quarta-feira, 21 de abril de 2010

Algumas cinematográficas III


O Livro de Eli – Mais um filme em que um “cavaleiro solitário” vaga por uma terra devastada em busca de vestígios de civilização. Denzel Washinton é o paladino da vez. Durão e justo, ele avisa seus adversários dos perigos que correm ao desafiá-lo. Em vão, obviamente. Os malfeitores que cruzam seu caminho são massacrados, e tudo é filmado de maneira bastante estilizada (leia-se pouco inventiva) pela dupla de diretores, os Irmãos Hughes – responsáveis pelo interessante Do Inferno.

Denzel / Eli carrega consigo o último exemplar da Bíblia Sagrada, que por sua vez é cobiçado pelo vilão interpretado por Gary Oldman. Este acredita que o livro possui poderes que lhe permitiriam controlar as pessoas, e então encarrega seus capangas de roubá-lo. Mas a tarefa se mostra mais complicada do que ele supunha. Eli é um tipo de messias disposto a tudo para preservar o livro em cujas páginas estão as diretrizes para uma vida boa e justa. E, como em todo filme de ação que se preze, ele encontra uma partner jovem, bela e rebelde, que o ajudará a chegar ao povoado em que as lições da Bíblia poderão ser passadas adiante.

Pode-se fazer várias leituras do filme. É possível considerá-lo tanto uma crítica ao fanatismo religioso quanto apologia ao cristianismo. Me pareceu extremamente conservador. Algo como: só existe salvação em Cristo. (Para tornar a sessão suportável, encarei o enredo genericamente como um elogio da leitura, do conhecimento.) E por mais que os diretores tenham tentado dar uma roupagem cool ao filme, tudo resulta muito cafona.
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Chico Xavier – A tão alardeada cinebiografia do médium mais famoso do Brasil chegou às telas do cinema e tem atraído um grande número de espectadores. O fato é que Daniel Filho, diretor do filme, não deve estar surpreso com o bom desempenho de Chico Xavier nas bilheterias, uma vez que se trata de um projeto meticulosamente calculado para o sucesso comercial. Um personagem carismático. Um roteiro bem amarrado. Atores da TV Globo. Emoção e humor “na dose certa”. Elementos presentes no filme de Daniel Filho – e praticamente a norma que rege quase a totalidade das fitas da Globo Filmes.

O que se vê durante as duas horas de duração do longa é basicamente uma hagiografia. Em menino, Chico sofria com as visões e as vozes do além a que apenas ele tinha acesso. Já na adolescência, o surgimento de seu “guia espiritual”, Emmanuel, lhe dá certo conforto e o prepara para a completa aceitação de sua sina: ajudar ao próximo. Cônscio de seus “poderes”, Chico passa a usá-los para, por exemplo, exorcizar demônios e psicografar mensagens de mortos famosos e anônimos. Logo a fama do médium corre o mundo. Ele passa a atender a pessoas vindas das mais variadas regiões, o que atrai a atenção da imprensa e gera investigações sobre a autenticidade de seus poderes paranormais.

A maioria das cenas que mostram o protagonista na velhice se passa num programa de entrevista que serve de base para todo o roteiro. Nelas, brilham as figuras de Tony Ramos, o diretor de TV, e Nelson Xavier, o intérprete do Chico idoso.

Ao final, resta a sensação de ter assistido a uma dramatização de programa jornalístico, como aquelas do extinto Linha Direta da TV Globo. Produção caprichada, interpretações esmeradas, roteiro ok. Ou seja, nada memorável.
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Ilha do Medo – Adaptação do romance Paciente 67, do americano Dennis Lehane, por um dos maiores cineastas vivos dos EUA: Martin Scorsese. Mais uma vez, é Leonardo DiCaprio quem interpreta o protagonista, um detetive federal que, juntamente com seu parceiro, Mark Ruffalo, é incumbido de investigar o desaparecimento de uma paciente de um manicômio situado numa ilha em Boston, a Shutter Island. Ocorre que, o que poderia resultar num suspense convencional, se torna algo bem mais interessante graças à genialidade de Scorsese, artista que domina como poucos as técnicas cinematográficas e conhece profundamente a história do cinema. Temos então um thriller psicológico em que a veracidade das imagens é sempre dúbia, em que realidade e sonho se confundem, e onde as identidades são sempre imprecisas, mutáveis.

Todo o elenco está muito bem. Destaque para as atuações de Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Max von Sydow e Jackie Earle Haley.
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Como Treinar o Seu Dragão – Um garoto desengonçado chamado Soluço vive numa vila de vikings. Seu pai é um grande guerreio e líder da comunidade. A maior ameaça à prosperidade da vila são os dragões, que vivem realizando ataques surpresas que se desdobram em grandes batalhas. A falta de talento para a guerra faz com que Soluço seja motivo de chacota entre os habitantes da vila, para decepção de seu pai. Isso só muda quando o garoto captura um “Fúria da Noite”, espécie de dragão mais temida pelos vikings, e aprende a como domá-lo.

Soluço passa a aplicar as técnicas aprendidas na convivência com o Fúria da Noite Banguela nos treinamentos nas aulas de combate a dragões da escola viking. Isso faz com que ele conquiste o respeito da comunidade e seja visto como um futuro grande guerreiro. O maior desafio de Soluço será convencer a todos de que os dragões não são seres malignos, e que a convivência entre eles e os humanos pode ser pacífica.

É esse o entrecho da última e bem-sucedida animação da Dremworks. Com esse argumento inspirado no livro homônimo de Cressida Crowell, os diretores Chris Sanders e Dean Deblois criaram um filme terno, engraçado, e com ótimas cenas de aventura. É mais um acerto dos produtores da Dremworks, que a cada filme tenta superar - ou ao menos igualar – a excelência criativa da Pixar, sua maior rival.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Entrevista de Lula na Band


O programa Canal Livre, da Band, exibiu ontem à noite uma entrevista exclusiva com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A conversa ocorreu em Brasília, no Palácio do Planalto, o que favoreceu muito o entrevistado. Se o encontro tivesse ocorrido em “território neutro”, talvez os jornalistas Joelmir Betting, Fernando Mitre, José Luiz Datena, Boris Casoy e Antonio Telles não tivessem se mostrado tão timoratos diante de um Lula seguro de si e articulado como nunca.

Mas, justiça seja feita, os entrevistadores bem que tentaram “cutucar” o presidente e extrair dele revelações sobre assuntos espinhosos - mensalão, censura, reformas várias etc. Entretanto, bom político que é, Lula soube escapar a todas as investidas, e ainda por cima reverteu alguns fatos a seu favor.

Como de costume, Lula colocou a culpa de muitos tropeços de seu governo em terceiros. Disse, por exemplo, que a reforma trabalhista só não aconteceu porque os setores interessados não chegaram a um acordo. Quanto às tentativas de controle da imprensa por parte de governistas, Lula objetou que, se houve propostas nesse sentido, elas surgiram de debates democráticos entre algumas associações de jornalistas, e que ele próprio acredita que os únicos atores que podem regular a imprensa são os telespectadores, leitores, e ouvintes.

Sobre a candidata do PT à presidência da República, Dilma Roussef, Lula afirmou que o fato de ela estar concorrendo é uma vitória da democracia, e que a ex-ministra vai surpreender nessas eleições. Aliás, a palavra democracia foi uma das mais citadas pelo presidente, que declarou não ter sequer cogitado a possibilidade de pleitear um terceiro mandato porque “com a democracia não se brinca”. Segundo Lula, esta foi uma das muitas convicções que ele adquiriu ao longo de sua trajetória. Outra afirmação acertada do presidente foi a de que a população brasileira jamais aceitaria qualquer tentativa de agressão à nossa democracia conquistada a duras penas e finalmente consolidada. Tal asserção não causaria nenhum tipo de estranhamento se não viesse de um político que apóia (e se diz amigo) de líderes totalmente antidemocráticos como Fildel Castro, Hugo Chávez, e Mahmud Ahmadinejad.

Essa pode não ter sido a “entrevista dos meus sonhos” com o nosso presidente, mas com certeza foi uma boa entrevista. Sobretudo porque Lula demonstrou que amadureceu bastante nesses oito anos de governo – apesar de ainda ostentar certa arrogância e megalomania.