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terça-feira, 6 de julho de 2010

Para não esquecer

Nasci em 1984, em pleno processo de abertura política, de redemocratização. Não vivi, portanto, os chamados “anos de chumbo” da ditadura, mas nem por isso tenho uma visão romântica do período. Todo o material que li, ouvi, e vi a respeito da “revolução” de 1964 é suficiente para que eu não incorra na leviandade de acreditar que a repressão político-ideológica por parte do governo da época tenha sido branda. Não foi. Está documentado. Nosso regime pode até não ter sido tão mortal quanto o foram o argentino e o chileno, mas foi violento, torturou, matou, deixou graves seqüelas.

Por isso é fundamental a criação de livros, filmes, museus etc. sobre as nossas “tragédias históricas”. Para que não as esqueçamos. Para que não se repitam jamais.

***

No livro Meu Querido Vlado (editora Objetiva), o jornalista Paulo Markun narra sua experiência como preso político e as circunstâncias que envolveram a prisão e a morte de seu amigo, o também jornalista Vladmir Herzog.

Há no livro trechos de depoimentos de outros presos políticos e de documentos oficiais da época que comprovam a brutalidade do regime.

A seguir, dois documentos extraídos do livro: uma recomendação de um chefe do Doi-Codi paulistano para tratamento de um preso, e o relato desse mesmo preso sobre as máquinas de aplicar choque utilizadas pelos militares.

Tratamento de Marco Antônio T. Coelho. Proibição de usar roupas, colchão, coberta, proibição de fumar e ler jornais; só pode tomar o café-da-manhã (pão e um caneco de café com leite) e uma colher de arroz no almoço e outra no jantar; só pode beber um caneco de água por dia (duas vezes, um caneco pela metade); deverá ser interrogado das nove da manhã até sete horas da manhã do dia seguinte, sem interrupção. Essa é uma determinação para as turmas A, B e C, a fim de quebrar a pretensa superioridade intelectual e cultural desse elemento.
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Quando lá passei existiam três dessas máquinas. Elas são armadas em caixas de madeira, mais ou menos toscas. A menor, a que chamam de “pimentinha”, foi pintada de vermelho; outra chamam de “brochômetro” e outra tem um dizer gravado – “saudações revolucionárias”. Às vezes ligam em série duas ou três dessas máquinas ao mesmo tempo. No principio, os fios são ligados nas mãos e / ou nos pés; depois passam para o pênis; em seguida “evoluem” para os tímpanos e a boca.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Entrevista de Lula na Band


O programa Canal Livre, da Band, exibiu ontem à noite uma entrevista exclusiva com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A conversa ocorreu em Brasília, no Palácio do Planalto, o que favoreceu muito o entrevistado. Se o encontro tivesse ocorrido em “território neutro”, talvez os jornalistas Joelmir Betting, Fernando Mitre, José Luiz Datena, Boris Casoy e Antonio Telles não tivessem se mostrado tão timoratos diante de um Lula seguro de si e articulado como nunca.

Mas, justiça seja feita, os entrevistadores bem que tentaram “cutucar” o presidente e extrair dele revelações sobre assuntos espinhosos - mensalão, censura, reformas várias etc. Entretanto, bom político que é, Lula soube escapar a todas as investidas, e ainda por cima reverteu alguns fatos a seu favor.

Como de costume, Lula colocou a culpa de muitos tropeços de seu governo em terceiros. Disse, por exemplo, que a reforma trabalhista só não aconteceu porque os setores interessados não chegaram a um acordo. Quanto às tentativas de controle da imprensa por parte de governistas, Lula objetou que, se houve propostas nesse sentido, elas surgiram de debates democráticos entre algumas associações de jornalistas, e que ele próprio acredita que os únicos atores que podem regular a imprensa são os telespectadores, leitores, e ouvintes.

Sobre a candidata do PT à presidência da República, Dilma Roussef, Lula afirmou que o fato de ela estar concorrendo é uma vitória da democracia, e que a ex-ministra vai surpreender nessas eleições. Aliás, a palavra democracia foi uma das mais citadas pelo presidente, que declarou não ter sequer cogitado a possibilidade de pleitear um terceiro mandato porque “com a democracia não se brinca”. Segundo Lula, esta foi uma das muitas convicções que ele adquiriu ao longo de sua trajetória. Outra afirmação acertada do presidente foi a de que a população brasileira jamais aceitaria qualquer tentativa de agressão à nossa democracia conquistada a duras penas e finalmente consolidada. Tal asserção não causaria nenhum tipo de estranhamento se não viesse de um político que apóia (e se diz amigo) de líderes totalmente antidemocráticos como Fildel Castro, Hugo Chávez, e Mahmud Ahmadinejad.

Essa pode não ter sido a “entrevista dos meus sonhos” com o nosso presidente, mas com certeza foi uma boa entrevista. Sobretudo porque Lula demonstrou que amadureceu bastante nesses oito anos de governo – apesar de ainda ostentar certa arrogância e megalomania.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Controle seu intestino

(um post filosófico e anti-higiênico)

Alguns de vocês dirão que perdi o juízo, mas nem isso me impede de escrever a sentença seguinte: A busca desenfreada pela qualidade de vida assola nossa sociedade.

Eu sei que você, distinto leitor, nada tem que ver com a legião de semi-analfabetos que garante a expansão do mercado de livros de auto-ajuda e demais títulos "úteis", fofos e gratificantes que atulham as prateleiras da meia dúzia de livrarias de que dispõe nossa grande nação. Também sei que você não sofre de acefalia – mal que campeia entre a maioria dos chimpanzés de classe média que enchem os carrinhos no supermercado, “passeiam” no shopping toda semana, trocam de carro e de aparelho celular todo ano, têm dois ou mais cartões de crédito, são vítimas de falso seqüestro, entre outras absurdidades. E é justamente por isso que me dirijo a você, pois sei que a chance de ser compreendido é maior. Não que isso tenha grande importância, mas a verdade é que até o mais cínico dos cronistas deseja encontrar leitores que se identifiquem com o conteúdo de seu discurso e /ou sejam capazes de criticá-lo com alguma habilidade.

O livro de auto-ajuda é, a meu ver, o objeto que melhor representa o estado em que a sociedade de consumo se encontra atualmente, o nosso zeitgeist. Os conselhos e as parábolas didáticas encerrados nas páginas dessas publicações denotam o grau de imbecilidade e alienação em que boa parte da população está mergulhada. Tudo o que importa é a busca pela qualidade de vida (leia-se felicidade), que pode assumir as mais variadas formas, dependendo do sujeito que a almeja. E o fato de eu ter deparado hoje na livraria com um livro intitulado Controle seu destino acabou por suscitar estas reflexões.

Não cheguei a folhear o referido livro; o que me manteve absorto por alguns instantes foi a suposição de que, se o título do livro fosse Controle seu intestino em vez de Controle seu destino, ele seria muito mais interessante. Livros de auto-ajuda deliberadamente utilitários, que orientam o leitor a realizar determinadas tarefas por conta própria, ou a se prevenir de doenças, por exemplo, não despertam minha antipatia. Os títulos que merecem meu total desprezo são aqueles que vendem uma “fórmula de felicidade”, que ensinam o sujeito a se tornar tão feliz quanto um chefe de família de propaganda de margarina.

A linguagem simplista e estúpida presente nesses livros está alinhada à adotada em determinados programas de tevê que têm como propósito ajudar o espectador a (supostamente) viver melhor. Oprah Winfrey entende um bocado disso. Outra apresentadora que se arvora em detentora da fórmula do bem-estar é a inglesa Gillian McKeith, cujo programa – também exibido pelo canal GNT – consiste em reeducar os hábitos alimentares dos britânicos. Numa das edições do Você é o Que Você Come, Gillian listou os 12 alimentos mais nocivos à saúde das pessoas, e, entre as muitas declarações categóricas que deu durante o programa, a que mais me chamou a atenção foi a de que apenas as fezes daqueles que se alimentam mal fedem. Ou seja, a merda de quem “come bem” é inodora, quiçá até perfumada, imagino. As pessoas só cagam fedido porque querem, afirma a apresentadora.

(Penso nos que dizem se alimentar apenas de luz. Sim, pois existem tais pessoas, que não ingerem nenhum tipo de alimento: vivem de luz. Qual será o odor da bosta deles? Aliás, se eles não comem nada, então nem devem produzir bosta nenhuma).

Há os vegetarianos radicais, que se julgam seres superiores à maior parte da humanidade, composta por bilhões de carnívoros empedernidos. Agem como se o fato de não comerem nenhum alimento de origem animal fosse uma espécie de ascetismo, como se Deus os preferisse aos demais mortais comuns. Há também os fanáticos da estética, que cultuam o corpo com ardor religioso, e não o “conspurcam” com alimentos não-saudáveis nem com o ócio. Os doutrinadores do sexo, que estão aí para nos ensinar a transar da maneira mais higiênica e eficaz, para que possamos sentir muito prazer e amiúde, mas sempre com muita segurança e assepsia. Sem esquecer os ditadores da moda, que forjam determinados patrões de beleza que excluem a maioria das pessoas desse mundo de gozo pleno, de glamour.

Autores e leitores de auto-ajuda e "literatura fofa"; apresentadores de tevê “do bem”; radicais da alimentação e da estética; doutrinadores do sexo; ditadores da moda e quejandos – corja que quer nos ensinar a viver bem, que quer nos vender a fórmula da felicidade. Por favor, nos deixem ser infelizes em paz.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Entrevista com o livreiro

O jornal Folha de S. Paulo publicou na edição de hoje uma ótima entrevista com Paulo Herz, dona da Livraria Cultura. Nela, o livreiro discorre, entre outros assuntos, sobre o futuro do livro, o problema da falta de leitores no país, e como a recente crise econômica mundial não afetou seus negócios.

Abaixo, reproduzo algumas declarações de Herz que chamaram minha atenção:

A novidade dos e-readers

“Em março vamos disponibilizar 150 mil títulos em formatos para e-readers. Eu acho que é uma opção a mais para o leitor. Não vamos vender o hardware, só conteúdo.”

O futuro dos e-readers

“Não sei bem, está tudo muito cru, muito no início, e não sei bem como serão as vendas. Acho que bem pequenas.

“Acho o e-reader uma ferramenta fantástica, mas daí a virar o substituto do livro... Já vi esse filme antes, já vi o VHS chegar e dizer que ia acabar com o cinema. Já vi, na Feira de Frankfurt, dizerem que o mundo ia virar CD-ROM, e o mundo não virou CD-ROM. Dois anos depois não se falava nisso, as editoras me falavam: "Pô, perdemos um dinheirão, admitimos um monte de gente e não deu em nada". A sensação que eu tenho é que a gente está vendo uma nuvem, que vai passar. Pode ser que chova, mas, num curto prazo, não vai acontecer nada.”

E-reader x livro de papel

“Imagina um advogado que vai fazer uma audiência no Acre e tem que levar aquela papelada do processo. Um editor de uma grande editora de livros, que recebe 50 livros novos por semana de todo mundo, para resolver se vai publicar ou não, ter isso digitalizado e num voo de 12 horas para a Europa ir dando uma olhada no que interessa ou não. É de uma utilidade fantástica, mas não sei se é a melhor ferramenta para o leitor de livros. E tem outra pergunta que eu faço: fará novos leitores? Quem não lê livro de papel, não vai passar a ler por causa do livro eletrônico.”

A formação de leitores

Acredito que quem faz leitor são os pais, inegavelmente. Os jovens leitores são filhos de leitores. Dificilmente aparece uma criança ou adolescente que não tenha os pais leitores. A grande campanha que na minha opinião deveria ser feita pelo governo é mais ou menos assim: "Se você não lê, como quer que seu filho leia?". Essa é a pergunta que deve ser feita. Porque os meus filhos "liam" sem ser alfabetizados, pegavam o livro na mão para imitar os meus gestos.

O faturamento da livraria

Segundo informações do repórter Fábio Victor, a Livraria Cultura possui atualmente 5 lojas (cinco em São Paulo e as outras em Campinas, Recife, Porto Alegre e Brasília), e pretende inaugurar mais três em 2010: em Salvador, Fortaleza e uma segunda na capital federal.

A rede tem mais de 3 milhões de títulos em catálogo e 1.400 funcionários (serão mais 400 para as três novas lojas). Em 2009, obteve faturamento de R$ 274 milhões, crescimento de 18% em relação a 2008.

“As vendas pela internet representam 16% do faturamento em 2009. É a nossa segunda loja. A primeira é a da Paulista (...) [No período mais grave da crise, entre 2008 e 2009] Nós crescemos legal, 18%.

A grande ameaça

A grande ameaça que existe é a não-formação de novos leitores. As famílias [ricas] que tinham cinco filhos há um século, hoje ou não têm nenhum ou têm um, no máximo dois. O número de leitores cresce pouco, se é que cresce. Se você pegar o universo da classe D, esse pai não tem orgulho nenhum do que faz, nem a mãe. Então a compra de um lápis significa para ele um investimento na educação de um filho. Acho isso extremamente bacana, é um raciocínio válido, mas sabemos que é insuficiente. O apagão do ensino taí, a dificuldade que temos de admitir gente é homérica. A gente aplica testes básicos dos básico de conhecimentos gerais razoáveis. A gente quer que o candidato leia jornais, uma revista, que seja atualizado. Você pergunta para ele quem escreveu "Dom Casmurro", metade levante e vai embora. E são todos universitários formados. E não sou o único que tem esse tipo de problema. Falei com outros empresários, de outras áreas, que têm exatamente o mesmo problema. Gente que não encontra engenheiros, que não encontra médicos. Veja o resultado do Enem. Está difícil acreditar. Esse crescimento anunciado é sustentado? Ou é um momento de paternalismo que está aí? Estou procurando gente [para as lojas] no Nordeste, tem gente que não quer ser registrada. Perguntamos por que, e dizem: "Ah, porque eu recebo a Bolsa [Família], minha mulher recebe a Bolsa. E a população cresce nesses lugares do Nordeste. E gente esclarecida que pode ter filhos está tendo cada vez menos, se é que está tendo. Conheço casais de amigos, leitores, muito bem casados, felizes, que preferiram não ter filhos.

Livros usados

“Minha mãe começou a livraria achando que muito livro valia a pena ser lido e não ser comprado. Ela começou alugando livro. Sou francamente favorável ao comércio de livros usados. E há espaço para todo mundo. (...) O que eu condeno é que um irmão mais novo não possa aproveitar o livro do irmão mais velho na escola. O que é que mudou na aritmética e na geografia? Por que tem que jogar fora esse livro. Hoje o governo até faz uma campanha para o aproveitamento [do livro didático], extremamente salutar, mas não é só. Por que o livro novo tem que ter um leitor por exemplar? Não tem biblioteca. Um livro, um leitor, é pouco.”

Bibliotecas públicas

[Sobre a nova Biblioteca de São Paulo]

“O [secretário estadual de Cultura, João] Sayad me falou que eles se inspiraram muito no modelo da [Livraria Cultura da avenida] Paulista, que é um local onde as pessoas ficam. Fiquei orgulhoso. É possível criar um lugar onde as pessoas se entretêm, têm opções para aprender e ver alguma coisa de concreto. A coisa mais bacana que achei é que ela vai funcionar nos fins de semana. Gente, o Brasil é o único país em que as bibliotecas fecham no fim de semana, quando os pais podem levar os filhos.”

terça-feira, 19 de maio de 2009

Índios (3)

Homens brancos que vivenciam a experiência de passar uma temporada numa aldeia indígena costumam ficar impressionados com o modo de vida dos nativos. Confrontados com uma cultura totalmente diversa da sua, eles têm a oportunidade de compará-las e pesar as “qualidades” e os “defeitos” de cada uma, por assim dizer. Não são poucos os casos de brancos – principalmente estudiosos – que, após mergulhar no cotidiano de tribos indígenas, emergem fascinados pelo sendo de organização e a simplicidade reinantes nessas sociedades. O jornalista Washington Novaes é um típico exemplo de intelectual que conhece a fundo a questão indígena brasileira. Há anos ele se dedica ao estudo sociológico dessas comunidades, tendo inclusive desfrutado do convívio de tribos indígenas amazônicas mais de uma vez. Seu fascínio e admiração pelo modo com que os nativos se organizam em grupo podem ser conferidos, entre vários outros registros, num pequeno documentário produzido pela TV Cultura, o qual pode ser visto em reprises esparsas nas madrugadas do canal. Nesse depoimento, Novaes ressalta o respeito que os índios têm pela natureza, sua política social equânime, que privilegia o trabalha em grupo e dá voz a todos os membros da aldeia, bem como seu desapego das coisas materiais. Os índios não são consumistas. Eles se contentam com o necessário - não há produção em escala no universo indígena. Assim não produzem lixo em excesso. Se os rios e as matas de onde o índio tira seu sustento estão ameaçados, não é por culpa sua, e sim da ambição e da irresponsabilidade (leia-se estupidez) do homem branco. Os índios têm muito a nos ensinar, Washington Novaes reitera várias vezes ao longo do documentário. Ao contrário do que acreditavam os colonizadores, os gentis estão longe de ser selvagens. Não precisa ser nenhum especialista em cultura indígena para deduzir que os verdadeiros merecedores desse epíteto somos nós.

domingo, 17 de maio de 2009

Índios (2)

O filósofo australiano Peter Singer ensina bioética na universidade americana de Princeton, Nova Jersey. Domingo passado, a Folha de S. Paulo publicou no caderno Mais! uma entrevista que Singer concedeu ao jornalista Sérgio Dávila, na qual falou sobre como o consumo de objetos de luxo pode contribuir para o aumento da pobreza no mundo. Crítico do consumismo irresponsável, Peter Singer acredita que a pessoa que compra um produto cuja venda irá beneficiar alguém ou alguma organização rica, ou que não tem problema de dinheiro, está contribuindo para o aumento da pobreza, uma vez que sua atitude não ajudará quem mais sofre com a falta de recursos. Questionado por Sérgio Dávila se ao efetuar uma compra qualquer o comprador não está ajudando a manter uma determinada quantidade de empregos, o filósofo respondeu que sim, o consumo de um modo geral é benéfico à sociedade, mas que se pudermos conjugar consumo com responsabilidade social estaremos de fato ajudando a construir uma sociedade mais igualitária, ao invés de apenas circunscrever a riqueza a uma pequena camada de privilegiados.

domingo, 12 de abril de 2009

Questão de opiniães

Ontem, a Folha de S. Paulo publicou, no cada dia mais magro caderno Ilustrada, uma resenha de O Culto do Amador, livro em que o americano Andrew Keen critica, entre outros aspectos, a miríade de opiniões lançada cotidianamente na internet por todo tipo de gente. A resenha foi escrita pelo jornalista português João Pereira Coutinho, que avaliou a obra como regular. Segundo Coutinho, os ataques de Keen à imoralidade e à irracionalidade contidas na web são tão justificáveis quanto primários. A ojeriza a novas tecnologias sempre foi comum à parte da sociedade. Várias outras inovações sofreram certo tipo de resistência por parte de pessoas que as julgavam maléficas. E isso continua a ocorrer. O suposto perigo da má utilização da internet é apenas mais um capítulo desta história.

A principal crítica feita por Andrew Keen, um ex-executivo do Vale do Silício, é em relação à qualidade das opiniões enunciadas por amadores na rede. Para ele, as informações veiculadas por gente desqualificada tornam a internet um verdadeiro criadouro de imbecis. O fato de a web ser a mais fácil e prática fonte de informação contemporânea preocupa Keen, que acredita que sites como o Wikipédia contribuem para o fomento à ignorância de estudantes do mundo todo. O amadorismo corrente em blogs e comunidades de sites de relacionamento seria um insulto ao conhecimento acadêmico dos livros e dos manuais.

Como “representante” dos aventureiros que ousam publicar opiniões e outros tipos de escritos na rede, tendo a concordar mais com a análise de Pereira Coutinho do com a de Keen. Não acho que a possibilidade de qualquer pessoa divulgar suas idéias na internet seja ruim, por piores que sejam essas idéias. Ainda que o espaço virtual possa servir a usuários mal-intencionados, não creio que isso seja motivo suficiente para que se crie um órgão regulador ou coisa que o valha. As instituições e os mecanismos oficiais de defesa a que o internauta pode recorrer são suficientes, o que faltam são leis que estabeleçam penas severas a aliciadores de menores, estelionatários, e outras classes de bandidos que atuam no universo on-line.

Parafraseando parte da resenha de Pereira Coutinho, o que as autoridades competentes devem prover é educação pública de qualidade para que todo estudante, ao utilizar a internet para pesquisa, tenha capacidade de separar o joio do trigo. O resto é lero-lero.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Animais de estimação e de consumo

Os vegetarianos que me perdoem, mas carne é fundamental, ao menos na geladeira aqui de casa. E, nesses tempos politicamente corretos, de mudanças de valores prementes, de repensarmos nossa conduta de vida etc., sinto certa vergonha ao confessar que, pelo menos num futuro próximo, não me vejo parando de comer "animais mortos", como os vegetarianos radicais gostam de se referir às carnes que os humanos consumimos - sempre com o nobre propósito de nos chocar (e insultar).

Semana passada, assisti a um documentário americano chamado I Am An Animal, que relata a trajetória política de Ingrid Newkirk, co-fundadora do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), uma das mais importantes ONGs de combate aos maus tratos a animais no mundo todo. O PETA é a mais respeitável e temida dessas instituições, tanto por sua influência política quanto por suas manifestações de protesto, que envolvem desde ordeiras passeatas até pichações e depredações a butiques de luxo que vendem casacos de pele, bolsas, e outros produtos de origem suspeita.

Ingrid e seus pares contam com o apoio de várias personalidades americanas, bem como de algumas empresas e grifes como a Calvin Klein, que parou de utilizar materiais de origem animal na composição de suas roupas após sofrer forte pressão do PETA. Um dos métodos mais eficazes de persuasão utilizados pelos ativistas do PETA é a divulgação de vídeos em que animais aparecem sofrendo variados tipos de violência, muitas vezes gratuita. Para registrar esses flagrantes, a organização recruta jovens interessados em defender a causa e os envia a matadouros, criadouros e estabelecimentos correlatos, com a missão de documentar os maus tratos cometidos contra os animais.

Desnecessário dizer que as cenas contidas nesses vídeos são brutais, de revirar o estômago. Elas nos fazem repensar nossa postura de "carnívoros impedernidos", além de suscitarem um importante debate quanto à maneira que nós, os seres humanos, nos relacionamos com os animais de um modo geral. Tratar cães de estimação como iguais e trucidar aves e mamíferos para nossa subsistência é uma atitude correta? Comer um x-burguer ou se fartar numa churrascaria qualquer é compactuar com o sofrimento impingido aos bovinos nos matadouros?

Essas e outras questões espinhosas precisam ser debatidas. Escritores importantes como o Nobel sul-africano J.M. Coetzee, um notório defensor dos direitos dos animais, têm escrito ensaios e até romances em que o assunto é debatido sem qualquer forma de proselitismo. O próprio Coetzee talvel seja o romancista que trata de maneira mais elegante e contundente do tema em suas obras.

No Brasil, pelo que eu saiba, há alguns poucos escritores que tratam do assunto. Um deles é o carioca Rubens Figueiredo, autor do romance Barco a seco, do qual extraí o seguinte trecho:

Era o seu animal de estimação. E, na verdade, como não ter estima por quem obedece imediatamente aos nossos gritos e se curva com presteza às nossas repreensões e ameaças? Como não ter amor por quem podemos amarrar pelo pescoço e prender numa coleira e arrastar aonde bem quisermos, à força de puxões e pancadas educativas? Alguém que podemos trancar num minúsculo banheiro durante a noite e obrigar que fique em silêncio. Como não trazer no coração uma criatura a quem podemos, caso isso nos incomode, cortar um aparte do rabo e das orelhas, injetar hormônios, castrar, secar os testículos, ou retirar o ovário ou o útero inteiro, e com toda razão nos julgarmos, por isso mesmo. Como não prezar como um verdadeiro ser humano alguém que depois de tudo isso nos adora cegamente, geme de alegria atrás da porta quando ouve nossa chave tilintar e corre contente para lamber nossos pés quando chegamos da rua?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Terrorismo à americana


Há alguns anos os Estados Unidos vêm produzindo um tipo muito particular de criminoso: o atirador sem causa. Esses atiradores geralmente são jovens em idade escolar, tidos como freaks (esquisitos, desajustados) pela sociedade, com fácil acesso a armas de fogo, que planejam seus atentados meticulosamente, e cujas vítimas são colegas de escola, professores, e, em última instância, eles próprios.

O caso mais famoso dessa espécie de terrorismo é o do massacre de Columbine, ocorrido em abril de 1999 numa pacata cidadezinha do estado do Colorado. Na ocasião, dois adolescentes abriram fogo contra colegas e professores do Instituto Colombine, deixando 15 mortos, incluindo eles mesmos, que se mataram após a chacina.

Outros episódios dentro e fora dos EUA também marcaram época. No Brasil, o caso mais conhecido é o do estudante de medicina Mateus da Costa Meira, que em novembro de 1999 invadiu uma sala de cinema num shopping em São Paulo e disparou contra a platéia, matando três pessoas e ferindo outras cinco. O filme que estava sendo exibido quando do ataque era Clube da Luta, de David Fincher, e eu me lembro de Arnaldo Jabor espinafrando a obra de Fincher e o cinema de ação hollywoodiano de modo geral em seu comentário no Jornal da Globo, como se a violência perpetrada naquela noite fatídica houvesse sido transmitida a nós, os puros de coração, através do cinema americano. Simples assim.

Seria leviano afirmar que os americanos criaram essa nova categoria de terrorismo e a exportaram para o resto do mundo. Equivaleria a sustentar que as “raízes do mal” germinam apenas em solo americano, na terra do capitalismo desmedido, onde os fracos não têm vez etc. – o que é uma completa tolice. Do mesmo modo, acredito que a violência no cinema – ou nos videogames – não seja a principal propagadora do mal entre os jovens que cometem essas atrocidades. Ela até pode servir de modelo para os ataques, mas não me parece ser seu fator gerador.

Cineastas como Michel Moore (Tiros em Columbine) e Gus Van Sant (Elefante) investigaram, cada qual à sua maneira, os motivos que levam parte da juventude americana a cometer tais atos de desespero. O primeiro, utilizando o documentário como instrumento de investigação, acredita que o livre acesso a armas letais e o descaso do governo para com a população mais pobre do país seriam as principais causas desses atentados. Já o segundo, valendo-se dos meios ficcionais, atribui essas manifestações ao isolamento social e a fragilidades emocionais inerentes aos protagonistas. Ou seja, enquanto para Michel Moore as deficiências sócio-culturais são as verdadeiras vilãs, para Gus Van Sant, o problema maior está no silêncio dos jovens atiradores, um silêncio que denota medo e desesperança, e que, somado à extrema facilidade de se adquirir armas letais no país, acaba culminando em violência gratuita.

Sejam quais forem os estopins desses assassinatos, o fato é que eles estão se tornando cada vez mais constantes. Em 2007, houve chacinas dessa ordem numa universidade americana da Virgínia (32 mortos), e numa escola da Finlândia (8 mortos). Hoje pela manhã, ao acessar a internet, descubro que ocorreram mais dois casos do tipo, um na Alemanha e outro nos Estados Unidos. Este último se deu ontem no Alabama e envolveu um atirador que matou dez pessoas, entre elas um bebê de um ano e meio e sua mãe, além dele próprio. Até agora a polícia local não sabe o que motivou o crime. No sudoeste da Alemanha, um rapaz de 17 anos invadiu sua antiga escola na manhã desta quarta-feira e abriu fogo contra alunos e professores. Dezesseis pessoas morreram, incluindo o adolescente, morto em tiroteio com a polícia.

Como disse Bob Dylan em sua célebre canção, the times are changing. Ou melhor, things have changed.

terça-feira, 3 de março de 2009

Uma nação de ansiosos

O Grito, de Edward Munch
Desculpem, mas não me ocorreu nada menos clichê para ilustrar este post

Vocês têm idéia de qual é o medicamento mais vendido no País? Acertou quem respondeu Microvilar, anticoncepcional que vendeu 20 milhões de unidades em 2008.

Mas alguém aí sabe dizer qual foi o segundo remédio mais vendido em 2008? Não? Então respondo eu: Rivotril.

Segundo o IMS Helth - instituto que controla a indústria farmacêutica -, esse ansiolítico e anticonvulsionante vendeu cerca de 14 milhões de unidades no ano passado, desbancando medicamentos corriqueiros como Neosaldina, Buscopan e Tylenol. Até a famosa pomada contra assaduras Hipoglós vendeu menos que o tal Rivotril.

Matéria publicada na edição de 28 de fevereiro da revista Época informa que a classe dos tranqüilizantes é a sétima mais vendida no Brasil, e que o "fenômeno Rivotril" se deve, em grande medida, ao preço baixo do medicamento (uma caixa custa em média R$13,00), bem como ao diagnóstico incorreto de muitos médicos, que prescrevem Rivotril para pacientes que se queixam de dor de cabeça, estresse, gastrite etc. Isso, segundo especialistas, gera uma banalização do uso de antidepressivos - o que acaba por deixar milhares de pessoas dependentes de medicamentos controlados, os quais nem sempre são os adequados para tratar determinados casos.

Outro fator que colabora para a alta vendagem do Rivrotril é o que muitos psiquiatras chamam de "glamorização do ato de medicar-se." Isto é, os medicamentos psiquiátricos, antes vistos com maus olhos pela sociedade, de uns anos para cá passaram a ser aceitos com certa naturalidade. A ingestão desse tipo de remédio está até associada a status; quem pode, paga para se ver livre das angústias. Questões existenciais são tratadas da mesma maneira que distúrbios psíquicos; estar triste, deprimido ou ansioso - estados por que qualquer chimpanzé pode passar naturalmente - está sendo encarado como doença. E ninguém quer sofrer "à toa".

Lembro uma vizinha idosa que, após perder o marido, passou a tomar calmantes para dormir. Os filhos descabeçados eram outra grande fonte de problemas. De uma hora pra outra os cabelos daquela mulher tornaram-se branquíssimos. Passava o dia trancada no quarto e só fazia chorar. Haviam sido uma família de posses; agora viviam de uma pensão mixuruca. Às vezes, a velha saía de casa à noite e ia até a casa da lavadeira, que era quem lhe fornecia os calmantes. A filha da lavadeira era enfermeira e cuidava de arranjar os remédios no posto de saúde em que trabalhava. Até hoje lembro com horror o desespero da velha, quando a lavadeira lhe dizia que não tinha calmantes para lhe dar. Ela fincava os dedos alvos e enrugados na cabeleira algodoada e praguejava contra Deus e o mundo. Então a lavadeira a levava pra dentro de casa e lhe preparava um chá de capim cidreira. Um dia a velha dormiu e não acordou mais. Os filhos a acharam estirada na cama, com um terço numa mão e uma caixinha de calmantes na outra. Só a lavadeira chorou de verdade no velório.

Nós, que já fomos o povo mais feliz e festeiro do mundo, hoje somos uma nação de ansiosos.

Será possível?

Garçom, um Rivotril, por favor!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Geração Uhuuu!

No dia primeiro deste mês, um grupo de arruaceiros causou pânico e destruição na Praia Grande, na Baixada Santista. Num surto coletivo de insânia, cerca de 1.500 jovens depredaram carros, lojas e residências em plena festa de réveillon. Os policiais, em número muito menor que o de desordeiros, só conseguiram controlar a situação por volta de cinco da manhã, após solicitar reforços de batalhões vizinhos.

Três "manifestantes" e três policiais ficaram feridos.

Treze pessoas foram detidas e indiciadas por crime contra o Patrimônio Público.

Dois dias depois, ocorreu um tumulto similar em São Vicente, onde carros, lojas, lixeiras e telefones públicos foram alvo de vandalismo.

Os cerca de 800 arruaceiros entraram em confronto com a polícia, atirando pedras e disparando foguetes contra os policiais, que reagiram com balas de borracha e bombas de efeito moral.

***
Baseado nesses dois episódios, o professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, José de Souza Martins, escreveu um excelente artigo publicado no caderno “Aliás”, no jornal O Estado de S. Paulo do último domingo, sobre o "niilismo antissocial" que parece mover muitos jovens hoje em dia.

Selecionei alguns trechos interessantes que gostaria de compartilhar com vocês:

“Os arrastões deste início de ano põe em cena a criminalidade da classe média e o vazio com que se defrontam seus filhos sem causas altruístas a defender e sem projeto social e histórico com o qual se identificar. O fim da ditadura militar deixou os filhos dos setores sociais afluentes sem um inimigo a combater e uma causa de referência pela qual lutar.”

“A causa do impedimento de Collor reanimou a juventude politicamente enfraquecida pelo conformismo da geração adulta, cansada de guerra...”

“Mas havia ainda o ideário juvenil de uma esquerda dividida e sem um projeto de nação, representada sobretudo pelo PT, que cresceu na pregação de que só ele era o partido do progresso social, da democracia, das reformas sociais e econômicas, da justiça e da liberdade. (...) O caso do mensalão acabou por varrer dos espíritos dos jovens a convicção de que o partido estava acima de qualquer suspeita. Um conjunto de desencantos e enganos pôs em xeque a competência do partido para inovar social e politicamente. Os últimos anos deixaram para os jovens a certeza da orfandade política, do vazio e do cinismo.”

Esses jovens filhos da classe média, como ressalta o professor, “não são materialmente pobres, mas são pobres de esperança, pobres de competência para mudar o curso da história.” Eles questionam e combatem a ordem vigente, mas não tem um projeto melhor e mais justo para substituí-la. Usam de violência para afastar o marasmo, o tédio. Picham, depredam, agridem, urram, matam. Ateiam fogo em mendigos; espancam negros, nordestinos, homossexuais; homens e mulheres da classe trabalhadora. Compaixão é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Eles não ligam a mínima para os problemas sociais do país ou do mundo. Querem curtir. Uhuuu! E fazem o que bem querem sem medo de represálias, como se o “manto sagrado” da juventude lhes facultasse uma blindagem inviolável contra qualquer tipo de repreensão. Eles se julgam deuses que tudo podem.

Mas, antes que me acusem de generalista ou de reacionário, quero enfatizar que existem jovens e jovens, e que a conduta da juventude atual está muito longe de ser uniforme. Há jovens (a maioria, a meu ver) com consciência social, que levam a sério seu papel de cidadãos responsáveis, e que deploram essa cultura fascista e autodestrutiva.

Eu, de minha parte, acredito que a juventude não passa de um engano. E que portanto não dá a ninguém o direito de entrar no BBB e urrar de prazer e desespero como um bom selvagem forjado na cultura do shopping center. Nem tampouco de sair por aí quebrando tudo e todos para espantar o tédio.

Ela, a juventude, pode (e deve) ser usada por pessoas de todas as idades para gozar a vida sem ferir ninguém ou destruir o Patrimônio Público. Pode ser usada em prol de causas sociais e políticas, como na eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, para citar um exemplo expressivo.