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quarta-feira, 9 de junho de 2010

*Alguma coisa urgentemente

Sabe aquela sensação de que seu organismo, sua mente, seus anseios, seus medos, sua rotina estão te matando aos poucos? Uma sensação de sufocação que nos leva gradativamente ao desespero. Então...

Tudo bem, eu já esperava que você fosse objetar que qualquer pessoa, bem ou mal de saúde, satisfeita ou insatisfeita com sua vida, está morrendo aos poucos. Mas ocorre que a ansiedade gerada pelo descontentamento acelera o processo de envelhecimento e compromete a saúde de modo geral. (Não fui eu que descobri isso; consulte a literatura médica, ou o Google, tanto faz.) E era exatamente esse ponto que eu queria ressaltar.

Pena que seja tarde demais. Como foi que cheguei a essa conclusão? Não precisa ser nenhum gênio para saber. Você simplesmente acorda agitado no meio da noite e descobre que é tarde demais; que as coisas estão perigosamente distantes do ideal, e que por mais que você corra, jamais alcançará aquele bonde chamado satisfação, plenitude, maturidade.

(Puta que pariu! E não é que estou escrevendo igual à Lya Luft? Deve ser resultado de mandinga dos meus desafetos – que são poucos, graças a Deus.)

A juventude é uma mulher fatal. Um vírus incubado que pode se manifestar abruptamente caso você se torne um deslumbrado ou adquira o mau hábito de chorar com pena de si mesmo. Num dia você se sente apto a levantar os mais pesados halteres e a dirigir bêbado e em alta velocidade na contramão, e no outro você se descobre mais humano, matutando, algo acovardado, a respeito do seu futuro que se anuncia inglório. Eu queria ser muito mais, mas acabei me transformando nisso! E o pior é que a culpa não é dos meus pais, nem dos sucessivos governos corruptos e ineficientes, ou do pé na bunda que levei na oitava série. A culpa é minha e sua, porra!

Ouvir aquela velha canção do Bob Dylan te faz relembrar os amigos que se foram, os vivos e os mortos. Pequenas madeleines embebidas em cerveja preta suscitam mergulhos existenciais e engendram maremotos de melancolia. A recorrência e o apelo da infância são sempre um bom conhaque para noites frias e inóspitas. Mas talvez a estratégia mais eficaz para combater os dissabores do presente seja se apegar às pequenas conquistas, às virtudes incontestes que persistem mesmo na adversidade. E então gozar por um instante de uma felicidade “por assim dizer sem motivo”, como diria Clarisse.

É possível que você tenha lido os livros errados. Como é mesmo que se faz para viver um grande amor, seu Vinicius? Talvez esteja na hora de aderir definitivamente à “onda verde” e reciclar seus valores. Se você foi desmamado cedo demais, se descobriu precocemente que seu pai é um imbecil (e que você não é muito melhor que ele), se foi vítima de bullying, se em algum momento se sentiu confortável nadando neste caldo azedo de cultura em constante ebulição que banha desde Nova Iorque até o “cu do mundo”, se vive impelido a fazer alguma coisa urgentemente para não “desperdiçar sua vida” - e se, por fim, você passar a descrer da humanidade, com agá minúsculo ou maiúsculo, saiba que você não está só. Pulsos cortados, jorrando sangue, e um marmanjo dependurado numa corda atada ao pescoço podem até ser imagens românticas e, é preciso admitir, sedutoras, mas o apelo do suicídio nos é mais útil se encarado como “sopro de vida” (Clarisse de novo).

Bem, eu e você queremos crer quê, não?

* O título é o mesmo de um excelente conto do escritor João Gilberto Noll.

domingo, 28 de março de 2010

Olhos Castrados

Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o grito do galo ou ao ouvirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os “prazeres da carne”, na condição de que sejam insossos.

(Trecho de História do Olho, de Georges Bataille.)

***
Sonho nº 12

Como de hábito, eu tinha passado as dezoito horas em que me mantivera acordado em constante conflito comigo mesmo. Naquela noite, o sono me engolfou por volta das quinze para as duas, depois de eu ter ficado meia hora pensando em como fazia tão pouco tempo que eu não adormecia sem antes me persignar e agradecer a Deus pelo meu bem-estar e o de meus familiares. Aos quatorze anos, eu era um menino temente a Deus, que sofria de insônia, e só se apaixonava por “garotas problemáticas”. Hoje não bendigo nem maldigo Deus nem o diabo, alterno noites de insônia crônica com períodos de folgada hibernação, e procuro sempre renovar meu amor pela mesma mulher: aquela que criei para mim mesmo tão-logo me vi envolvido pelas coisas do amor e do sexo (e da morte, claro!) há mais ou menos vinte anos.

Foi com essa mulher que sonhei aquela noite. Era então apenas uma amiga que tinha pudor em chorar apoiada em meus ombros. Eu era seu confessor mais fiel. E o mais que ela sabia sobre mim era que eu disfarçava minha solidão – mal e porcamente, ressalte-se – enviando mensagens de esperança e de adeus em garrafas de cerveja para ninguém. No sonho eu me negava a admitir que estava irremediavelmente apaixonado por ela. Para não correr o risco de ser desnudado pela força arrebatadora do seu olhar, eu tentava me manter o mais distante possível do seu campo de visão. Às vezes baixava a guarda e era surpreendido por uma investida sua que, por mais que eu relutasse em aceitar, acabava por extrair de mim revelações que só viriam à tona em sonhos ou em pesadelos febricitantes. Nossos momentos de maior intimidade se davam quando ela chorava e dizia desconhecer o cerne de sua dor. E o mais próximos que chegávamos da lubricidade era quando nos entregávamos desvairadamente à nossa idiotia galhofeira que nos provia de imensos e prazerosos risos.

Certo dia ela desapareceu resguardada pela neblina do sonho. E, para minha surpresa, seus amigos mais próximos me atiraram pedras. Diziam que eu só podia ser cego para não perceber que ela se afastara porque sentia que eu nunca corresponderia a seus anseios de mulher apaixonada. Fiquei furioso. Arranquei meu coração à unha e o guardei dentro de uma gaveta. Ela nunca mais voltou. E eu simplesmente acordei.

sábado, 20 de março de 2010

Aparições

"Desde sempre, dormíamos cada irmão em seu quarto. Cumpri o dever de ser homem e deitei-me sozinho (...) Mas no outro dia, assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava."


(Trecho do romance Aparição, do português Vergílio Ferreira)

***

Sonho nº 3

Ontem sonhei com Isabela Rosselini e perdi a hora para o trabalho. Encontrei-a numa festa de amigos comuns e pus-me a falar de minha admiração por ela desbragadamente. Era uma reunião íntima num apartamento modesto porém aconchegante, e - absurdo dos absurdos - os anfitriões eram seres sem rosto. Isabela foi gentil e atenciosa, mas parecia não compreender muito bem meu inglês middle brown. Descrevi o quanto seu trabalho me afetara em filmes como Veludo Azul e Amantes, por exemplo, enquanto bebíamos uma garrafa de vinho branco. Tamanho era meu entusiasmo ao falar de como suas performances em determinadas cenas eram de uma beleza quase etérea que me levava às lágrimas (ref. A cena da despedida com Joaquim Phoenix, na escada do prédio, em Amantes), que a certa altura Isabela pareceu descrer de minha sinceridade. Mas não havia a menor mossa de cinismo em minha postura, tudo o que eu desejava era dizer à Isabela o quanto eu a amo; o quanto admiro sua beleza clássica e seu domínio dos silêncios em cena. Eu bem que tentei transmitir isso a ela e acho que não me saí muito bem porque, sempre cortês e sensual, ela sorria e dizia oh, thank you! Kind of you, dear! Até que seu marido apareceu para apanhá-la. Assim que o vi pensei: esse sujeito não me é estranho, apesar de seu rosto estar oculto por uma esfera branca e lisa, tal qual os dos donos do apartamento. E mal o casal se despediu, eu acordei com o berro do meu celular. Era meu patrão, que, furioso, me chamava à responsabilidade.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Highsmith-Dickinson-Skylab



A escritora americana Patricia Highsmith (1921-1995), criadora da série de romances policiais do personagem Ripley, em foto dos anos 40.



Existe um árido prazer
Que da alegria difere
Como o gelo, do rocio -
Embora o mesmo elemento sejam.

Para a flor, o orvalho é festa,
e a geada é desprazer -
O mais fino mel congelado
Não tem valor para a abelha.

(Emily Dickinson, in Poemas escolhidos, 2008, L&PM)



Rogério Skylab canta "La mer", este segundo hino francês, de Charles Trénet.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Controle seu intestino

(um post filosófico e anti-higiênico)

Alguns de vocês dirão que perdi o juízo, mas nem isso me impede de escrever a sentença seguinte: A busca desenfreada pela qualidade de vida assola nossa sociedade.

Eu sei que você, distinto leitor, nada tem que ver com a legião de semi-analfabetos que garante a expansão do mercado de livros de auto-ajuda e demais títulos "úteis", fofos e gratificantes que atulham as prateleiras da meia dúzia de livrarias de que dispõe nossa grande nação. Também sei que você não sofre de acefalia – mal que campeia entre a maioria dos chimpanzés de classe média que enchem os carrinhos no supermercado, “passeiam” no shopping toda semana, trocam de carro e de aparelho celular todo ano, têm dois ou mais cartões de crédito, são vítimas de falso seqüestro, entre outras absurdidades. E é justamente por isso que me dirijo a você, pois sei que a chance de ser compreendido é maior. Não que isso tenha grande importância, mas a verdade é que até o mais cínico dos cronistas deseja encontrar leitores que se identifiquem com o conteúdo de seu discurso e /ou sejam capazes de criticá-lo com alguma habilidade.

O livro de auto-ajuda é, a meu ver, o objeto que melhor representa o estado em que a sociedade de consumo se encontra atualmente, o nosso zeitgeist. Os conselhos e as parábolas didáticas encerrados nas páginas dessas publicações denotam o grau de imbecilidade e alienação em que boa parte da população está mergulhada. Tudo o que importa é a busca pela qualidade de vida (leia-se felicidade), que pode assumir as mais variadas formas, dependendo do sujeito que a almeja. E o fato de eu ter deparado hoje na livraria com um livro intitulado Controle seu destino acabou por suscitar estas reflexões.

Não cheguei a folhear o referido livro; o que me manteve absorto por alguns instantes foi a suposição de que, se o título do livro fosse Controle seu intestino em vez de Controle seu destino, ele seria muito mais interessante. Livros de auto-ajuda deliberadamente utilitários, que orientam o leitor a realizar determinadas tarefas por conta própria, ou a se prevenir de doenças, por exemplo, não despertam minha antipatia. Os títulos que merecem meu total desprezo são aqueles que vendem uma “fórmula de felicidade”, que ensinam o sujeito a se tornar tão feliz quanto um chefe de família de propaganda de margarina.

A linguagem simplista e estúpida presente nesses livros está alinhada à adotada em determinados programas de tevê que têm como propósito ajudar o espectador a (supostamente) viver melhor. Oprah Winfrey entende um bocado disso. Outra apresentadora que se arvora em detentora da fórmula do bem-estar é a inglesa Gillian McKeith, cujo programa – também exibido pelo canal GNT – consiste em reeducar os hábitos alimentares dos britânicos. Numa das edições do Você é o Que Você Come, Gillian listou os 12 alimentos mais nocivos à saúde das pessoas, e, entre as muitas declarações categóricas que deu durante o programa, a que mais me chamou a atenção foi a de que apenas as fezes daqueles que se alimentam mal fedem. Ou seja, a merda de quem “come bem” é inodora, quiçá até perfumada, imagino. As pessoas só cagam fedido porque querem, afirma a apresentadora.

(Penso nos que dizem se alimentar apenas de luz. Sim, pois existem tais pessoas, que não ingerem nenhum tipo de alimento: vivem de luz. Qual será o odor da bosta deles? Aliás, se eles não comem nada, então nem devem produzir bosta nenhuma).

Há os vegetarianos radicais, que se julgam seres superiores à maior parte da humanidade, composta por bilhões de carnívoros empedernidos. Agem como se o fato de não comerem nenhum alimento de origem animal fosse uma espécie de ascetismo, como se Deus os preferisse aos demais mortais comuns. Há também os fanáticos da estética, que cultuam o corpo com ardor religioso, e não o “conspurcam” com alimentos não-saudáveis nem com o ócio. Os doutrinadores do sexo, que estão aí para nos ensinar a transar da maneira mais higiênica e eficaz, para que possamos sentir muito prazer e amiúde, mas sempre com muita segurança e assepsia. Sem esquecer os ditadores da moda, que forjam determinados patrões de beleza que excluem a maioria das pessoas desse mundo de gozo pleno, de glamour.

Autores e leitores de auto-ajuda e "literatura fofa"; apresentadores de tevê “do bem”; radicais da alimentação e da estética; doutrinadores do sexo; ditadores da moda e quejandos – corja que quer nos ensinar a viver bem, que quer nos vender a fórmula da felicidade. Por favor, nos deixem ser infelizes em paz.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

*Post de outros carnavais

Findos os quatro dias de folia, voltamos à nossa rotina de chimpanzés.

É hora de fazer um balanço da festa: contar os mortos nas estradas, os mortos a tiro, os bêbados mortos, os amores mortos... Triste contabilidade, enfim. Mas sem novidades no front.

Os puxadores de samba (Jamelão odiava que o chamassem assim; dizia que era cantor e ponto), os mestres-salas, as porta-bandeiras, os mestres de bateria, os carnavalescos cairão no ostracismo durante doze meses, após o quê emergirão do anonimato para serem novamente celebrados por todos nós. As rainhas de bateria profissionais (Luma de Oliveira, Luiza Brunet, Adriana Bombom, Viviane Araújo etc.) nos privarão de seu charme e gostosura durante todo esse tempo. Os orixás também voltarão à clandestinidade, como os camelôs e as putas. Nossa sociedade predominantemente católica só os tolera durante o carnaval, quando então podem ser enredo de escola de samba, ir atrás dos trios elétricos (se tiveram 600, 800 reais para comprar um abadá, claro), se vestir de mulher e brincar num bloco qualquer, whatever. Podem até aparecer na televisão - o que, em última análise, os legitima.

***
Luiz Zanin, crítico de cinema do Estadão, em post recente em seu blog, lembrou que A Lira do Delírio é, provavelmente, o melhor filme brasileiro cuja trama se passa durante o Carnaval. Concordo. Walter Lima Jr. fez um desses filmes que nos encantam pela maneira "despretensiosa" como foram filmados. Tudo parece muito natural: os atores flanam pelos cenários, inebriados, eufóricos, apaixonados. Nada é estilizado. Não é cinema-favela, nem cinema-agreste. É CINEMA e fim de papo.

Convém ressaltar que esse tipo de cinema (naturalista, marcado pela improvisação) não é o único que me interessa. Nem tampouco estou aqui para fazer a defesa irrestrita do cinema nacional. Ocorre que A Lira do Delírio é um projeto nessa linha de dramaturgia calcada na parceria ator-diretor - em que o roteiro é criado conjuntamente, com o mínimo de premeditação - que deu certo. Não por acaso o filme se tornou um clássico.

E mais não digo. Porque já estou ficando pernóstico.(Graciliano Ramos gostava desse adjetivo: pernóstico; seus livros estão cheios dele. Foi assim que aprendi a gostar também.)

*Publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2009.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Confissões de ano velho II

“Quanto mais claramente enxergamos este mundo, mais nos vemos obrigados a fingir que ele não existe”.
James Salter / Um Esporte e Um Passatempo

Em abril do ano passado eu me encontrava com a alma pesada. Acho que, na realidade, era meu corpo que estava inchado pelo excesso de ócio e por uma espécie de abstracionismo auto-indulgente. Em casa ou na rua, eu boiava ou flutuava ao invés de caminhar. Era paradoxal: como um corpo inchado e adiposo podia flanar por aí qual um ectoplasma? Não me ocorriam respostas nem soluções. Minha língua e meu humor afiados eram defesas cínicas de alguém desacreditado, alguém comprometido apenas com a própria miséria, que se fiava em pequenas esperanças, cartas e amigos antigos, e frases e gestos de efeito.

Lado a lado na parede do meu quarto, dois diplomas – o de conclusão do ensino superior, e o de participação e destaque num concurso literário de âmbito nacional – que não me serviam para nada. Apesar do esforço sincero que fazia para manter a cabeça erguida enquanto buscava conquistar espaço e ocupação (concursos públicos, mais concursos literários, entrevistas e entrevistas de emprego) num mundo decadente em que suas loas de progresso eram seus próprios estertores, eu sempre falhava; já começava a batalha previamente derrotado.

Mas então chegou o mês de maio e eu recebi um telefonema de um velho amigo ali pelas sete da noite. Ele me perguntou o que eu estava fazendo e eu disse nada de produtivo ou saudável - e isso bastou. Em menos de uma semana eu tinha um emprego, responsabilidades, direitos e deveres, enfim, uma ocupação para viver e morrer disso. De segunda a sexta feira, das nove às dezoito horas. Dar as mãos aos homens comuns e participar dessa ciranda.

Algum tempo de adequação à rotina (radicalmente?) alterada e às exigências do trabalho. Faça frio ou calor, sob sol ou chuva, é preciso acordar por volta das sete e meia, fazer a higiene matinal, trajar esporte-fino, colocar marmita / guarda-chuva / livro dentro da mochila, e tomar o ônibus para o centro da cidade. Quando batem as nove horas, é tempo de entregar-se à faina do escritório. Por sorte os companheiros de trabalho são pessoas muito boas; o dia-a-dia pode até ser estressante e ocasionar dissabores, mas nunca por conta deles.

Minha alma – esse apêndice metafísico onde se depositam todas as minhas angústias – continua pesada, mas agora não flutuo nem bóio por aí como uma sacola plástica. Tenho andado por entre a gente com os pés descalços e os bolsos (quase) vazios. Eventualmente queimo os pés no asfalto em brasa e procuro manter a cabeça erguida.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Confissões de ano velho I

No início de 2009, eu era um ser errante, algo patético, sem ocupação nem perspectiva. Enquanto aguardava a possível confirmação do pouco de talento que havia algum tempo acreditava ter, resolvi criar este blog para me distrair. Em março essa confirmação veio na forma de um reconhecimento por parte do júri do maior prêmio literário para autores estreantes do país. Embora meu livro não tenha sido o vencedor da categoria romance, a menção honrosa que lhe foi concedida insuflou algum ânimo em meu espírito e me incentivou a continuar escrevendo. Não que agora eu tenha plena certeza de que nasci para ser escritor; não se trata disso. Aliás, nunca fui possuidor desse tipo de convicção. Nunca me julguei predestinado a nada.

No entanto, eu continuei minha busca por ocupação. Vagava por Guaratinguetá e por cidades vizinhas à procura de emprego, preenchendo fichas, respondendo a perguntas de recrutadores psicólogos e psicólogos recrutadores; de baldeação em baldeação, com dinheiro contado, uma pastinha de plástico transparente ridícula debaixo do braço, distribuindo currículos e pequenas inverdades convenientes.

Às vezes enveredava por descaminhos francamente aterradores. Aceitava apadrinhamento de gente mau-caráter e fingia crer em doutrinas e métodos que sempre havia julgado ilegítimos. Numa dessas manhãs desesperançosas e aflitas, acabei indo parar num templo religioso do magnata ungido R.R. Soares, levado por um fotógrafo calhorda amigo do meu pai. Waldemar era um troglodita pio e desonesto, alguém com quem somente o biltre do meu pai poderia manter laços de amizade.

Na ocasião, assustado e vexado debaixo daquela cúpula azul celeste, ouvi a palavra do Senhor através da boca de um pastor com sotaque carioca que tinha pinta de pagodeiro. Enquanto o pastor Edmilson se preparava para derramar suas bênçãos sobre mim, Waldemar lhe fornecia informações a meu respeito e a respeito de minha família: o garoto está com um encosto tremendo e a família é assombrada por demônios: o pai é um bêbado, a mãe uma dona-de-casa infeliz, e a avó uma anciã enferma. Então o pastor pediu para que eu fechasse os olhos, erguesse os braços na direção do céu, e deixasse o Espírito Santo agir. E foi assim que este blogueiro ímpio acabou “curado” em nome de Jesus, do pastor Edmilson, de R.R. Soares, e do Waldemar, o fotógrafo.

domingo, 29 de novembro de 2009

Verdades literárias

Todos desejamos resgatar por intermédio da memória cada fragmento de vida que subitamente nos volta, por mais indigno, por mais doloroso que seja. E a única maneira de fazê-lo é fixá-lo com a escrita.

A literatura, por mais que nos apaixone negá-la, permite resgatar do esquecimento tudo isso sobre o que o olhar contemporâneo, cada dia mais imoral, pretende deslizar com a mais absoluta indiferença.

Enrique Vila-Matas / Bartleby e companhia


Alguns fatos só se tornam verdadeiramente críveis quando colocados no papel. Certas experiências só adquirem sua real dimensão quando consubstanciadas em literatura. O mero relato oral ou o discurso jornalístico nem sempre se prestam à melhor exposição de determinados acontecimentos. Às vezes, apenas uma forma alternativa de narrar, que nem sempre é a mais clara ou a mais razoável, consegue transmitir sensações e idéias dos mais variados matizes.

Quando iniciei meu roman à clef Paroxetina, não tinha idéia do estilo de narrativa que desejava criar. Só sabia que precisava compartilhar certos aspectos da minha vida que - devido a uma série de fatores, mas principalmente pelo fato de eu ser uma pessoa muita reservada (leia-se extremamente tímida) - sempre foram circunscritos ao conhecimento de poucos. E o que eu pretendia com isso? A bem dizer, o motivo ainda não me é claro até hoje, um ano após a conclusão do livro, porém tenho certeza de que ele está muito mais relacionado à busca por autocompreensão e à necessidade de * “compartilhar minha solidão, torná-la meio de conhecimento”, do que a alguma compulsão autodepreciativa ou à urgência de clamar por ajuda.

O estilo por assim dizer “tragicômico” só foi definitivamente adotado quando a narrativa já se encontrava pelo meio, o que me obrigou a reescrever boa parte da história. Esse tom foi escolhido no intuito de mitigar um pouco a natureza extremamente dramática / pesada dos temas tratados (alcoolismo, violência doméstica, síndrome do pânico, esquizofrenia, bissexualismo; a velhice, a solidão; o “fim da inocência”; o fim do mundo...). Se tivesse optado por um tom mais seco, solene, ou jornalístico, talvez a leitura do livro se tornasse insuportável. Não que este tipo de narrativa não renda boa literatura, pelo contrário. (E J. M. Coeetze é o nome que me vem com mais força à memória como exemplo de grande escritor sisudo.) O importante é que o estilo adotado seja coerente com o teor da narrativa.

Um livro que acabo de ler e que está cheio de “coerência narrativa” é Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, romance gráfico da americana Alison Bechdel, que descreve o conturbado relacionamento da autora com o pai, e os prazeres e dissabores de se crescer num lar disfuncional.

Fun Home é a primeira graphic novel que leio, uma agradabilíssima surpresa. Impossível não se emocionar com o texto e os traços criados por Bechdel, alguém que soube se utilizar brilhantemente de duas linguagens complementares para contar uma história tão íntima, delicada, triste, e divertida. Ou seja, uma história universal.

Aqui, uma análise de Fun Home por Michel Laub.

* Isso é Drummond.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um desejo de morte ou de dor

Continuamos a caminhar. (...) Retomamos o caminho. Até quando? Os homens vão morrendo a nossa lado. Breve, morreremos nós também, sem termos feito o que foi sonho em nós, ou fantasia. A vida é assim. Temos de vivê-la, é nosso ofício provisório. Um dia, sem que saibamos por que nem como, talvez pingue de nós, obscuramente, ao caminharmos à noite, o começo de uma longa história.

Antonio Carlos Villaça / O Nariz do Morto

Eu me olhava no espelho e perguntava: Você quer a vida medíocre? E se você precisar que alguém lhe estenda a mão para atravessar a rua... Bem, é natural que você sinta medo. Acho que sim. Olhar para baixo do alto de um grande edifício ou de um viaduto costuma causar vertigem e ânsia de vômito em quem nunca se encaixou confortavelmente no escaninho que lhe foi legado pelo destino. Você quer a vida medíocre? Para começar a viver de verdade, arrisque dar um passo à frente. Ande – desacreditado ou não – pelo fio dilacerante da absurdidade, e goze, em vez de simplesmente lamentar, o desconforto causado por cada sorriso amarelo. Por que você não cumprimenta ou sequer encara os fantasmas que fazem a ronda noturna nos seus sonhos mais pesados e úmidos? Sinta o desequilíbrio, a angústia e os questionamentos perpétuos que enfraquecem gradativamente seus ossos. Suas mãos estão úmidas e frias, seus pés estão moles e começaram a se esfarelar, sua cabeça lateja e sua boca está dormente. Custa colocar dois ou três substantivos concretos e coloridos neste texto? Você deveria se permitir um cheiro (bom ou ruim, não importa), uma imagem (um homem magro e pálido que usa um chapéu marrom de couro, fuma um cachimbo castanho e perolado, e ri ou chora nervosamente; uma mulher velha e gorda, tintura roxa no cabelo crespo e curto, que sobe ofegante uma ladeira), ou até um toque morno e fugidio de uma criança peralta ou de um animal mais ou menos domesticado. E mesmo se nada existisse. Ou então se tudo o que lhe disseram repetidas vezes, com entonações variadas e alguns falsetes, for verdade. Quando você cair e não puder mais abrir os olhos que já terão escorregado mansamente por um desvão qualquer do mundo... Se você se diluir todo durante a última chuva, se ela aguar seu sangue e torná-lo menos espesso, talvez você finalmente se misture e se confunda com todos os outros seres e as substâncias todas que um dia os homens lograram nomear, e possa, quem sabe, respirar de novo.

Você quer a vida medíocre?

***

Paulinho da Viola conta e canta Lupicínio Rodrigues.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Forever Young

Eu ia escrever um post sobre os últimos filmes que vi na tevê, mas, uma vez que os dois posts anteriores ficaram uma merda, resolvi poupar dessa chateação os dois ou três leitores habituais deste blog. Se bem que é forçoso não compartilhar o fato de ter visto As Virgens Suicidas pela segunda vez ontem à noite.

O primeiro e surpreendente filme de Sofia Coppola é uma adaptação do extraordinário romance homônimo do americano Jeffrey Eugenides, lançado no Brasil pela editora Rocco, em ótima tradução de Marina Colasanti. Após debutar no cinema como atriz na terceira parte de O Poderoso Chefão, e ter sofrido duras críticas por sua atuação medíocre, Sofia resolveu voltar ao meio agora como diretora, e escolheu um material no mínimo ousado, que poderia ter comprometido seriamente essa sua nova empreitada. Para sorte nossa não foi o que ocorreu. Tendo o pai, Francis Ford Coppola, como um dos produtores, e o apoio de um elenco de primeira – com destaque para James Woods e Kathleen Turner, que vivem os pais das cinco adolescentes -, Sofia conseguiu fazer um filme sensível e original, ainda que não impecável. Entre as lindas garotas loiras que interpretam as irmãs suicidas, destaca-se a talentosa Kirsten Dunst, que voltaria a trabalhar com a diretora em Maria Antonieta, no qual interpreta o papel-título.

Quando vi o filme pela primeira vez, eu ainda não havia lido o livro. Depois de ter comprado e lido a edição de bolso lançada pela Rocco em parceria com a L&PM por R$ 13,00, achei o filme ainda melhor. Trata-se de uma brilhante adaptação de um romance complexo, narrado na segunda pessoa do plural por um grupo de garotos que testemunham a morte de cada uma das meninas.

***

Bob Dylan é gênio? A maioria dos chimpanzés (eu incluso) acha que sim, mas há quem o considere apenas um compositor competente e superestimado. Lembro de uma cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa em que (o genial) Woody Allen ridiculariza o músico num curto bate-papo com uma fã dele. A propósito, quem interpreta a tiete de Dylan é a ótima Shelley Duvall, de O Iluminado, e Popeye. Por ande anda Shelley Duval?

Um compositor nacional constantemente comparado a Dylan é Chico Buarque, que já chegou a ser chamado de “Bob Dylan brasileiro” nos EUA. Chico é quase unanimidade no Brasil: gênio. Mas seus detratores o acusam de barroco e exageradamente rebuscado. Na minha modesta opinião, o repertório de Chico vai do sublime ao tedioso, sempre com muita dignidade. Foi esse, aliás, o parecer de Paulo Francis a respeito de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, como li numa dessas deliciosas coletâneas de artigos do escritor.

domingo, 10 de maio de 2009

Dez anos depois

É comum em entrevistas de emprego o recrutador perguntar ao candidato como ele se imagina dali a dez anos. Tal pergunta tem o propósito de aferir o grau de objetividade do candidato, e como ele se posiciona diante da vida. Falar bobagem nessa etapa é dar adeus à chance de emprego. E como ter certeza de que sua resposta é original, e que, mais importante de tudo, irá agradar ao entrevistador? Difícil saber.

Minhas respostas sempre foram vagas, não raro insinceras. Mas não por desonestidade de minha parte, e sim porque nunca soube ao certo o que queria (quero) para mim no futuro. Em garoto eu vivia dizendo que gostaria de ser engenheiro, o que enchia meu pai de orgulho e esperança. Engenheiro, o filho teria emprego garantido e em poucos anos ganharia muito mais dinheiro do que ele ganhara a vida toda. Contudo eu sequer sabia no que consistia a profissão de engenheiro, tampouco que existem vários campos de atuação para esse profissional. Minha disposição de me tornar um engenheiro provia do meu desejo de ser rico - mais rico que meu pai, o que não era difícil -, e naquela época eu só conhecia três tipos de pessoas que ganhavam dinheiro: médicos, engenheiros, e artistas. Como sempre fui facilmente impressionável, nunca cheguei a aventar a possibilidade de me tornar médico. Já meu “lado artístico” nunca foi muito desenvolvido, apesar de eu ser dramático por natureza e viver imitando cantores populares e não tão populares assim longe de olhares críticos e / ou reprovadores. É verdade que houve uma época em que quis ser pintor, outra que quis ser roteirista de HQ, e, mais recentemente, um período em que desejei – ardorosamente, diga-se -, ser cineasta. Tudo ponderado, tratei de me colocar no meu devido lugar. Eu andei pensando em suicídio. Melhor dizendo, em quanto o suicídio é contraproducente. Acho que só acredito no suicídio como “expressão artística”, ou algo que o valha.

Daí que eu sempre fui um ator medíocre. E um notívago de quinta categoria. Quase nunca cedo meu lugar no ônibus por vergonha e ruborizo ante uma mulher bonita. Dizem que não acredito em Deus por preguiça, mas não é verdade (?). Falam de minhas carências sem ter coragem de sondar minhas virtudes. No fundo, sou um romântico - no melhor sentido do termo, qual seja o de alguém que ama o belo e reconhece as mazelas do mundo sem jamais tirar os pés do chão. Sei lá. Eu queria ser poeta. Mais combativo. Cara-de-pau. Um compositor popular, como já comentei aqui outro dia. Escritor? Não sei. Quero tanto que tenho medo. E, como dizia Clarice Lispector, quem tem medo de escrever jamais escreverá algo que preste.

Nesta semana inicio uma nova fase na minha vida. Não, não vou sair por aí com mochila a tiracolo, sem lenço nem documento, saudoso da época em que ser hippie era a única maneira decente de levar a vida. Vou começar num emprego novo. Vou trabalhar com finanças, empréstimos, juros simples e compostos. Vou de esporte fino. E vou graças à generosidade de um amigo, que acreditou em mim e me deu esta oportunidade. Um amigo.

Tento me imaginar daqui a dez anos, debalde. Tento me imaginar escritor. Mas mal consigo vislumbrar o que me aguarda daqui a dez dias. O presente é tão grande, cantava o poeta. Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. E, se possível, vamos de mãos dadas.

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domingo, 3 de maio de 2009

Ao vencedor, as batatas

"Em todo caso, havia um só tunel: escuro e solitátio - o meu."
Ernesto Sábato / O túnel

Quando eu era garoto, acreditava que tudo correria bem no futuro desde que eu seguisse os passos que traçava com base no que as pessoas me haviam dito que era bom, justo, promissor. Bastaria continuar a me dedicar aos estudos, a respeitar meus pais, e a me alimentar corretamente. Seguindo esta receita tão básica, o início da minha vida adulta seria tranqüilo, cheio mesmo dessa substância, desse hormônio tão almejado que chamam de felicidade. Eu me formaria numa boa faculdade, arranjaria um ótimo emprego, conheceria uma mulher incrível, e constituiria uma família exemplar num lar aconchegante, desses para o qual a gente tem vontade de voltar correndo depois de um longo e exaustivo dia de trabalho.

Desnecessário dizer que nada disso aconteceu. Minha "vida adulta", se é que ela já começou, é um verdadeiro desastre. Por que estou falando disso? Não estou chorando o leite derramado não - longe de mim! É que dois filmes que vi esta semana me fizeram refletir sobre minha condição, e sobre o quão ingênuo eu fui acreditando que, caso eu me engajasse num projeto de "vida feliz", tudo correria às mil maravilhas. A propósito, os filmes que suscitaram estas ponderações são Clamor do Sexo, do Elia Kazan, e Mundo Livre, do Ken Loach. Basicamente, a única coisa que têm em comum, além de serem ótimos filmes, é a desesperança, precedida de desespero, que assola as personagens - jovens que um dia acreditaram que seriam vitoriosos na vida profissional e no amor, dois dos aspectos mais relevantes na medição do grau de felicidade de uma pessoa - num dado momento de suas vidas.

É assustador (e ridículo também) pensar que, após ter amargado várias derrotas, passei a apostar as fichas que me restavam num único livro. Um livro do qual ora me orgulho, ora me envergonho. Algumas dezenas de páginas de alto teor autobiográfico, escritas ao longo de dois anos. Tão pouco que, quando segurei o maço de folhas da última versão do romance pela primeira vez, pensei que ele fosse se esfarelar nas minhas mãos. Eu sentia (e ainda sinto) o bafo ácido de deboche que muita gente me dirigia. E não tinham razão? O que um filho da classe trabalhadora tinha de se meter em literatura - arte praticada pela elite; ofício de gênios, loucos, veados, vagabundos? Por que não arruma emprego na indústria como o pai? Por que não age como todo jovem de bem e arranja um emprego qualquer? Mas eu procurei - e muito! - emprego. Acontece que fracassei. Não fui competente o bastante. Não me deram oportunidade. Não tive sorte. E os concursos públicos? Não tive êxito; não estudei o suficiente; não prestei os concursos certos. Nada de batatas para mim, portanto. A literatura? Todos nós sabemos que nunca deu dinheiro. Conta-se nos dedos os privilegiados que vivem disso; os beste-sellers. Imagine: um rapazinho tímido e esquisito do interior do estado de SP, metido a escritor, e que, pasmem!, esperava que a literatura pudesse lhe abrir portas, ao menos dar-lhe um meio de subsistência, devolver-lhe a dignidade perdida... Um ingênuo! Um idiota! Um desesperado, sobretudo.
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Impossível não lembrar de O Náufrago, estupendo romance de Tomaz Bernhard.

domingo, 26 de abril de 2009

Um chimpanzé no Twitter II

Blogar no domingo / é a tarefa mais vã / entanto blogamos / cedendo ao afã
Eu, parodiando (mal e porcamente) Ele.

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Televisão: quem foi que chegou à conclusão de que nós gostamos de documentários sobre o mundo animal nas noites de domingo?

aproximadamente 2 horas ago from web

Ontem revi Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter. Mistura soberba de horror e ficção científica, com Kurt Russel em grande estilo, e música de Ennio Morricone.

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Não bastasse o abalo provocado pela crise econômica, eis que eclode essa tal gripe suína. Que Deus, Buda, Alá, e todos as outras divindades nos protejam!

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domingo, 19 de abril de 2009

Ursos panda não sofrem de insônia


O outono chegou em surdina e nos deixou a todos resfriados. Os ventos gelados de fim de tarde vieram a reboque. As xícaras de café não perduram fumegantes por muito tempo. Entre um parágrafo e outro, elas nos brindam com beijos mornos ou frios. Entre uma idéia mal acabada e outra. As pessoas vão tirando seus agasalhos do guarda-roupa, eles fedem a bolor e naftalina. Os meninos recolheram suas pipas, muitas delas jazem presas nos fios da rede elétrica, de manhã os pardais pousam nelas. No inverno a decadência é elegante. A moda dos decadentes. Cobertores velhos esquentam qual religião. Um bom livro e um bom amante. A televisão é sexo casual. Alta madrugada, canais estrangeiros exibem documentários sobre a vida selvagem. A vida amorosa dos panda gigantes chineses prende minha atenção. Violência e apreensão no contato sexual entre macho e fêmea, e o milagre prosaico que brota do ventre dela. O filhote nasce cego e pelado. Não difere muito de um filhote de rato. Difícil acreditar que em poucos meses se transmutará num belo e imponente panda adulto. A mãe o cria sozinha: o mantém rente a seu corpo peludo e aconchegante, lambe-o, amamenta-o. Quando ela sai da toca pra se alimentar de bambus silvestres, ele fica sozinho, à mercê dos predadores. Com cerca de três semanas, seu corpo já está todo coberto com uma pelagem bicolor: o branco e o preto característicos e bem distribuídos, o primeiro prevalecendo no tronco e na cabeça do animal, e o segundo cobrindo os membros, as orelhas e as inconfundíveis máscaras ao redor dos olhos. Ao dar pela ausência da mãe, o filhote abandona o confortável berço de folhas secas tramado por ela e engatinha vacilante por sobre as rochas, cabeceando e berrando desesperado como se pressentisse a aproximação de aves de rapina famintas. Não muito distante dali, a mãe ouve o clamor do filho e parte diligente de volta à toca. O reencontro é pleno de satisfação e alívio. Ela o pega ao colo e o embala serenamente com seus enormes braços sobrepostos, à semelhança de uma mãe humana. Em poucos minutos o filhote repousa tranqüilo e destemido no seguro leito materno. Há um hiato de meses e em seguida vemos o filhote já crescido, com pelo menos um terço do tamanho da mãe, aventurando-se nos arredores da toca e trepando nas árvores num arremedo do pai que não chegou a conhecer. O narrador do documentário tece suas considerações finais. A caça aos panda é punida com severidade, mas seu habitat natural está ameaçado pela intervenção humana. Que será de nós se não cuidarmos para que os panda sobrevivam? Quatro da manhã. Desligo a tevê, junto coberta, travesseiro, o livro negligenciado que depositarei sobre a cômoda, e vou pra cama. Que será do filhote de panda? Que será de mim? Tento pegar no sono, em vão.

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Enquanto o inverno não chega:


quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gabo é fã de Nelson Ned

Esta semana o Jornal da Globo exibiu duas reportagens sobre a aposentadoria de Gabriel Garcia Márquez. A primeira foi ao ar na quarta-feira e se restringiu a uma notinha sobre o fato de o célebre escritor colombiano, autor de clássicos como Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera, ter feito saber ao mundo, por meio de um agente, que deixará de escrever. A segunda - espécie de mea-culpa em relação à primeira, uma reportagem pobre demais até para os padrões televisivos - foi exibida na quinta, e contou com um breve perfil de Gabo, como ele é conhecido entre os amigos, além de exaltar o prêmio Nobel recebido por ele em 1982. Embora um pouco mais elaborada que a primeira, esta última matéria não conseguiu desfazer a impressão de que a notícia era irrelevante – não obstante a popularidade do escritor.

A meu ver, a única informação realmente importante dada pelo telejornal foi que Garcia Márquez, também conhecido por seus gostos exóticos (sic), é fã de carteirinha do cantor brasileiro Nelson Ned. Taí, gostei. Eu não sabia. Não sou fã de Garcia Márquez nem de Nelson Ned, embora admire alguns livros do primeiro e respeite a trajetória do segundo. E meu respeito por Nelson Ned advém do fato de ele ser um homem que venceu exclusivamente pelo talento. Ou alguém acha que o cara é só um rostinho bonito? Nós, os feios, os desajustados, os desempregados, os misantropos, os ansiosos crônicos, os escritores não publicados, cineastas sem filmes, pintores sem tela, os amantes do inútil, enfim, toda essa fauna de marginais e marginalizados, regozijamos quando uma criatura da nossa estirpe vence pelo talento. Nós temos orgasmos múltiplos. (Eu tenho!)

Por exemplo, quando vejo um ator / atriz (ou qualquer outro artista) fazer sucesso única e exclusivamente em razão da sua capacidade, fico felicíssimo. Significa que a pessoa chegou lá por suas qualidades realmente importantes. Não foi porque era linda, ou porque pertencia a uma classe de privilegiados qualquer, mas porque seu talento era indiscutível. Há inúmeros exemplos de gente assim. Vou citar um: Woody Allen. Goste-se ou não da obra dele, há que se reconhecer que ele se tornou um artista mundialmente respeitado por ser multitalentoso. Aliás, o tipo esquisitão que o diretor criou no cinema pode ser considerado uma figura icônica do mundo freak. Desde que seu personagem desajustado porém safo surgiu (salvo engano) no filme Bananas (1971), nós acompanhamos, filme após filme, suas desventuras e o modo como, ao final, ele sempre se dá bem. Basta listar a quantidade de mulheres lindas e inteligentes que foram suas amantes. De passagem, listo Mia Farrow, Diane Keaton, Julia Roberts, Mira Sorvino, Charlize Theron, entre outras. E o mais interessante é que, para se dar bem, por assim dizer, o tipo atrapalhado de Woody Allen nunca faz concessões: segue fiel a seu estilo, e cativa as mulheres por isso.

No filme Fatal (2008), baseado no romance O Animal Agonizante, de Philip Roth, a certa altura o personagem principal, um professor universitário (Ben Kingsley) na casa dos sessenta que tem um caso com uma aluna trinta anos mais jovem (Penélope Cruz), diz mais ou menos o seguinte: Quando fazemos amor com uma mulher, é como se nos vingássemos da morte. Inspirado nesta frase, eu diria que, quando uma pessoa “fora dos padrões” conquista um lugar de destaque, todos os freaks se vingam da vida.

P.S. - este texto também pode ser lido no ímpar-par americano, bloguinho que criei para publicar alguns comentários, rascunhos de ficções, cartas abertas, mensagens engarrafadas - enfim, nada muito distinto deste sítio; o que os difere é o fato de seus layouts serem diferentes: o ímpar-par, por exemplo, possui fundo branco.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Animais de estimação e de consumo

Os vegetarianos que me perdoem, mas carne é fundamental, ao menos na geladeira aqui de casa. E, nesses tempos politicamente corretos, de mudanças de valores prementes, de repensarmos nossa conduta de vida etc., sinto certa vergonha ao confessar que, pelo menos num futuro próximo, não me vejo parando de comer "animais mortos", como os vegetarianos radicais gostam de se referir às carnes que os humanos consumimos - sempre com o nobre propósito de nos chocar (e insultar).

Semana passada, assisti a um documentário americano chamado I Am An Animal, que relata a trajetória política de Ingrid Newkirk, co-fundadora do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), uma das mais importantes ONGs de combate aos maus tratos a animais no mundo todo. O PETA é a mais respeitável e temida dessas instituições, tanto por sua influência política quanto por suas manifestações de protesto, que envolvem desde ordeiras passeatas até pichações e depredações a butiques de luxo que vendem casacos de pele, bolsas, e outros produtos de origem suspeita.

Ingrid e seus pares contam com o apoio de várias personalidades americanas, bem como de algumas empresas e grifes como a Calvin Klein, que parou de utilizar materiais de origem animal na composição de suas roupas após sofrer forte pressão do PETA. Um dos métodos mais eficazes de persuasão utilizados pelos ativistas do PETA é a divulgação de vídeos em que animais aparecem sofrendo variados tipos de violência, muitas vezes gratuita. Para registrar esses flagrantes, a organização recruta jovens interessados em defender a causa e os envia a matadouros, criadouros e estabelecimentos correlatos, com a missão de documentar os maus tratos cometidos contra os animais.

Desnecessário dizer que as cenas contidas nesses vídeos são brutais, de revirar o estômago. Elas nos fazem repensar nossa postura de "carnívoros impedernidos", além de suscitarem um importante debate quanto à maneira que nós, os seres humanos, nos relacionamos com os animais de um modo geral. Tratar cães de estimação como iguais e trucidar aves e mamíferos para nossa subsistência é uma atitude correta? Comer um x-burguer ou se fartar numa churrascaria qualquer é compactuar com o sofrimento impingido aos bovinos nos matadouros?

Essas e outras questões espinhosas precisam ser debatidas. Escritores importantes como o Nobel sul-africano J.M. Coetzee, um notório defensor dos direitos dos animais, têm escrito ensaios e até romances em que o assunto é debatido sem qualquer forma de proselitismo. O próprio Coetzee talvel seja o romancista que trata de maneira mais elegante e contundente do tema em suas obras.

No Brasil, pelo que eu saiba, há alguns poucos escritores que tratam do assunto. Um deles é o carioca Rubens Figueiredo, autor do romance Barco a seco, do qual extraí o seguinte trecho:

Era o seu animal de estimação. E, na verdade, como não ter estima por quem obedece imediatamente aos nossos gritos e se curva com presteza às nossas repreensões e ameaças? Como não ter amor por quem podemos amarrar pelo pescoço e prender numa coleira e arrastar aonde bem quisermos, à força de puxões e pancadas educativas? Alguém que podemos trancar num minúsculo banheiro durante a noite e obrigar que fique em silêncio. Como não trazer no coração uma criatura a quem podemos, caso isso nos incomode, cortar um aparte do rabo e das orelhas, injetar hormônios, castrar, secar os testículos, ou retirar o ovário ou o útero inteiro, e com toda razão nos julgarmos, por isso mesmo. Como não prezar como um verdadeiro ser humano alguém que depois de tudo isso nos adora cegamente, geme de alegria atrás da porta quando ouve nossa chave tilintar e corre contente para lamber nossos pés quando chegamos da rua?

domingo, 8 de março de 2009

Eu, menestrel?

Ontem falei pro meu irmão:

- Se eu tivesse talento, seria compositor popular, não escritor!

Invejo os compositores de música popular, que têm o privilégio de ouvir suas canções nas vozes de intérpretes ilustres e, mais excitante ainda, na voz do povo. É. Eu queria ser compositor. Eu e meu violão, no palco de um programa de auditório, lubrificando a tarde de domingo. Mais uma palhinha? Claro que sim!

Quando vejo uma entrevista de um compositor, do homem por trás das letras e melodias que ouvimos e cantamos a vida toda, sempre me emociono. É incrível esse momento em que um sujeito que passa a maior parte da carreira nas sombras é trazido à luz. Nós costumamos atribuir uma canção a seu intérprete mais famoso, e quase sempre esquecemos que existe um artista anônimo (na maioria das vezes) responsável por ela.

Conversávamos sobre isso, eu e meu irmão, porque ele tem se dedicado a aprender violão por conta própria. Passa horas em frente ao computador, o violão ao colo, estudando cifras e tentando domar notas musicais, quase sempre debalde, diga-se.

Eu gostaria de aprender piano e violão. Mas isso é tarefa pra vida inteira: muito estudo e dedicação integral. Tocar por tocar, assim, pros amigos em reuniões íntimas - quiçá, quiçá, quiçá.

Um dia, quem sabe? Antes de o caldo entornar. Se o mundo não acabar depois de amanhã. Se eu sobreviver a mim mesmo. Depois do inverno nuclear vigente. Por que não um rock? Wy not um sambinha? Marchinha de carnaval. Samba-canção. Choro bem chorado.

Quanta pretensão!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

*Quem quer ser um chimpanzé?

Reparem que alterei a inscrição no cabeçalho do blog. No lugar de "e conversa fiada", coloquei "e entrevistas de emprego". Minhas sinceras desculpas àqueles que porventura vierem parar aqui neste cafofo em busca de emprego. (Se souberem de uma vaga qualquer, me avisem, ok?) Eis um dos inúmeros riscos de se utilizar o Google para fazer pesquisa.

Por que "entrevistas de emprego?" Porque essa tem sido uma de minhas mais freqüentes ocupações há alguns anos. Portanto é natural que eu vez ou outra me dedique a esse assunto aqui na igrejinha. Até já descrevi uma entrevista de emprego em "Diário de um chimpanzé" - ao qual, diga-se, pretendo voltar em breve.

Pois então. Hoje à tarde tive uma entrevista de emprego numa loja de calçados aqui do shopping. Cheguei à praça de alimentação por volta das 13 e 40, vestindo uma camisa listrada nas cores bege e verde claro, calça jeans preta, e um sapato marrom de camurça puído. Trazia uma pastinha de plástico ridícula debaixo do sovaco, contendo três currículos (ou Curriculum Vitae, como querem os beletristas anacrônicos) e a Folha de S. Paulo do dia. Do meu rosto escorria um suor morno, e a coriza advinda com a gripe carnavalesca me fazia recorrer amiúde ao lenço plúmbeo que fedia a naftalina.

Espantei-me de ver tanta gente ocupando as mesas e circulando pelo local. Aquilo não condizia com a situação econômica descrita diariamente nos jornais. Ou será que o povo não está a par da recessão que nos ronda? Pouco importa. Fiquei embasbacado e tive de ir ao toalete.

Mijei, lavei as mãos e o rosto, depois fui até o bebedouro. Tomei alguns goles d' água gelada e um de água na temperatura ambiente para preservar a voz. A febre e a fadiga gripal dominavam meu corpo. Eu estava a ponto de tombar. Seria o segundo caso de morte no banheiro do shopping. Parece que ano passado um chimpanzé de meia-idade teve um infarto fulminante num dos reservados. Dentro em pouco devem começar a surgir os primeiros relatos de assombração.

Antes de me apresentar para a entrevista, postei-me num banco de madeira defronte da loja por alguns minutos. Apesar de desempregado veterano, as palmas das minhas mãos porejavam suor. Observei os vendedores com o fito de me orientar para um possível teste prático. E se me mandassem atender um cliente, assim, de pronto? Eu teria de rebolar. Hum... Nenhum problema pra quem já dançou na boquinha da garrafa.

13 e 58. Hora de me apresentar. Pé ante pé, entro na loja e finjo examinar vitrines. Um rapazinho de barba rala me aborda e digo vim para a entrevista, saca? Ele saca sim, e me encaminha até uma fileira de assentos ao fundo da loja onde cerca de dez chimpanzés, entre machos e fêmeas, aguardam com o mesmo objetivo que eu: ser feliz (?).

Quero ressaltar o seguinte. Dois homens são dignos da pena de morte: o inventor da dinâmica de grupo. E o tipo que arranca páginas de livros e os vende a sebos ou pela internet. Ambos já me deram muito aborrecimento. O primeiro, em especial, é merecedor de uma morte lenta e dolorosa, porque faz pessoas do mundo todo passar vergonha diariamente. E o segundo... Bem, o segundo é um golpista de quinta. Vejam vocês: tenho um romance (Desonra, de J.M. Coetzee) cujas duas páginas em que o autor descreve a transa de um professor universitário com uma jovem e bela aluna foram arrancadas. Comprei o livro num sebo em BH há cinco anos. Vou reclamar pra quem? Só Deus sabe onde anda o punheteiro que arrancou as páginas lúbricas.

Então fiquei lá na companhia de dez ou doze jovens chimpanzés. Em instantes uma gerente distribuiu formulários para todos. Cada um de nós demorou em média meia hora para preencher os formulários, que continham questões como: qual sua religião?, faz ou já fez tratamento médico?, faz uso diário de algum medicamento?, como você se imagina daqui a dez anos? etc. Em seguida fomos levados até uma saleta na administração do shopping, onde cada qual foi entrevistado individualmente. Acho que me saí bem desta vez. Se bem que já tive essa mesma impressão outras vezes, e no entanto... Mas algo me diz que desta feita será diferente. Aguardem, meus queridos. É provável que eu me torne um vendedor de calçados esportivos.

* Perdoem, mas não resisti ao trocadilho com o título do grande vencedor do Oscar 2009, Quem quer ser um milionário?, de Danny Boyle, ao qual ainda não assisti.

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Fiquem com esse clipe da balada "Na Pista", dos Paralamas do Sucesso.


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Pot-pourri carnavalesco

Um crime lesa-assalariado

Será que sou o único que se aborrece ao ver funcionários de redes de lanchonetes e lojas de departamentos exibindo petrechos e alegorias em datas como Natal, Carnaval e Páscoa? Corta meu coração ver os pobres coitados vestindo fantasias e enfeites ridículos, ultrajantes. E não venham me dizer que essas pessoas levam tudo na brincadeira! Eles se submetem a isso porque precisam do emprego, da grana, obviamente; pode até ser que eventualmente se divirtam, entrem na dança, por assim dizer. Mas continuo achando isso triste - e sem graça. Por que os funcionários do alto escalão não se fantasiam e macaqueiam durante seu turno de trabalho? Quero ver essa gente com gorro de Papai Noel, peruca colorida, maquiagem de coelhinho da Páscoa e o escambau. Ou será que só quem ganha em torno de seiscentos merréis (meu falecido avô materno dizia assim, merréis, corruptela de mil réis, cousa das antigas enfim) por mês tem o condão de se emperiquitar e sorrir com benevolência para a clientela?

***

Dicas

Um filme assaz mediano para o feriadão:

Batman - O Cavaleiro das Trevas

Um "baile de máscaras" repleto de ação, diálogos mais ou menos tediosos e truques ordinários de roteiro. Não recomendado para crianças - foi essa a impressão que tive quando assisti ao filme. Embora a atuação (triste, muito triste) do falecido Heat Ledger seja notável - porque divertida e assustadora ao mesmo tempo -, há um clima de sordidez e violência que perpassa a maioria das cenas, além de a performance de Christian Bale anular qualquer possibilidade de identificação do expectador com o homem-morcego.

Um filme para se evitar no feriadão:

Última Parada - 174

O diretor Bruno Barreto levou às telas a trajetória de Sandro do Nascimento, o seqüestrador carioca que, no dia 12 de junho de 2000, manteve um grupo de pessoas refém dentro de um ônibus por várias horas, na cidade do Rio de Janeiro. A tragédia resultou na morte de uma jovem (Geisa Gonçalves) e do próprio Sandro, sufocado pelos policiais no interior de um camburão.

Dois ótimos filmes para qualquer época:

Os Donos da Noite

O diretor James Gray (Caminho Sem Volta) realizou não apenas um grande filme policial, mas também um drama profundo e contundente sobre amor fraterno, lealdade, e vingança.

E Superbad - É Hoje

Considerado (erroneamente) por muitos como mais uma comédia adolescente marcada pelo besteirol hollywoodiano, este filme é, sobretudo, um belo elogio da amizade.

Ainda que possam desagradar a algumas pessoas, as piadas e situações cômicas do filme estão todas muito bem contextualizas dentro do roteiro. É o que ocorre também em outra boa comédia dos mesmos criadores desta, Ligeiramente Grávidos - embora neste último haja três ou quatro piadinhas de mau gosto bastante dispensáveis. Se rimos de algumas cenas patéticas e algo grotescas de Superbad, é porque elas nos fazem lembrar de como já fomos ridículos num dado momento da juventude. Não se trata de uma comédia ordinária, em que o único objetivo é levar a platéia ao riso a qualquer custo e o maior número de vezes possível, sem a menor preocupação com a trama, que nesse caso só serve para ligar uma piada a outra, o que também se aplica aos filmes pornôs, se substituirmos as piadas pelas transas. Aqui, as gags estão a serviço do roteiro, e não o contrário.

Superbad traz um velho tema (a passagem da adolescência para a idade adulta) com um novo tratamento, mais sensível e inteligente.

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Encerrando as dicas, um livro como contraponto à novela Caminho das índias:

O Tigre Branco, de Aravind Adiga.

Sinopse: Um empresário indiano escreve uma carta para o primeiro-ministro chinês tentando explicar o espírito empreendedor de seu país citando seu próprio exemplo.

Um romance criativo e provocador, que deu ao autor indiano o Man Booker Prize, principal prêmio literário europeu para obras de língua inglesa.

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Vamos acabar com o samba?

Em agosto do ano passado, o cantor João Gilberto fez duas apresentações no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Qualquer pessoa que não estava fora do Brasil na semana dos shows se lembra da cobertura grandiosa e deliberadamente entusiasmada que os cadernos de cultura fizeram dos eventos. Fazia cinco anos que o músico baiano não se apresentava na capital paulista. Em comemoração aos 50 anos da bossa nova, João cedeu à insistência de fãs e amigos que queriam vê-lo no palco outra vez. Foi um acontecimento. E por um bom tempo não se falou de outra coisa na imprensa especializada.

Por incrível que pareça, João Gilberto não é unanimidade. À época das apresentações houve quem desse declarações inflamadas e publicasse artigos de repúdio à enorme cobertura dos shows pela mídia. Lembro particularmente da indignação do cantor Agnaldo Timóteo, que, em entrevista a uma rádio carioca, disse: “João Gilberto não canta, não interage, não sorri”, desafiando nossa sociedade hipócrita (sic) a listar as contribuições de João à música brasileira nos últimos cinqüenta anos. Timóteo afirmou ainda que ele sim é um talento raríssimo da MPB.

Outro que manifestou seu desprezo por João Gilberto foi o roqueiro e apresentador de tevê Lobão. Durante um debate num festival literário em Ouro Preto, ele disse ter menosprezado João quando este lhe pediu uma opinião acerca de sua versão para o hit Me Chama, sucesso na voz de Lobão.

É natural que não haja consenso em torno da figura de João Gilberto. Eu desconfio dos que o veneram tanto quanto dos que o tratam com menoscabo. Gosto de algumas canções gravadas por ele e admiro sua vocação para a repetição. Os artistas que se debruçam sobre um mesmo tema, aplicando pequenas e sutis variações a cada nova criação, me fascinam. E João Gilberto é um intérprete desse naipe.

O samba, gênero ao qual João se dedicou amiúde, também nunca foi unanimidade no Brasil. E junto com ele o carnaval. Há quem considere o carnaval uma farra para alienados. Se a religião é o ópio do povo, o carnaval e o futebol são o circo. Pão e circo são indispensáveis para se manter o povo no cabresto, apregoavam os senadores romanos. Mas tachar o carnaval dessa maneira é incorrer em reducionismo. É diminuir a importância de um conjunto de manifestações artísticas que fazem parte da cultura nacional.

Nem tudo nesta festa popular são flores. Mas dizer que o carnaval não passa de uma farra de tolos é um equívoco.