por intermédio das pequenas epifanias familiares. Até que nos olharíamos num fim de tarde e de imediato entenderíamos o porquê de nossa ansiedade juvenil nunca ter desaparecido.
Noêmia deu um assobio estridente.

- Oiiiii! Onde é que você esteve, hein?

- Verborragia...

- O quê? Você sempre me assusta quando solta essas palavras estranhas.

Eu sorri. Ato contínuo sentei-me a seu lado na cama.

- Desculpa. Eu prometo não voar pra tão longe quando estiver com você.

- Tá bom. Eu acredito. Você tá com fome?

- Um pouco.

- Acho que sobrou estrogonofe do almoço.

(Trecho extraído de um conto meu intitulado O Prosador, que há quatro anos jaz na gaveta da minha escrivaninha).