quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Confissões de ano velho I

No início de 2009, eu era um ser errante, algo patético, sem ocupação nem perspectiva. Enquanto aguardava a possível confirmação do pouco de talento que havia algum tempo acreditava ter, resolvi criar este blog para me distrair. Em março essa confirmação veio na forma de um reconhecimento por parte do júri do maior prêmio literário para autores estreantes do país. Embora meu livro não tenha sido o vencedor da categoria romance, a menção honrosa que lhe foi concedida insuflou algum ânimo em meu espírito e me incentivou a continuar escrevendo. Não que agora eu tenha plena certeza de que nasci para ser escritor; não se trata disso. Aliás, nunca fui possuidor desse tipo de convicção. Nunca me julguei predestinado a nada.

No entanto, eu continuei minha busca por ocupação. Vagava por Guaratinguetá e por cidades vizinhas à procura de emprego, preenchendo fichas, respondendo a perguntas de recrutadores psicólogos e psicólogos recrutadores; de baldeação em baldeação, com dinheiro contado, uma pastinha de plástico transparente ridícula debaixo do braço, distribuindo currículos e pequenas inverdades convenientes.

Às vezes enveredava por descaminhos francamente aterradores. Aceitava apadrinhamento de gente mau-caráter e fingia crer em doutrinas e métodos que sempre havia julgado ilegítimos. Numa dessas manhãs desesperançosas e aflitas, acabei indo parar num templo religioso do magnata ungido R.R. Soares, levado por um fotógrafo calhorda amigo do meu pai. Waldemar era um troglodita pio e desonesto, alguém com quem somente o biltre do meu pai poderia manter laços de amizade.

Na ocasião, assustado e vexado debaixo daquela cúpula azul celeste, ouvi a palavra do Senhor através da boca de um pastor com sotaque carioca que tinha pinta de pagodeiro. Enquanto o pastor Edmilson se preparava para derramar suas bênçãos sobre mim, Waldemar lhe fornecia informações a meu respeito e a respeito de minha família: o garoto está com um encosto tremendo e a família é assombrada por demônios: o pai é um bêbado, a mãe uma dona-de-casa infeliz, e a avó uma anciã enferma. Então o pastor pediu para que eu fechasse os olhos, erguesse os braços na direção do céu, e deixasse o Espírito Santo agir. E foi assim que este blogueiro ímpio acabou “curado” em nome de Jesus, do pastor Edmilson, de R.R. Soares, e do Waldemar, o fotógrafo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Achaque natalino

Ele acreditava que não tinha obrigação de presentear ninguém. Pelo menos era assim que pensava, até as quinze horas do dia vinte e quatro de dezembro, quando acordou com uma baita ressaca, resultado de uma noite tão festiva quanto aborrecida. Bastaram um banho mal tomado e um almoço às pressas para ele se sentir disposto a empreender umas compras de última hora.

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O senhor pode parcelar em até cinco vezes no cartão, informou a moça negra de rosto ovalado, olhos castanhos e cintilantes, e cabelo trançado em cascata. Atrás dele, uma fila enorme de pessoas mais ou menos contentes portando um sem-número de sacolas. Vou pagar no débito, ele diz sem hesitar, e entrega o cartão à operadora de caixa. Em poucos segundos a transação é concluída e seu cartão devolvido. Obrigado e bom Natal. Próximo!

Agora ele é mais um circunstante que caminha pelo shopping munido de sacolas personalizadas. Na altura do corredor que leva aos sanitários, ele cansa e encosta-se em uma pilastra ladrilhada de verde. Abre as três sacolas que porta e confere o que comprou até então: um carrinho de controle remoto para o afilhado, um relógio de pulso para a mãe, e um rádio portátil para o pai acompanhar os jogos de futebol. Enquanto retoma seus passos largos mas cadenciados, pensa nos familiares cujos presentes ainda falta comprar. Pensa também em quanto falta para alcançar o limite de seu cartão: pouco, bem pouco. Ele trabalha num escritório ordinário numa função mais ordinária ainda, o que justifica o fato de seu limite de crédito ser tão baixo. Todos os meses tem de rebolar para saldar as dívidas e não terminar no vermelho. Não que ele goste disso, mas já se acostumou.

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O balconista da loja de artigos religiosos é muito jovem, uma criança loura, de olhos claros e serenos. Você conhece São Camilo?, ele questiona o balconista, que depois de tocar um cacho de cabelo que alcança a altura do colarinho da camisa branca que está vestindo, lhe devolve um olhar perdido. Porque eu não conheço, emenda. Então encaram a enorme prateleira repleta de imagens de santos à sua frente, à procura de um santo desconhecido para ambos. Certo de que não obterão sucesso em sua busca, o balconista resolve recorrer a um livro de hagiografias. Após folhear o livro por alguns segundos, ele abre um sorriso discreto porém revelador. São Camilo de Lelis: nascido a 1550 em Bucchianico, nos Abruzzos, no antigo Reino de Nápoles. Foi um homem que media mais de um metro e noventa e tinha um porte elegante, tal como o navegador Pedro Alvarez Cabral. Jogador compulsivo e soldado do exército na juventude, ficou conhecido como um sacerdote que cuidava dos enfermos e dos desvalidos em geral. Conhecendo a imagem do santo italiano, fica fácil encontrar sua escultura em meio às dezenas de outras de variadas cores e tamanhos que compõem um painel capaz de satisfazer à demanda de pessoas com as mais distintas devoções. Vou levar, diz, satisfeito, assim que o rapaz louro, de olhos calmos, e cabelos encaracolados - que se parece muitíssimo com um anjo, ele sente vergonha de pensar, embora nunca tenha visto um - pousa a estátua de São Camilo no balcão. Embrulhe pra presente, por gentileza.

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Passa das seis e meia da tarde. O horário de verão garante a luminosidade necessária – entrevista pelos portais de acesso ao shopping - para que ninguém se sinta aflito por ter adentrado a noite de vinte e quatro de dezembro fazendo compras de Natal. Quanto a ele, restam-lhe energia e paciência de sobra para dar seqüência à sua busca por presentes, que já se aproxima do fim. Sente-se realizado por ter encontrado o presente que julga ideal para a avó: São Camilo de Lelis, padroeiro dos enfermeiros; ex-viciado em jogo; um metro e noventa de altura; e toda uma vida de abnegação. Ele mesmo não é um homem abnegado; pouco mais de um quarto de século de vida e nenhuma abnegação – apenas algum senso de ridículo, um romantismo cafona, e um bocado de resignação. Não tem a mínima noção do que significam os vinte e cinco anos que já desperdiçou, nem tampouco do que a vida lhe reservará dali por diante. Está na média; sim, integra a massa de seres humanos que não sabe bem o que fazer com esse treco esquisito e tosco e que traz anexo outro troço estranho e – dizem – metafísico chamado alma: o corpo. Isso o deixa... aliviado. É tomado por uma sensação de alívio que aos poucos se traduz em zonzeira. Zonzeira de ressaca. Atravessa a praça de alimentação, que pouco a pouco se esvazia. Passa pela casa do Papai Noel, cujo humor também já principia a escassear nessa altura. Meia-dúzia de pais de família formam a fila do caixa-eletrônico. São sete da noite e os lojistas começam a baixar as portas.

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Ainda falta o presente do irmão mais velho. Não pode deixar de presenteá-lo. O irmão mais velho é um homem íntegro que beira os quarenta anos e em quem ele tenta se espelhar. Por sorte já sabe o que comprar para ele: uma camisa nas cores cinza e branco tão bonita e íntegra quanto o irmão. Sai da loja de roupas carregando aquela que acredita ser a última sacola de suas compras. Não quer, não vai comprar mais nada. Não tem mais dinheiro, não tem mais crédito, não tem mais vontade de nada. Está abarrotado de sacos plásticos contendo caixas e embrulhos, e isso de certa forma o envergonha. Alguém, conhecido ou desconhecido, amigo ou inimigo, qualquer uma dessas pessoas que entram e saem das lojas, que gastam dinheiro que têm ou que ainda precisarão ganhar, que carregam sacolas, listas, e crianças, que exibem sorrisos e carrancas, que desejam boas festas e felicidades a outras pessoas queridas ou estranhas – qualquer um desses aí pode apontar o dedo para sua cara e chamá-lo de consumista fútil, de hipócrita, de filho da puta. Qualquer um deles pode. Vão apontar o dedo para ele, tratá-lo como igual? Ele merece?

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Comprou os presentes que queria comprar. Achava que não precisava presentear ninguém. E não precisava mesmo. Mas já gastou o que tinha e o que não tinha, já utilizou seu cartão de crédito até o limite e amealhou dívidas até março do ano vindouro. Não adianta reclamar. Comprou e está acabado. Quinze para as oito. Ele se encaminha para a saída do shopping. As portas metálicas já foram baixadas. Só resta uma portinhola entreaberta, guarnecida por um segurança espadaúdo, de orelhas achatadas e cara fechada, que reage espantado a seu boa-noite.

Ganha a rua. O céu está parcialmente nublado e algumas bátegas de chuva caem sobre o asfalto quente produzindo vapor. Segue para o ponto de ônibus. As sacolas pesam demais e comprometem a cadência de seus passos. Cinco minutos para as oito da noite. Natal é uma bosta. Que bom que já vai passar. Oxalá essa zonzeira passe logo também.

domingo, 29 de novembro de 2009

Verdades literárias

Todos desejamos resgatar por intermédio da memória cada fragmento de vida que subitamente nos volta, por mais indigno, por mais doloroso que seja. E a única maneira de fazê-lo é fixá-lo com a escrita.

A literatura, por mais que nos apaixone negá-la, permite resgatar do esquecimento tudo isso sobre o que o olhar contemporâneo, cada dia mais imoral, pretende deslizar com a mais absoluta indiferença.

Enrique Vila-Matas / Bartleby e companhia


Alguns fatos só se tornam verdadeiramente críveis quando colocados no papel. Certas experiências só adquirem sua real dimensão quando consubstanciadas em literatura. O mero relato oral ou o discurso jornalístico nem sempre se prestam à melhor exposição de determinados acontecimentos. Às vezes, apenas uma forma alternativa de narrar, que nem sempre é a mais clara ou a mais razoável, consegue transmitir sensações e idéias dos mais variados matizes.

Quando iniciei meu roman à clef Paroxetina, não tinha idéia do estilo de narrativa que desejava criar. Só sabia que precisava compartilhar certos aspectos da minha vida que - devido a uma série de fatores, mas principalmente pelo fato de eu ser uma pessoa muita reservada (leia-se extremamente tímida) - sempre foram circunscritos ao conhecimento de poucos. E o que eu pretendia com isso? A bem dizer, o motivo ainda não me é claro até hoje, um ano após a conclusão do livro, porém tenho certeza de que ele está muito mais relacionado à busca por autocompreensão e à necessidade de * “compartilhar minha solidão, torná-la meio de conhecimento”, do que a alguma compulsão autodepreciativa ou à urgência de clamar por ajuda.

O estilo por assim dizer “tragicômico” só foi definitivamente adotado quando a narrativa já se encontrava pelo meio, o que me obrigou a reescrever boa parte da história. Esse tom foi escolhido no intuito de mitigar um pouco a natureza extremamente dramática / pesada dos temas tratados (alcoolismo, violência doméstica, síndrome do pânico, esquizofrenia, bissexualismo; a velhice, a solidão; o “fim da inocência”; o fim do mundo...). Se tivesse optado por um tom mais seco, solene, ou jornalístico, talvez a leitura do livro se tornasse insuportável. Não que este tipo de narrativa não renda boa literatura, pelo contrário. (E J. M. Coeetze é o nome que me vem com mais força à memória como exemplo de grande escritor sisudo.) O importante é que o estilo adotado seja coerente com o teor da narrativa.

Um livro que acabo de ler e que está cheio de “coerência narrativa” é Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, romance gráfico da americana Alison Bechdel, que descreve o conturbado relacionamento da autora com o pai, e os prazeres e dissabores de se crescer num lar disfuncional.

Fun Home é a primeira graphic novel que leio, uma agradabilíssima surpresa. Impossível não se emocionar com o texto e os traços criados por Bechdel, alguém que soube se utilizar brilhantemente de duas linguagens complementares para contar uma história tão íntima, delicada, triste, e divertida. Ou seja, uma história universal.

Aqui, uma análise de Fun Home por Michel Laub.

* Isso é Drummond.

sábado, 21 de novembro de 2009

A Resposta

dedicado à senhorita D.

E como o escritor houvesse respondido a todas as suas perguntas de modo lacônico até então, expelindo ásperos monossílabos que lhe feriam não só os ouvidos como também a auto-estima, a jovem jornalista não acreditou que uma última questão pudesse salvar a entrevista.

Antes de decidir-se a formular uma derradeira pergunta, ajeitou-se uma vez mais no sofá do escritório. Um sofá macio de dois assentos, coberto com uma manta verde-água que cheirava a livros e cachorros velhos. O escritor estava sentado numa cadeira de alumínio estofada e reclinável a pouco mais de um metro e meio de si. Ela precisava inclinar ligeiramente a cabeça para o alto a fim de encará-lo nos olhos, uma vez que ele se encontrava num patamar cerca de trinta centímetros acima do seu.

O senhor disse uma vez que não acredita na escrita como fruto de uma necessidade. O que o incita a escrever? Por que o senhor escreve?

O escritor descruzou as pernas e pousou languidamente os braços longos e flácidos sobre elas. O mal-estar que não se esforçara por ocultar durante toda a conversa tornava ainda mais fundos os vincos que lhe sulcavam a face septuagenária. Abriu a boca de finos lábios arroxeados e ensaiou um preâmbulo que não passou de muxoxos e outros sons ininteligíveis. Alguns segundos depois, ele ditou a resposta:

Eu escrevo para aliviar a dor dos reumáticos e dos cancerosos. De todos os que sofrem enfim, nesta terra onde os homens vivem a gemer*. Escrevo para que os bons ressuscitem e os maus padeçam. Escrevo para desbastar as almas torvas, aguar os sítios áridos. Eu escrevo para fazer dormir os insones e despertar os letárgicos. Para que haja entendimento entre os povos. Justiça. Fraternidade. Solidariedade entre os homens. Escrevo para aplacar o ímpeto dos suicidas, a aflição dos solitários e a ansiedade dos compulsivos. Eu escrevo para que as crianças cresçam saudáveis e os velhos retornem à terra com o mínimo de angústia e o máximo de entendimento. Para que nenhuma espécie ou ecossistema se extinga. Para impedir as queimadas. Deter as pequenas tragédias cotidianas. Escrevo para conter o derretimento das calotas polares. E para que as tartarugas retornem à praia onde um dia eclodiram do ovo com o fito de depositar outros ovos. Eu escrevo para amplificar o clamor dos oprimidos e abafar os desmandos dos tiranos. Para evitar colisões aéreas. Para consolar os pais que enterram os filhos e os filhos que velam os pais. Para que os campos floresçam e os arsenais nucleares mingúem. Eu escrevo para expiar a culpa dos arrependidos e disseminar o perdão. Escrevo para. Eu escrevo...

Deteve-se abruptamente, como se suas cordas vocais houvessem se rompido. A frase morreu insipiente. Os olhos bastos quedaram-se fixos num ponto inexistente, parecia que a alma tinha-se esvaído do corpo por uma fresta escusa qualquer.

Sensibilizada – talvez essa não seja a palavra correta – com o destempero do velho romancista, a inexperiente repórter, incapaz de sacá-lo do estado de torpor em que mergulhara, juntou seus pertences – um bloco de notas, uma esferográfica, gravador, e o último romance do mestre que saíra por uma pequena editora em tiragem ainda menor -, levantou, não sem alguma dificuldade, do sofá, agradeceu pela atenção e caminhou na direção da porta.

Antes de deixar o escritório, a jornalista não pôde se furtar a dar uma última olhada para trás. A figura tétrica continuava na mesma posição em que ela a abandonara, a mesma efígie insondável. Saiu e ato contínuo fechou a porta quase bruscamente. Quando ganhou o saguão do edifício, pensou em retroagir e tentar insuflar algum ânimo ao velho romancista, mas preferiu confortar-se com a idéia de que ele voltara a escrever tão logo ela fechou a porta.

(Conto publicado originalmente no site Arlequinal, com o qual contribuo de vez em quando.)

*Verso do poema Ode a um rouxinol, de John Keats.

domingo, 15 de novembro de 2009

Algumas literárias I

Juventude – Esse romance de formação (ou deformação, como bem definiu André de Leones num post antigo) do escritor sul-africano J. M. Coeetze é um verdadeiro portento para os apreciadores da boa prosa. Narrado em terceira pessoa, no estilo conciso e sóbrio de Coeetze, consagrado em obras-primas como Desonra e Diário de um ano ruim, esse livro traz as memórias romanceadas do jovem John, um estudante de matemática e aspirante a poeta que ganha a vida trabalhando como programador de computadores numa sucursal da IBM na Londres dos anos 60. No seu tempo livre, além de dedicar-se à poesia, John visita museus, vai ao cinema, paquera, e faz leitura crítica dos escritores que admira. Na medida em que o emprego começa a lhe tolher as energias, ele acredita que não conseguirá alcançar seu fito maior, que é se tornar um bom poeta. Então lhe ocorre que a prosa é o caminho escolhido por aqueles que não conseguiram “encontrar a poesia”, ou seja, que a prosa é o refúgio dos poetas medíocres. Dúvidas as mais variadas o assaltam ao longo da narrativa, marcada por observações preciosas e agudas, do tipo que só os grandes escritores são capazes de produzir sem jamais cair no lugar-comum. Nada de muito extraordinário acontece no decorrer das cerca de 180 páginas em que acompanhamos a vida de John, e é incrível como Coeetze transforma essa “ausência de aventuras” num ponto positivo do romance, extraindo reflexão e grandeza do cotidiano insosso e não raro melancólico do protagonista. Juventude é o típico livro que, mal terminamos a leitura, dá vontade de começar de novo.

Austerlitz – Não sei que palavras usar para qualificar esse romance do escritor alemão W.G. Sebald. Fantástico, extraordinário, fabuloso, magistral – nenhum desses adjetivos define com justeza a obra de Sebald, e simplesmente dizer que se trata de uma obra-prima não ajuda a dar a dimensão da sua importância. Talvez o mais coerente seja afirmar que Austerlitz, com sua mistura de ficção, ensaio e memória, seja um livro inclassificável. Suas frases longas e sinuosas, de uma exatidão acadêmica, mas sempre repletas de cores, cheiros, sensações, nos transportam para um universo muito particular, causam uma espécie de suspensão do tempo real, e durante a leitura, o que não diz respeito a essa dimensão estanque se nos afigura irrelevante. Também as fotos que ilustram o livro nos causam grande arrebatamento, pois estão de tal modo relacionadas a esse mundo próprio no qual estamos mergulhados, que é como se emergissem de nossa própria consciência. E do que trata o romance, afinal? Grosso modo, Austerliz narra a história de um professor de arquitetura, Jacques Austerlitz, homem culto e viajado, cuja trajetória de vida foi brutalmente alterada pelo Holocausto. O narrador em primeira pessoa é um viajante que encontra o professor Austerlitz por acaso, numa estação ferroviária em Antuérpia, na década de 60, e se encanta pelos depoimentos que ouve dessa rica personagem com quem volta a se encontrar algumas vezes.

Quem tiver interesse em obter mais informações sobre a vida e a obra de W.G. Sebald, pode começar lendo este excelente texto escrito por Almir de Freitas para a revista Bravo.

sábado, 24 de outubro de 2009

Meninos Incompreendidos

Antoine Doinel e Jason Taylor são dois garotos de 13 anos do século XX. O primeiro vive na França da década de 50, e o segundo na Inglaterra dos anos 80. Ambos são saudáveis, inteligentes, e vivem em família. A família de Antoine é pobre e negligente para com ele; já a de Jason é de classe média, e o prove de conforto material e afeto. Por viverem na Europa, continente em que a maioria dos países preza pela educação, os dois adolescentes freqüentam boas escolas públicas - e passam por dificuldades diferentes também. Os problemas que Jason enfrenta na sua rotina escolar são, em sua maioria, decorrentes dos conflitos com colegas mais fortes e imbecis que ele. Antoine Doinel, ao contrário de Jason, não é impopular nem tampouco vítima de perseguição dos colegas; seu nome está associado a um tipo de liderança negativa, e não ao de um grupo de crianças bem comportadas e introvertidas que sofrem nas mãos dos colegas sádicos.

Antoine Doinel é o protagonista de Os Incompreendidos (1959), filme de estréia de François Truffaut e marco da Nouvelle Vague. Monumento de simplicidade e beleza, este longa-metragem narra as aventuras e os dissabores vividos por esse alter-ego de Truffaut na Paris do pós-guerra. Movido por um misto de curiosidade e revolta, Doinel confronta a autoridade dos pais e dos professores, e se encaminha para uma vida anárquica e precoce. Filho adotivo, o garoto interpretado por Jean Pierre Léaud vive numa casa humilde onde dorme num catre no quartinho dos fundos. A mãe, uma mulher jovem e bonita, nos é apresentada numa bela seqüência em que chega do trabalho, põe-se a despir as meias-calça e a reclamar os chinelos que não encontra. De início percebemos seu desprezo pelo filho. Ele é cobrado e criticado o tempo todo, não recebe nenhuma manifestação de carinho ou apoio, e muitas vezes é tratado como um simples empregado doméstico. Os olhos de Antoine / Jean Pierre ora lembram os de um cão vadio, ora expressam agressividade e ressentimento. Quando miram o pai, no entanto, os olhos do menino ganham alguma vivacidade. Há um clima de camaradagem entre os dois, que só é desfeito quando Antoine comete suas traquinagens e pequenos delitos, ou quando resolve se insurgir contra as arbitrariedades dos próprios pais e da sociedade em geral.

Jason Taylor é o narrador-protagonista de Menino de Lugar Nenhum, romance de formação do escritor britânico David Mitchell, lançado o ano passado no Brasil pela editora Cia das Letras. Ele vive numa cidadezinha do interior da Inglaterra chamada Black Swan Green, título original do livro. Amado e protegido pela família, Taylor não encontra a mesma acolhida de que dispõe em casa na escola. Vítima de gagueira, é alvo constante de chacota dos outros garotos, que o apelidam de Verme. Para minimizar o problema da gagueira, chamada por ele de Carrasco, Jason recorre a uma fonoaudióloga. Além de se interessar por atividades caras à maioria dos garotos de sua idade, Jason dedica-se (secretamente) à poesia. Reconhece, em dado momento da narrativa, que se os colegas descobrissem esse seu hobby sua vida social estaria comprometida de vez. Por isso envia poemas para concursos e revistas locais sob o pseudônimo de Eliot Bolívar. “Quando você mostra pra alguém uma coisa que escreveu, está oferecendo uma estaca pontiaguda, deitando no caixão e dizendo ‘Quando você quiser’”, diz na ocasião em que encontra Madame Crommelynck, senhora culta e experiente que faz críticas construtivas à sua obra.

As narrativas de Truffaut e Mitchell têm pontos em comum, como a fluência e o lirismo. Não há espaço para a pieguice nem para a divagação gratuita. Mas o humor está presente em ambas, principalmente como antídoto a um possível laivo de (auto)comiseração que poderia arruinar os relatos de cunho autobiográfico. Os personagens também não são caricatos nem agem segundo uma disposição maniqueísta. Por mais cruéis que os pais de Antoine Doinel possam ser, eles são dotados de algum senso de justiça, e soam sinceros quando se põem a ministrar conselhos que julgam importantes para a formação do filho. Por vezes os personagens de Menino de Lugar Nenhum podem parecer estereotipados, mas isso não é um problema narrativo, e sim uma conseqüência do olhar imaturo e parcial do protagonista-narrador. Seus algozes, por exemplo, são naturalmente descritos como bestas-feras despidas de bons sentimentos. Os pais, apesar de cuidar para que nada lhe falte, vivem às turras, o que é motivo de descontentamento para Jason.

Dois adolescentes de natureza diversa vivendo no mesmo século em décadas diferentes. Jason Taylor e Antoine Doinel. O primeiro tenta se livrar do assédio dos colegas de escola e sofre com a separação dois pais. O segundo possui espírito livre e se esforça para adaptar-se à vida em sociedade, a qual julga castradora e injusta.

François Truffaut e David Mitchell. Um cineasta e um romancista de origens e épocas diferentes. Dois grandes artistas. Duas grandes obras.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Angústia II

A linguagem em Angústia é extremamente concisa e percuciente. A sensação de asfixia gerada pelos períodos curtos e a aspereza dos adjetivos denotam o mal-estar do narrador frente ao mundo. Como ressaltei anteriormente, não obstante seu relato seja marcado pela desesperança e pelo ódio, de um modo geral Luis da Silva sente compaixão pela gente humilde com que ele convive. Dona Adélia, por exemplo, a mãe de Marina, fora “carrapeta”, vivaz, e não devia se sentir culpada por ter se transformado numa pessoa infeliz. Já o marido, Seu Ramalho, é um homem trabalhador e honesto, que não merecia o desgosto causado pela leviandade da filha. Seu Ivo é um sujeito imprestável mas bom, que ora amarga a ira de Luis, ora goza de sua generosidade. A prostituta, a empregada, a datilógrafa, o pai, o avô (Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva), os antigos escravos e empregados da fazenda – todos perpassam as memórias de Luis da Silva, que os descreve de maneira sóbria e ampla, expondo suas faltas e suas virtudes. A única personagem que não recebe qualquer misericórdia por parte do narrador é Julião Tavares, a personificação do que Luis da Silva julga haver de pior num ser humano.

Os ratos que infestam a casa de Luis da Silva “mijam na literatura”; Marina faz a higiene no banheiro do quintal, dá uma “mijada sonora.”A poesia em Angústia é de origem orgânica: cheiros, feições e fluidos são evocados ao longo de todo o romance, compondo uma atmosfera poética única em nossa literatura, que talvez só encontre paralelo em algumas obras de Aloísio Azevedo, como O Cortiço.

Luis da Silva se ufana intimamente de sua erudição, mas nunca a alardeia. Tanto o repugnam as pessoas que desprezam a educação e a cultura quanto os beletristas, os parnasianos e seus preciosismos. É inclemente com os livros ruins e seus autores, tal qual Graciliano tinha fama de ser. Aliás, é fácil, e por isso mesmo perigoso e inapropriado, identificar semelhanças entre autor e personagem. Como todo grande ficcionista, Graciliano Ramos certamente deve ter emprestado muito de si a Luis da Silva. Vícios e qualidades do mestre devem ter sido empregados na construção dessa personagem tão complexa e fascinante que é Luis da Silva, alguém com quem nos identificamos por ser, em certa medida, parecido com todos nós.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Angústia I

Li Angústia pela primeira vez aos 19 anos. Foi meu primeiro contato com a obra de Graciliano Ramos. Nunca li um livro do mestre alagoano por obrigação; sempre que o fiz foi por prazer e/ou curiosidade. Angústia foi um dos livros que marcaram o início de minha trajetória de leitor. Dizem que Graciliano não gostava muito do romance, que o julgava mal escrito. É difícil saber se isso corresponde à verdade. Não há (muitas?) testemunhas vivas que possam desmentir ou confirmar esse tipo de boato. Além do quê, existem várias lendas em torno da figura desse notável escritor. A de que ele era impiedoso com os jovens romancistas que lhe apresentavam originais ruins talvez seja a mais conhecida delas. Fala-se até que ele chegava ao ponto de rasgar contos ou artigos medíocres na frente do infeliz do autor. Eu sinceramente não acredito nisso. Não acredito que o autor de Memórias do Cárcere e Infância fosse capaz de tal descompostura. E ainda assim já tive pesadelos em que Graciliano, depois de passar os olhos por um escrito qualquer meu, rasgava-o em mil pedaços bem diante de mim.

Reli Angústia recentemente. E o achei extraordinário de novo. Penso que reler um bom livro é um dos maiores prazeres que uma pessoa letrada pode experimentar. Sempre que releio um livro que foi de grande importância para a minha formação, sinto-me remoçado. Há títulos aos quais eu sempre retorno: O Encontro Marcado, do Fernando Sabino, é um deles. Eduardo Mariano, narrador do romance, é um dos meus personagens favoritos da literatura nacional. Luis da Silva, o narrador de Angústia, certamente também figura nessa lista.

Ao contrário do que muitos apregoam, não considero Angústia um romance pessimista. O amargurado Luis da Silva lança quase sempre um olhar compassivo sobre seus semelhantes. Seu ódio é direcionado apenas àqueles que considera vis de alguma forma, como Julião Tavarez, seu antagonista, e Marina, pivô de sua desilusão amorosa. Tal como a maioria dos personagens criados por Graciliano Ramos, Luis da Silva é um ser abrutalhado, que apesar de possuir certo refinamento intelectual – única característica que o distingue de Paulo Honório e Fabiano, respectivos protagonistas de São Bernardo e Vidas Secas, por exemplo - tem sérias dificuldades para se relacionar com as outras pessoas. Todos os seus gestos, até mesmo os mais amistosos, estão carregados de uma violência tipicamente sertaneja, e de uma melancolia comum aos existencialistas. Luis da Silva tem plena consciência de que não passa de “um Luis da Silva qualquer”, ou seja, de que está só no mundo, de que não há nada nem ninguém que o ampare ou governe seu destino, e que portanto está condenado à liberdade.

Marina, a vizinha por quem Luis se apaixona, continua sendo uma mulher sem consciência do quanto sua beleza e sua displicência podem ferir os homens. É a mesma Marina cantada por Dorival Caymmi, que se pinta e se enfeita sem precisar, vulgarizando assim seus belos traços ao invés de realçá-los. Uma das mulheres mais interessantes da nossa literatura, sem dúvida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um desejo de morte ou de dor

Continuamos a caminhar. (...) Retomamos o caminho. Até quando? Os homens vão morrendo a nossa lado. Breve, morreremos nós também, sem termos feito o que foi sonho em nós, ou fantasia. A vida é assim. Temos de vivê-la, é nosso ofício provisório. Um dia, sem que saibamos por que nem como, talvez pingue de nós, obscuramente, ao caminharmos à noite, o começo de uma longa história.

Antonio Carlos Villaça / O Nariz do Morto

Eu me olhava no espelho e perguntava: Você quer a vida medíocre? E se você precisar que alguém lhe estenda a mão para atravessar a rua... Bem, é natural que você sinta medo. Acho que sim. Olhar para baixo do alto de um grande edifício ou de um viaduto costuma causar vertigem e ânsia de vômito em quem nunca se encaixou confortavelmente no escaninho que lhe foi legado pelo destino. Você quer a vida medíocre? Para começar a viver de verdade, arrisque dar um passo à frente. Ande – desacreditado ou não – pelo fio dilacerante da absurdidade, e goze, em vez de simplesmente lamentar, o desconforto causado por cada sorriso amarelo. Por que você não cumprimenta ou sequer encara os fantasmas que fazem a ronda noturna nos seus sonhos mais pesados e úmidos? Sinta o desequilíbrio, a angústia e os questionamentos perpétuos que enfraquecem gradativamente seus ossos. Suas mãos estão úmidas e frias, seus pés estão moles e começaram a se esfarelar, sua cabeça lateja e sua boca está dormente. Custa colocar dois ou três substantivos concretos e coloridos neste texto? Você deveria se permitir um cheiro (bom ou ruim, não importa), uma imagem (um homem magro e pálido que usa um chapéu marrom de couro, fuma um cachimbo castanho e perolado, e ri ou chora nervosamente; uma mulher velha e gorda, tintura roxa no cabelo crespo e curto, que sobe ofegante uma ladeira), ou até um toque morno e fugidio de uma criança peralta ou de um animal mais ou menos domesticado. E mesmo se nada existisse. Ou então se tudo o que lhe disseram repetidas vezes, com entonações variadas e alguns falsetes, for verdade. Quando você cair e não puder mais abrir os olhos que já terão escorregado mansamente por um desvão qualquer do mundo... Se você se diluir todo durante a última chuva, se ela aguar seu sangue e torná-lo menos espesso, talvez você finalmente se misture e se confunda com todos os outros seres e as substâncias todas que um dia os homens lograram nomear, e possa, quem sabe, respirar de novo.

Você quer a vida medíocre?

***

Paulinho da Viola conta e canta Lupicínio Rodrigues.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Forever Young

Eu ia escrever um post sobre os últimos filmes que vi na tevê, mas, uma vez que os dois posts anteriores ficaram uma merda, resolvi poupar dessa chateação os dois ou três leitores habituais deste blog. Se bem que é forçoso não compartilhar o fato de ter visto As Virgens Suicidas pela segunda vez ontem à noite.

O primeiro e surpreendente filme de Sofia Coppola é uma adaptação do extraordinário romance homônimo do americano Jeffrey Eugenides, lançado no Brasil pela editora Rocco, em ótima tradução de Marina Colasanti. Após debutar no cinema como atriz na terceira parte de O Poderoso Chefão, e ter sofrido duras críticas por sua atuação medíocre, Sofia resolveu voltar ao meio agora como diretora, e escolheu um material no mínimo ousado, que poderia ter comprometido seriamente essa sua nova empreitada. Para sorte nossa não foi o que ocorreu. Tendo o pai, Francis Ford Coppola, como um dos produtores, e o apoio de um elenco de primeira – com destaque para James Woods e Kathleen Turner, que vivem os pais das cinco adolescentes -, Sofia conseguiu fazer um filme sensível e original, ainda que não impecável. Entre as lindas garotas loiras que interpretam as irmãs suicidas, destaca-se a talentosa Kirsten Dunst, que voltaria a trabalhar com a diretora em Maria Antonieta, no qual interpreta o papel-título.

Quando vi o filme pela primeira vez, eu ainda não havia lido o livro. Depois de ter comprado e lido a edição de bolso lançada pela Rocco em parceria com a L&PM por R$ 13,00, achei o filme ainda melhor. Trata-se de uma brilhante adaptação de um romance complexo, narrado na segunda pessoa do plural por um grupo de garotos que testemunham a morte de cada uma das meninas.

***

Bob Dylan é gênio? A maioria dos chimpanzés (eu incluso) acha que sim, mas há quem o considere apenas um compositor competente e superestimado. Lembro de uma cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa em que (o genial) Woody Allen ridiculariza o músico num curto bate-papo com uma fã dele. A propósito, quem interpreta a tiete de Dylan é a ótima Shelley Duvall, de O Iluminado, e Popeye. Por ande anda Shelley Duval?

Um compositor nacional constantemente comparado a Dylan é Chico Buarque, que já chegou a ser chamado de “Bob Dylan brasileiro” nos EUA. Chico é quase unanimidade no Brasil: gênio. Mas seus detratores o acusam de barroco e exageradamente rebuscado. Na minha modesta opinião, o repertório de Chico vai do sublime ao tedioso, sempre com muita dignidade. Foi esse, aliás, o parecer de Paulo Francis a respeito de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, como li numa dessas deliciosas coletâneas de artigos do escritor.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Algumas cinematográficas II

Em DVD

Assisti a sete filmes em DVD nos dois últimos fins de semana:

O Leitor – Embora Kate Winslet esteja muito bem como a sentinela nazista que se envolve com o tal leitor do título, apenas isso não garante o interesse pelo filme, que aliás é bem enfadonho. Trata-se de um melodrama em dois atos com uma carga de “filme de tribunal.” A mensagem essencial do filme é a seguinte: facínoras também amam.

Foi apenas um sonho – Outro filme protagonizado pela ótima Kate Winslet, em sua segunda parceria com Leonardo DiCaprio. Dirigido por Sam Mendes (Beleza Americana, Soldado Anônimo), este drama versa basicamente sobre os conflitos de um jovem casal suburbano nos EUA da década de 50. Inconformados com sua vida monótona, Frank e April (DiCaprio e Winslet) sonham em se mudar para Paris a fim de viver uma vida menos ordinária. April é a atriz frustrada que não aceita sua condição de mãe e dona-de-casa, e Frank é um funcionário insatisfeito de uma grande empresa na qual o pai também fizera carreira como vendedor. Convencido pela esposa, ele resolve pedir as contas e ir para Paris. Quando a notícia se espalha, o casal vira motivo de chacota na vizinhança, o que só reforça seu desejo de mudar de vida. Um tema interessante – assim como o de O Leitor. Mas o resultado final é apenas mediano, como de resto toda a obra do diretor.

A Garota Ideal - Ryan Gosling vive um auxiliar de escritório misantropo que um belo dia apresenta uma boneca inflável como sua namorada à família e aos vizinhos. A princípio o espanto é geral, mas aos poucos todos aceitam o namoro com certa naturalidade a fim de não ferir os sentimentos do rapaz. Mais uma comédia dramática “sensível e inteligente” – e dispensável - produzida pelo cinema independente americano.

A Felicidade Não Se Compra – Clássico do cinema americano dirigido por Frank Capra e estrelado por James Stuart, em 1946. Uma parábola sobre os valores essenciais da América. Stuart interpreta um jovem do interior dos EUA que abre mão de suas mais altas ambições para se dedicar ao bem-estar da família e do povoado local. Aliás, só agora me ocorrem as (ligeiras) semelhanças entre esse filme e o recente Foi apenas um sonho. Cada qual trata do american way of life à sua maneira: o primeiro pela via do humor e do melodrama, e o segundo pela via da tragédia.

O Agente da Estação – Outro produto do cinema alternativo americano. Mas este me parece um projeto mais bem-sucedido que “A Garota Ideal”. Novamente o protagonista é um outsider, o que é quase uma regra inalterável do cinema indie mundial. Finbar (o ótimo Peter Dinklage) é um anão que trabalha numa oficina de brinquedos em Nova Iorque. Sua especialidade é o conserto de trens elétricos. Com a morte de seu patrão e amigo, Fin herda uma pequena propriedade à margem de uma linha ferroviária numa cidadezinha do interior, para onde acaba se mudando. Lá ele conhece um pequeno grupo de pessoas com quem faz amizade. O desenrolar dessas novas amizades e a maneira como Finbar encara o preconceito e o deboche são os fios condutores desse drama bastante acima da média.

Embriagado de Amor – O quarto filme do diretor Paul Thomas Anderson (Magnólia, Boogie Nights) é uma insólita comédia romântica estrelada por Adam Sandler e Emily Watson. Ele é um pequeno empresário do ramo dos desentupidores de pia, atormentado pela solidão e por suas sete irmãs superprotetoras; e ela é a “mulher misteriosa” que entra na vida dele por intermédio de uma das irmãs. A maioria dos recursos cinematográficos caros a P.T. Anderson está lá: planos longos, atuações carregadas (quase caricatas), cores vibrantes – porém não há mais o mesmo painel narrativo presente em seus trabalhos anteriores.

Amores – Comédia nacional sobre relacionamentos amorosos contemporâneos, dirigida por Domingos Oliveira, e baseada em sua peça homônima. Como em toda adaptação teatral, o forte é o desempenho dos atores, essencial para a sustentação da trama. Domingos de Oliveira filma de maneira muito simples: a câmera sempre acompanha os personagens de perto, restringindo ao máximo o espaço da ação. A preocupação com cenário, figurino, iluminação, e demais recursos técnicos é mínima – o que interessa é pura e simplesmente a mise-en-scéne. Divertido, sem dúvida. As questões discutidas também são bastante pertinentes. Mas o filme posterior de Domingos, “Separações”, me parece mais rico em todos os sentidos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Algumas cinematográficas I

Últimas idas ao cinema



Inimigos Públicos - O último filme que me levou ao cinema. Um legítimo e moderno "filme de gângster", dirigido por Michael Mann, o mesmo dos ótimos Fogo Contra Fogo, Colateral e Miami Vice, e estrelado por Johnny Depp, Christian Bale e Marion Cotillard. As seqüências de ação são primorosas, os diálogos são inteligentes, e as interpretações (destaque para o sempre ótimo Deep), cativantes.


A Era do Gelo 3 - Tão divertido quanto os anteriores, embora menos interessante. O filme foi todo pensado para a exibição em 3 D, como provam as infindáveis cenas de ação que por vezes cansam um pouco. Ninguém sai insatisfeito do cinema, mas com a sensação de que o material se esgotou.


Transformers - A Vingança dos Derrotados: Com essa sequência, Michael Bay surpreendeu a todos com sua capacidade de superação: o filme é muito pior que o primeiro, que já é bem ruim. Duas horas e meia de tortura mitigadas apenas pela beleza de Megan Fox.


sábado, 1 de agosto de 2009

Diário de um chimpanzé (VI)

Rotina

Nos últimos dias ele tem alternado sentimentos de resignação e esperança. Quase nunca é agredido pela falta de sentido que sempre o acompanhou. Ainda não é a sensação de conforto absoluto que um dia pretende trazer consigo, a sensação de que viver é natural, e que portanto deve encarar seu destino humano como um chimpanzé ou um lagarto encaram o seu. Depois que experimentou o pânico, nunca mais conseguiu viver com total naturalidade; o tempo todo tem de se esforçar para convencer a si próprio de que estar vivo é natural e devemos tocar nossas vidas de acordo com o que nos constitui.

Tem saído para procurar emprego como de hábito. Na maioria das vezes fica sabendo de oportunidades por meio de amigos e conhecidos. Às vezes consegue uma ou outra entrevista; às vezes essas entrevistas se desdobram em segundas entrevistas ou em testes diversos, os quais ele encara estoicamente, sempre cuidando para transmitir uma impressão melhor do que sua aparência e seu semblante melancólico acusam. Quer impressionar sem cair no ridículo, mas quase nunca consegue. Diz pequenas mentiras e acredita que nunca vai ser desmascarado em razão da inocuidade desse ato. Mais do que mentiras, ele comete omissões. É um sonegador. Se fosse bom nisso, até que sentiria algum orgulho, mas passa muito longe da competência nesse quesito.

Gosta de acordar cedo – talvez pela ausência de obrigatoriedade. Se tivesse de se levantar cedo todos os dias, talvez passasse a não gostar. Gosta de tomar café na rua, e o faria sempre se dispusesse de recursos para tanto. Quando não sai à procura de emprego, vai à biblioteca municipal da cidade vizinha, Lorena. Descobriu o lugar por acaso, numa incursão à cidade, durante a qual deixou alguns currículos na agência de empregos do estado local e, na viagem de ônibus, conheceu uma delegada de polícia de meia-idade que lhe desejou boa-sorte. A biblioteca municipal de Lorena possui um acervo variado que lhe apetece. Além do mais, dispõe de assinaturas de jornais e revistas que ele gosta de ler com alguma periodicidade. Os funcionários o tratam com bonomia; permitem que ele empreste três livros por vez, e nunca o punem – sequer o repreendem – quando devolve os livros fora do prazo. A única ressalva que faz à biblioteca diz respeito à limpeza do local. Os banheiros são imundos. Não dispõem de papel higiênico nem de sabão para a higiene das mãos. A bem da verdade, a culpa pela imundície dos banheiros é dos usuários da biblioteca, que decerto reproduzem no ambiente coletivo o que fazem em casa. Caso essa suposição esteja correta, os azulejos do banheiro dessa gente devem estar sarapintados de bosta humana.

Cães vadios circulam livremente pelo prédio. Duas devotas de são Francisco de Assis - a mulher de cabelos tingidos de ruivo que trabalha no guarda-volumes, e a magrinha de olhos fundos que cuida do acervo restrito ao público – dão liberdade para que os cachorros se sintam à vontade no local, podendo se abrigar debaixo de qualquer mesa ou cadeira sem ser incomodados por ninguém, como se fossem vacas ou macacos sagrados indianos. E ele teme pelo dia em que atolará o pé num amontoado de merda canina ao adentrar o prédio, ao caminhar por entre as estantes de livros disponíveis para empréstimo, ou ao se dirigir ao cantinho debaixo da rampa de acesso à sala de informática para cadeirantes, onde jaz o bebedouro enferrujado.

Desfila suas dúvidas e sua insegurança pelos corredores das estantes. Abre livros empoeirados, lê alguns parágrafos, sente a aspereza do papel velho ao folhear. Agacha-se a fim de apanhar um volume na prateleira mais baixa. Permanece alguns minutos assim, de cócoras, namorando o romance, o volume de memórias, de conto, de poesia... Enrubesce quando se descobre observado: ainda é imaturo demais para ignorar o julgamento alheio. Quando se põe de pé novamente, sente uma dor aguda no joelho esquerdo, doente desde a manhã em que caiu no meio de uma partida de futebol na quadra da escola e nunca mais se levantou. Continua lá, estirado na intermediária, sob os olhares preocupados e zombeteiros dos colegas; sob o sol forte de uma bela manhã de verão.


(Continua.)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sentimento do Mundo

"Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo..."
Carlos Drummond de Andrade / Sentimento do Mundo

Não existe nada que eu preze mais numa democracia do que a liberdade de expressão. Para mim, o direito de manifestar livremente pensamentos e exercer qualquer prática religiosa ou comportamental (desde que esta não infrinja as leis estabelecidas) é o parâmetro cabal para se aferir quanto uma nação é realmente democrática. Qualquer país que não garanta esse livre exercício de dogmas e circulação de idéias a seus cidadãos não pode ser considerado um Estado democrático.

Partindo desse princípio, um país como a Venezuela, em que opositores do governo sofrem severas sanções quando questionam as atitudes dos poderosos, está muito longe de poder ser considerado democrático. Aquilo que o presidente Hugo Chávez chama de “novo socialismo” ou coisa que o valha significa, sobretudo, um retrocesso político enorme, que remete ao tempo dos regimes comunistas mais sombrios e repressores. E é paradoxal que Chávez, um notório admirador de Fidel Castro, queira transformar a Venezuela numa nação economicamente forte e igualitária (leia-se politicamente restritiva), modelo que Fidel também sonhou implantar em Cuba há cinqüenta anos, e que hoje parece cada vez mais distante do ideal. Cuba, em realidade, está cada vez mais próxima de se tornar um regime aberto e democrático – ou semidemocrático, vá lá - do que nunca, principalmente agora que os Estados Unidos de Barack Obama acenam com a possibilidade de suspender o bloqueio econômico imposto à ilha durante a Guerra Fria.

É indispensável que os governos democráticos do planeta repudiem tentativas de ruptura com a democracia por parte de qualquer nação. Foi o que fez a maior parte dos governantes da América do Sul em relação ao recente golpe de Estado ocorrido em Honduras. Embora o presidente deposto daquele país, Manuel Zelaya, estivesse inclinado a um tipo de governo chavista, assim como o presidente boliviano Evo Morales, a opção pelo golpe não pode ser considerada a melhor, porque, como é sabido, este tipo de resolução acaba enfraquecendo drasticamente o país, além de acarretar embates que terminam invariavelmente em banhos de sangue.

Do mesmo modo, é fundamental que os cidadãos de países em que a democracia já se estabeleceu há tempos - ou há poucos anos, como no caso do Brasil – sejam veementemente contrários a qualquer forma de censura por parte de seus governantes, por menor que ela pareça ser.

Nenhuma forma imposta de governo é salutar, a História comprova isso. A atual situação no Irã é um exemplo de que, tão logo surja uma oportunidade, uma população insatisfeita com seu governo irá se insurgir contra ele. Os iranianos têm usado de meios pacíficos e modernos para protestar contra a tirania dos aiatolás e de títeres políticos como Mahmoud Ahmadinejad. É impossível não se solidarizar com a luta do povo iraniano por liberdade. As imagens e mensagens que correram o mundo pela internet denotam um grande clamor de esperança, de justiça, de tolerância. E esse é também o sentimento de todos os que acreditam, sem qualquer pieguice ou saudosismo utópico, num mundo melhor.

***
Esta canção deliciosamente utópica de Marisa Monte, Vilarejo, do álbum Infinito Particular, fala de um lugar em que vários povos convivem em harmonia.

domingo, 5 de julho de 2009

She's just l girl...

Quando o "doce bárbaro" caetaneou um clássico de MJ.

A homenagem derradeira d' Chimpanzé ao rei do pop.

sábado, 4 de julho de 2009

Visões literárias

Duas entrevistas. Dois escritores brasileiros contemporâneos. E dois “conselhos” àqueles que pensam em se dedicar à literatura.

Primeiro, um trecho da entrevista que o escritor Cristóvão Tezza, autor do celebrado romance O Filho Eterno, concedeu à jornalista Teresa Chavez, da Folha Online:

Folha Online - Para o sr., qual é o papel que a literatura tem na formação das pessoas hoje? O livro, como objeto, supre toda a necessidade de informação do mundo atual? O sr. encorajaria alguém a se tornar escritor hoje, apesar das rejeições sucessivas e desencorajadoras que descreve em "O Filho Eterno"?

Tezza - A literatura é um universo paralelo não oficial, uma linguagem capaz de abarcar, mimetizar e transformar todas as linguagens do mundo, sem se confundir com nenhuma delas. Tudo pode ser recriado pela literatura --a história, a ciência, a informação, a ética, a religião --numa dimensão muito mais ampla do que nos seus limites originais. O seu objeto não é a verdade, mas o homem que pensa sobre ela, de um modo que nenhuma outra linguagem consegue. E vendo de um outro modo, a literatura é um belo instante de solidão, para respirar nessa loucura toda. Bem, o livro é um objeto absolutamente fantástico, e a leitura é um processo exigente, muito mais que todos os recursos audiovisuais do mundo contemporâneo. Encorajar alguém a se tornar escritor? Acho um pouco assustador --é realmente uma escolha que deve ser tomada em solidão.

A seguir, uma parte da fala do escritor Sérgio Rodrigues, autor do “romance histórico” Elza, a garota, ao jornal Rascunho do mês passado:

Rascunho - Que conselho o senhor daria a alguém que deseja dedicar-se à literatura no papel de escritor?

Sérgio - Meu conselho-padrão, que muita gente acha que é piada mas é sério, costuma ser o seguinte: desista se for capaz. O mundo da literatura parece muito charmoso e tal, mas a verdade é que o jogo é muito duro e nem sempre leal, as recompensas são fugidias e as chances de fracasso - não só comercial, mas estético mesmo - estão todas contra você. Agora, se depois de considerar tudo isso o sujeito ainda for incapaz de desistir do seu plano maluco, então é escritor mesmo, e nesse caso todos os conselhos se tornam fúteis. Cada um tem que encontrar seu próprio caminho. Ler muito, ler tudo, e não ter pressa demais de publicar talvez sejam recomendações úteis. Arranjar um jeito de sustentar seu "vício" também me parece um bom toque. A menos que seja rico de berço ou de baú, um escritor deve ter outra profissão, sob pena de ser levado pela ânsia do profissionalismo a vender seus escritos cedo demais, tornar-se um marqueteiro juramentado ou sair à caça de bocadas estatais - e nada disso é muito saudável para aquilo que realmente importa, isto é, o texto.

domingo, 28 de junho de 2009

Correspondência II

Em 26 de março de 2009, eu escrevi:

Já é sexta-feira? Acho que sim. Todos parecem tão cansados, tão absortos. Nas ruas, tenho deparado pessoas assustadiças, demasiado desconfiadas - como se estivéssemos em plena guerra civil. Será o apocalipse? Que me diz da mortandade das baleias, dos recém-nascidos, dos toxicômanos...? Muita gente se matando; já tomei conhecimento de três só aqui nos arredores. Algum numerólogo sabe o porquê? As cartas, os búzios? Algum sacerdote ou pastor? Você aí, sabe?

E onde anda o velho Alexandre, você sabe?

Pronto. A "entidade" já subiu. Agora é sério. Aqui quem vos escreve é o mais novo tecnólogo (desempregado) da praça. Colei grau no último dia 18. E tu, por onde tem andado? Vai bem de saúde? Working hard? E as crianças? Casaste? Que tem achado da política? Da economia? Da campanha do Guará no Paulistão? E o Obama, hein? Como bom cristão, torço por ele, mas haja verdinha pra saciar a fome dessa tal de crise! Biscate! Haja creolina pra desinfetar tanto ativo tóxico!

Então. Assim, vou-me indo porque já é quase sexta e, ademais, estou tentando seguir a caravana do Saramago, o bom velhinho, cujo objetivo é tanger um elefante asiático chamado Salomão de Lisboa até Viena d' Áustria.

Abraço. E apareça lá no meu burgo - o Chimpanzé -, que, diga-se, anda meio às moscas.

Mas o velho Alexandre não respondeu.

Onde andará o velho Alexandre?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Luto em Neverland

A morte de Michael Jackson repercute de modo impressionante pelo mundo todo. O choque provocado pela abrupta partida do cantor levou as pessoas a relembrarem o grande talento que encantou gerações e estabeleceu definitivamente o conceito de pop star. De repente, a convicção que os fãs de Michael nunca abandonaram foi partilhada por admiradores comuns de todas as partes do globo. Todos apontam uma qualidade marcante do rei do pop, um hit inesquecível, um videoclipe. E, como carreiras de grandes astros da música e do cinema costumam ser marcadas por polêmicas e escândalos, o lado ruim da trajetória de Michael Jackson - quiçá o maior ícone individual da história do show business -, também está sendo rememorado.

Meses atrás, ao rever alguns clipes do cantor na tevê, eu e meu irmão nos entreolhamos e concordamos: ele era o maior. Tinha uma voz especial, inconfundível. Dançava maravilhosamente bem, sem deixar transparecer qualquer esforço. Parecia mesmo flutuar no palco. Acerca dessa sua habilidade admirável, o crítico de cinema Inácio Araújo escreveu em seu blog:

Michael dançando era um corpo que desorganizava o mundo ao seu redor, reduzindo nossos corpos, os corpos de todos os outros, a coisas mal-ajambradas. E depois reorganizava-o pelo simples efeito de sua elegância, da impressionante agilidade dos gestos.

A busca pela juventude eterna levou Michael Jackson a transformar seu corpo de tal modo, que o Michael de meia-idade, de pele alabastrina e rosto disforme, em nada lembrava o Michael mulato e de traços simétricos e suaves do início da carreira. As ilações a respeito dos motivos dessa transformação física brutal do cantor são muitas, mas as certezas são poucas. Assim como as acusações de pedofilia que recaíram sobre ele nunca foram confirmadas, apesar de seu comportamento muitas vezes ter fomentado esse tipo de denúncia.

De menino prodígio a rei do pop. Cinqüenta anos de vida e quarenta e cinco de carreira. Há anos Michael Jackson não se apresentava nem gravava discos. Apenas as polêmicas e as excentricidades do cantor eram veiculadas na mídia nos últimos tempos. Seu retorno triunfal estava marcado para o mês que vem: uma turnê de 50 shows no Reino Unido. Um desafio enorme para alguém com a saúde tão debilitada. Talvez nem o próprio Michael acreditasse na sua capacidade de cumprir esses compromissos.

Talvez sua morte restabeleça a dignidade perdida pelos maus passos dados. Porque a convicção de que Michael foi um grande artista ela já trouxe de volta.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Correspondência

No dia 18 de Junho de 2009, meu amigo F. escreveu:

Bruno,

Como vai de emprego novo? Você deu uma sumida, ou será que fui eu? Ainda não tive tempo de imprimir o seu livro para ler. Gosto de papel. Mas quero ler tão logo eu consiga respirar um pouco.

Aliás, eu terminei o meu livro (uma pequena coletânea de contos) e gostaria que você lesse. O que acha?

Abraços,

F.

Cerca de quatro horas depois, eu respondi:


Caro F.,

não foi você quem sumiu, fui eu. E o motivo tem a ver com o fato de eu ainda estar me adaptando à nova rotina, que inclui menos horas de sono diárias, menos tempo para leitura (e para a escrita, por conseguinte), para cinema, internet, tevê, passeio, namoro, para pensar na morte do bezerro - em vez de pensar na nossa; e mais responsabilidade, compromisso, enfim, uma legítima "vida adulta."

Até publiquei um postezinho - como diria João Ubaldo Ribeiro, cujo "Sorriso do Lagarto" estou lendo - sobre esse assunto lá no meu blog / burgo.

Ando meio broxa pra literatura, digo, pra criação literária. Nunca pensei que fosse sentir uma espécie de saudade do período em que trabalhei no... romance, vá lá. Naquela época, embora o estigma do desemprego me vexasse e privasse de muitas coisas, eu sentia, agora percebo, um prazer enorme em dedicar algumas horas por dia a um ofício inútil, contraproducente, e tributário da loucura. Num dado momento, fui acometido de um estranho, porém agradável, sentido de dever, como se concluir o livro fosse a missão que justificasse minha existência.

Admito que esse negócio de predestinação é piegas e cafona como o quê. Mas eu fui de fato tomado por esse sentimento quase místico, que, a bem da verdade, não se traduziu em grande literatura - e sim, no máximo, num texto razoavelmente bem estruturado e irregular.

(O emissor da crítica acima é o autor do livro. Portanto, favor desconsiderá-la.)

Contudo, quero deixar claro ao amigo que não estou me queixando - longe de mim. Como cantou o grande poeta e filósofo Zeca Pagodinha, para mim a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia.

A vida, confessou-me um garçom certa noite num boteco fantasma, tem de ser cortada em cubos e servida à milanesa para consumo próprio e geral.

Abraços bêbados,

Bruno.

Ps - Será um prazer (e uma honra) ler sua coletânea de contos. Pode mandar!

E então a vida seguiu seu curso natural, tangida pela irretroatividade do tempo.

***

Espero que F. não fique chateado por eu ter publicado parte de nossa correspondência on-line aqui, pois o fiz com a melhor das intenções.

Como prova do respeito que devoto à nossa amizade, deixo o vídeo com essa magnífica interpretação de Chopin:

sábado, 20 de junho de 2009

A garota do call center

Vocês já devem saber que a revista piauí é uma das publicações mais interessantes surgidas no Brasil nos últimos anos. Se não me trai a memória - estou me referindo exclusivamente à minha memória real, sem qualquer consulta a sites de busca como (são) Google e quejandos -, o primeiro número de piauí chegou às bancas em outubro de 2006, e desde então vem sendo sucedido mês a mês por novas edições tão boas ou melhores que aquela.

Tenho alguns exemplares da revista, inclusive o primeiro, com a já célebre capa criada pelo cartunista Angeli, na qual um pingüim (pingüins serão sempre pingüins, nunca pinguins) de geladeira, usando uma boina militar cinza esverdeada, figura solitário em cima de uma geladeira vermelha. Este primeiro número contém ótimas e variadas colaborações, como a do escritor brasileiro radicado na Inglaterra, Ivan Lessa, que, além de contribuir com um excelente texto sobre sua volta ao Rio de Janeiro após quase trinta anos de exílio voluntário no Reino Unido, ainda criou, sob o pseudônimo de Chantecler, uma série de doze textos curtos e irreverentes para a sessão (hoje extinta) de horóscopo da revista, o que se repetiria ainda por algumas edições.

Caminhando para o seu terceiro aniversário, piauí ainda mantém o padrão original, que inclui colaborações fixas e eventuais, com perfis e reportagens longos, publicação de historietas em quadrinhos, ensaios fotográficos, narrativas ficcionais curtas, poemas, artigos, trechos de diário de anônimos e famosos, etc.

Na edição do mês passado, a revista publicou trechos do diário da paulistana Barbara Pina, uma estudante de 18 anos que trabalha meio período no call center de um provedor de tevê por assinatura. Além de bem-humorado, o relato dessa menina inteligente e batalhadora é comovente e esclarecedor sobre vários aspectos. Recomendo veementemente a leitura.

Para ler o texto todo, clique aqui. Abaixo, reproduzo dois trechos do depoimento de Barbara:

“Quero ser artista plástica. O call center é meu primeiro emprego com carteira assinada. Antes dele fiz estágios e bicos, nada que tenha durado mais do que dois meses. Percebo que em toda entrevista de trabalho , quando questionada sobre "planos futuros/interesses profissionais" , ao responder que quero ser artista plástica, é ali que eu perco a vaga. Não se dá oportunidade a quem não está interessado em seguir carreira na profissão X ou Y.”

“Dia desses, atendi um cliente que não saía de casa fazia um ano. Mora na rua dos Pinheiros, próximo ao largo do Batata. Ele contou ter decidido não mais sair de casa: assinou uma tevê a cabo, uma internet banda larga e passa agora 24 horas por dia entre quatro paredes. Me assegurou ser bem mais feliz assim. Pensei: "Nada mal..."

domingo, 14 de junho de 2009

Um poema e uma canção. Ou A preguiça do blogueiro

Incapaz de administrar seu tempo de maneira produtiva, o blogueiro apenas lamenta – e admira. Por vezes, inverte a ordem, então admira (a capacidade alheia de gerenciar o tempo) e lamenta (sua falta de talento para criar, construir, fazer acontecer, nas horas em que não está tentando garantir seu sustento ou descansando).

***
Um poema de Roberto Piva que vive na minha cabeça:

O SÉCULO XXI ME DARÁ RAZÃO
(se tudo não explodir antes)

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro-velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gângsters, seus gângsters ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, seus anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seus jardinzinhos com vidro fumê, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheios de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas com desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, , sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.
***
Um filme visto no fim de semana: Árido Movie, do pernambucano Lírio Ferreira. Belo. Divertido. Irregular. Penso que Bianca iria gostar desse filme. Acho que iria apreciar principalmente a trilha sonora. Da qual "extraí" o samba-canção Naquela mesa, clássico de Sérgio Bittencourt cantado por Otto, ao final do filme, e por Nelson Gonçalves, na versão abaixo:

sábado, 6 de junho de 2009

Eu ando pelo mundo prestando atenção em tudo... (2)

Semana passada meu chefe me perguntou do que eu menos gostava na vida. Estávamos sozinhos no escritório, ali por volta de meio-dia e meia, e de repente ele parou o que estava fazendo no computador, contornou sua baia e veio na minha direção. Com o mesmo ar enigmático de quem está perto de solucionar um grande mistério, ele me encarou: De que você realmente não gosta? O que mais o aborrece? Surpreendido por aquela pergunta fora de hora e de contexto, refleti durante cerca de vinte segundos antes de responder que o que mais me desagradava era a ignorância. A ignorância das pessoas. Mas essa é uma resposta muito vaga, ele objetou. Durante sua entrevista de emprego você me disse que o que mais o chateava era ter de varrer a casa, ajuntou. Sim, mas na ocasião você indagou qual a tarefa doméstica de que eu menos gostava, justifiquei. Então ele pôs-se em marcha mais uma vez, as mãos ocultas nos bolsos da calça verde-escura e exemplarmente vincada, e só depois de desarmar a expressão insondável que o caracteriza sempre antes de uma abordagem, voltou à carga: Eu não gosto de almoçar sozinho, entende? Isso sim é uma resposta objetiva, direta. Eu não sabia aonde ele queria chegar. Mas insisti na questão da ignorância. Que não suportava pessoas que além de não saber se negam a tomar conhecimento de qualquer coisa. Que tinha ojeriza a intolerâncias de quaisquer espécies. E que perto disso varrer o chão de casa chegava até a figurar como uma tarefa agradável. Entendi. Agora entendi, ele disse por fim, retornando à sua baia e retomando o trabalho no computador que abandonara minutos antes, quando fora acometido por aquela súbita e estranha curiosidade.
***
Após esse episódio, lembrei de uma canção de Adriana Calcanhoto, a qual gostaria de compartilhar com vocês e com meu distinto patrão:

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu ando pelo mundo prestando atenção em tudo... (1)

O governo do Estado de S. Paulo baniu os pobres (?) dos fumantes dos estabelecimentos públicos. A próxima providência deveria ser expulsar os espalhafatosos. 13:40 - apenas um terço das mesas do restaurante estão ocupadas. Meia dúzia de gatos pingados retardatários almoça rápida e silenciosamente; só se ouve o barulho de mastigação, de talheres que se chocam, e dos funcionários do estabelecimento. Vez ou outra a campainha do painel de senhas apita e todos (mesmo os que não aguardam pedidos) olham invariavelmente para o visor e acompanham a sucessão dos números: 21, 22, 23... 30, 31... Tudo na mais ordinária e reconfortante calma, até que uma voz altissonante e rouquenha abala a trama de placidez em que todos os comensais repousavam. Quase engasgo com um naco de carne vermelha. Mais que depressa me esforço por localizar a origem daquele grasnado, e após varrer brevemente o salão com minhas "retinas tão fatigadas", avisto a dona de tão incômoda voz. Uma loira alta e robusta, quase gorda, muito maquiada e vestida como uma boneca barbie. Seu discurso é mais potente que o de Heloísa Helena e o da ministra Dilma Rousseff, com a diferença de que não possui nenhum viés político; antes, está carregado de futilidade e, ainda pior, de intimidade. Em instantes todos os presentes tomam conhecimento de boa parte da vida pessoal e profissional da loira, com destaque para sua atribulada vida sexual. Que falta faz um "som ambiente" numa hora dessas, penso, uma vez que com o bom senso não se pode contar mesmo. A barbie grasna sem parar, expansiva, e sua vítima principal, a amiga com quem divide a mesa e uma porção de frango a passarinho, também parece um pouco constrangida diante de tamanha falta de compostura. Expõe indignações, resmunga em alto e bom som, confessa intimidades sem sequer ruborizar. Não contente com a pirotecnia verbal, ainda gesticula desbragadamente, à italiana. Deve ser surda, pondero sem qualquer ironia, mesmo não acreditando muito na hipótese. E seguimos almoçando sob a bufonaria da loira que, agora percebo, possui um belo par de seios, o que contudo não a redime. Termino minha refeição. Como de hábito, limpo a boca uma última vez antes de deixar a mesa. E, enquanto me encaminho para o caixa, sou surpreendido por um funk que eclode do nada e preenche em segundos todo o ambiente, causando risos e má digestão. O celular da loira começara a tocar.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Entre os muros da escola*

Terça-feira passada, assisti com satisfação ao melhor programa da televisão aberta brasileira. Sim, meus caros, ele é exibido pela tevê Globo nas noites de terça. Não, não se trata do irregular e dispensável Casseta & Planeta, nem do simplório e vulgar Toma lá, da cá – e sim do jornalístico comandado pelo veterano Caco Barcelos, Profissão Repórter.

Para quem não conhece o programa, segue uma breve descrição. A cada semana, uma equipe de repórteres liderada por Caco Barcelos elege um determinado tema – ou pauta, no jargão jornalístico – e o explora numa espécie de documentário multifacetado, onde os muitos vieses do assunto são desenvolvidos em micro-reportagens apresentadas de modo alternado ao longo do episódio.

Dito assim, parece que o programa não apresenta nada de novo, uma vez que a televisão nacional contém uma série de atrações semelhantes – entre elas o Globo Repórter, exibido pela mesma emissora. O que diferencia Profissão Repórter dos seus congêneres é a abordagem. Aqui, o que interessa é apresentar os “bastidores e desafios da reportagem”, isto é, revelar ao telespectador o que todos os veículos jornalísticos, televisivos ou não, procuram esconder.

Pois bem. Na última terça-feira 19, o tema em questão foi o cotidiano de um grupo de estudantes do ensino médio da periferia de São Paulo. Os repórteres se dividiram em duplas e investiram em algumas frentes de possível interesse jornalístico. Por exemplo: enquanto uma dupla acompanhava o dia-a-dia de uma professora de matemática que leciona cerca de catorze horas diárias para conseguir uma renda de R$ 3.000,00 mensais, uma outra registrava a rotina extraclasse de alguns alunos. Entre os muros da escola, professores sobrecarregados e mal pagos se esforçam para transmitir o mínimo de conhecimento a uma horda de adolescentes dispersos e desinteressados.

Conhecemos, por meio das lentes e da abordagem dos jovens repórteres, pessoas com as quais topamos diariamente e a quem muitas vezes não atribuímos o menor valor. Pessoas como essa professora de matemática, que, dona de uma inquebrantável resignação, ministra conceitos de álgebra, aritmética, geometria etc. a adolescentes como a mulatinha grávida de nove meses que não presta a menor atenção à aula por se julgar incapaz de entender as lições, e o rapaz algo tímido e franzino que deseja aprender para “ser alguém na vida” e concilia os estudos com o emprego de auxiliar de escritório numa indústria metalúrgica.

À medida que conquistam a confiança dos “personagens” que se destacam no transcorrer das matérias, os jornalistas conseguem registrar fatos da sua vida pessoal, e são essas incursões para além dos muros da escola que nos dão uma melhor noção de como vive a maioria dos brasileiros.

A jovem gestante divide o mesmo teto com oito irmãos e trabalha como babá para contribuir (modestamente) com o orçamento doméstico. Visitamos sua casa simples, conversamos com sua mãe, conhecemos até o beliche onde, segundo a mãe, a criança foi concebida. Em seguida, acompanhamos o garoto estudioso até sua casa depois da aula, por volta das 11 da noite. Ele nos convida para entrar. O repórter vacila, não acha o horário conveniente. Decide apenas cumprimentar o pai do menino, que descansa no sofá da sala. Da porta mesmo, esboça uma discreta saudação, que não encontra resposta. “É que ele está um pouco alcoolizado”, o menino justifica a apatia do pai.

Às cinco horas da manhã, o repórter apanha o menino em casa e juntos enfrentamos uma viagem de metrô de mais de uma hora até seu local de trabalho. E só algumas dezenas de quilômetros depois, após termos atravessado a maior cidade do país quase de ponta a ponta, nos despedimos do jovem aprendiz, na porta da fábrica.

Durante cerca de quarenta minutos, desfrutamos da companhia dessas pequenas criaturas. Tempo suficiente para descobrir que a professora de matemática, embora ensine com dedicação e goste do magistério, faz tratamento contra hipertensão. Para sermos apresentados a outros personagens e conhecer outras histórias, como a do garoto mais popular do colégio, um ex-encrenqueiro que, de acordo com a mãe, agora tem se comportado. Ele nos introduz nos diferentes “bandos” dos quais é integrante - pequenos grêmios que se caracterizam por seus gostos, seu modo de vida. Uns cultuam o hip-hop e o grafite; outros, o pagode e a cerveja; e há ainda os que curtem rock e skate. São os manos da periferia. A rapaziada que dribla habilmente as agruras rotineiras e ainda consegue "tirar onda". Tribos. Juntos esses jovens se sentem mais fortes. Intramuros, os que não se encaixam em nenhum grupo, os que destoam da maioria por alguma razão, são alvo de chacota. Em nossa curta estada na periferia da megalópole, recebemos a notícia de que um estudante de catorze anos cometeu suicídio. Numa carta deixada para a mãe, o garoto pede desculpas por não ter tido força suficiente para sobreviver aos anos de insultos e agressões físicas constantes.

Faltando poucos minutos para o final de mais uma edição do Profissão Repórter, a mulatinha extrovertida e sorridente que conhecemos no começo do programa entra em trabalho de parto. A repórter que a acompanhara desde o início da matéria segue depressa para o hospital onde a menina está prestes a dar à luz uma outra menina, cujo nome de pronúncia difícil foi extraído de um seriado estrangeiro qualquer.

*Título do filme francês que venceu a Palma de Ouro em Cannes, no ano passado. Dirigido por Laurent Cantet, o longa narra o cotidiano de uma escola pública da periferia de Paris.

sábado, 23 de maio de 2009

O Naufrágio da Ópera Flutuante

em memória de Mario Benedetti, homem bom que não conheci, mas cuja obra hei de descobrir

Atenção, senhoras e senhores! Quem fala é o seu timoneiro. Peço que me escutem atentamente pois o que tenho a informar é grave. A Ópera Flutuante está prestes a naufragar e não há botes para todos. Por favor, organizem-se em fila indiana – mulheres e crianças primeiro – e sigam as instruções da tripulação. A embarcação deverá soçobrar dentro de uma hora e meio mais ou menos, portanto ainda temos um bom tempo para acondicionar a todos (?) nos botes sem afobação.

Isso não aconteceu de fato, mas poderia ter acontecido. Por pouco A Ópera Flutuante - romance do americano John Barth com o qual eu vinha me digladiando havia duas semanas - não vai a pique. Nelson Rodrigues achava que não devíamos perder tempo tentando ler o maior número possível de livros. Para ele, só havia três ou quatro “livros totais”, aos quais devíamos nos ater durante toda nossa vida de leitor. Mas a realidade é que nos desgastamos com a leitura de romances “mais áridos que três desertos”, reféns de nossa insaciável curiosidade.

Agora que comecei a trabalhar, terei de diminuir meu ritmo de leitura, que já era lento, diga-se de passagem. Invejo essa gente que lê (ou afirma ler) uma grande quantidade de livros num curto período de tempo – sem contudo prejudicar sua vida social ou abrir mão de outras atividades como internet, cinema, esporte, caça ao tesouro etc. Como eu queria ser assim, multifuncional! Mas não dá. Se tento me dedicar a várias atividades simultaneamente, acabo entrando em parafusos. Espero conseguir ler dois, no máximo três livros por mês. Terei de ser mais seletivo, ir ao encontro dos “livros totais.” O que mais me preocupa é a escrita. Será que conseguirei produzir como antes? Se bem que já faz algum tempo que não crio nada que preste. Um conto aqui, um aforismo acolá. Ó Pai! Será o peso da menção honrosa?
***
Para encerrar, segue, em versão bilíngüe, um poema do peruano César Vallejo:

Intensidad y altura
Intensidade e Altura

Quiero escribir, pero me sale espuma,
Quero escrever, mas só me sai espuma,
quiero decir muchíssimo y me atollo;
quero dizer muitíssimo e me entulho;
no hay cifra hablada que no sea suma,
não há cifra falada sem ser suma
no hay pirámide escrita, sin cogollo.
nem pirâmide escrita, sem cogulho.

Quiero escribir, pero me siento puma;
Quero escrever, porém me sinto puma;
quiero laurearme, pero me encebollo.
quero a glória, e no entanto a mim me esbulho.
No hay toz hablada, que no llegue a bruma,
Não há tosse que nos fale sem ser bruma,
no hay dios ni hijo de dios, sin desarollo.
Não há deus nem seu filho, sem acúleo.

Vámonos, pues, por eso, a comer yerba,
Vamos, por isso, comer erva, sorva,
carne de llanto, fruta de gemido,
carne de pranto, fruta de gemido
nuestra alma melancólica en conserva.
a nossa alma em conserva sempre torva.

¡Vámonos! ¡Vámonos! Estoy herido;
Vamos agora porque estou ferido;
vámonos a beber lo ya bebido,
vamos beber o que já foi bebido,
vámonos, cuervo, a fecundar tu cuerva.
e vamos, corvo, fecundar a corva.

21/10/1937

(Tradução de Ivo Barroso)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Índios (3)

Homens brancos que vivenciam a experiência de passar uma temporada numa aldeia indígena costumam ficar impressionados com o modo de vida dos nativos. Confrontados com uma cultura totalmente diversa da sua, eles têm a oportunidade de compará-las e pesar as “qualidades” e os “defeitos” de cada uma, por assim dizer. Não são poucos os casos de brancos – principalmente estudiosos – que, após mergulhar no cotidiano de tribos indígenas, emergem fascinados pelo sendo de organização e a simplicidade reinantes nessas sociedades. O jornalista Washington Novaes é um típico exemplo de intelectual que conhece a fundo a questão indígena brasileira. Há anos ele se dedica ao estudo sociológico dessas comunidades, tendo inclusive desfrutado do convívio de tribos indígenas amazônicas mais de uma vez. Seu fascínio e admiração pelo modo com que os nativos se organizam em grupo podem ser conferidos, entre vários outros registros, num pequeno documentário produzido pela TV Cultura, o qual pode ser visto em reprises esparsas nas madrugadas do canal. Nesse depoimento, Novaes ressalta o respeito que os índios têm pela natureza, sua política social equânime, que privilegia o trabalha em grupo e dá voz a todos os membros da aldeia, bem como seu desapego das coisas materiais. Os índios não são consumistas. Eles se contentam com o necessário - não há produção em escala no universo indígena. Assim não produzem lixo em excesso. Se os rios e as matas de onde o índio tira seu sustento estão ameaçados, não é por culpa sua, e sim da ambição e da irresponsabilidade (leia-se estupidez) do homem branco. Os índios têm muito a nos ensinar, Washington Novaes reitera várias vezes ao longo do documentário. Ao contrário do que acreditavam os colonizadores, os gentis estão longe de ser selvagens. Não precisa ser nenhum especialista em cultura indígena para deduzir que os verdadeiros merecedores desse epíteto somos nós.

domingo, 17 de maio de 2009

Índios (2)

O filósofo australiano Peter Singer ensina bioética na universidade americana de Princeton, Nova Jersey. Domingo passado, a Folha de S. Paulo publicou no caderno Mais! uma entrevista que Singer concedeu ao jornalista Sérgio Dávila, na qual falou sobre como o consumo de objetos de luxo pode contribuir para o aumento da pobreza no mundo. Crítico do consumismo irresponsável, Peter Singer acredita que a pessoa que compra um produto cuja venda irá beneficiar alguém ou alguma organização rica, ou que não tem problema de dinheiro, está contribuindo para o aumento da pobreza, uma vez que sua atitude não ajudará quem mais sofre com a falta de recursos. Questionado por Sérgio Dávila se ao efetuar uma compra qualquer o comprador não está ajudando a manter uma determinada quantidade de empregos, o filósofo respondeu que sim, o consumo de um modo geral é benéfico à sociedade, mas que se pudermos conjugar consumo com responsabilidade social estaremos de fato ajudando a construir uma sociedade mais igualitária, ao invés de apenas circunscrever a riqueza a uma pequena camada de privilegiados.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Índios (1)

Há exatos três anos uma série de atentados protagonizados por bandidos do PCC (Primeiro Comando da Capital, organização criminosa que, entre outras atribuições, "controla" os presídios do Estado) aterrorizou a população de São Paulo. Como o próprio governador do estado à época, Claudio Lembo, confirmou, era uma tragédia anunciada. De acordo com Lembo, a polícia tinha conhecimento de um plano articulado pelos criminosos para imprimir um “estado de sítio” na maior cidade do país por meio de ataques a delegacias de polícia, agências bancárias, ao sistema de transporte público, e a outras instituições importantes. Mesmo ciente da intenção do PCC, a Justiça concedeu a muitos presidiários bem comportados o direito de passar o Dia das Mães com a família, e a polícia paulista não conseguiu garantir a segurança da população. Os atentados, que tiveram início no dia 12 e se estenderam até o dia 20 de maio, resultaram em 496 mortos em todo o estado, entre militares e civis. No domingo 14, Dia das Mães, toda a mídia se mobilizou para cobrir o saldo dessa onda de destruição, e à noite telejornais e “revistas eletrônicas” como Fantástico e Domingo Espetacular noticiaram a angústia das mães que haviam perdido seus filhos justamente no dia dedicado a elas. Ao longo da semana pudemos acompanhar pelo noticiário todo o terror perpetrado pelos bandidos que houveram por bem não retornar à prisão na segunda-feira, como determinara a Justiça. Nos velórios de policiais militares e civis, a bandeira nacional e do Estado de São Paulo cobriam os caixões, e as saraivadas de tiros e o som fúnebre dos metais encobriam o choro dos parentes. Nos sepultamentos de cidadãos comuns, nada de tiros ou música para abafar o pranto dos familiares. Passados três anos, aproximadamente 60% dos casos de homicídio ainda não foram solucionados.

domingo, 10 de maio de 2009

Dez anos depois

É comum em entrevistas de emprego o recrutador perguntar ao candidato como ele se imagina dali a dez anos. Tal pergunta tem o propósito de aferir o grau de objetividade do candidato, e como ele se posiciona diante da vida. Falar bobagem nessa etapa é dar adeus à chance de emprego. E como ter certeza de que sua resposta é original, e que, mais importante de tudo, irá agradar ao entrevistador? Difícil saber.

Minhas respostas sempre foram vagas, não raro insinceras. Mas não por desonestidade de minha parte, e sim porque nunca soube ao certo o que queria (quero) para mim no futuro. Em garoto eu vivia dizendo que gostaria de ser engenheiro, o que enchia meu pai de orgulho e esperança. Engenheiro, o filho teria emprego garantido e em poucos anos ganharia muito mais dinheiro do que ele ganhara a vida toda. Contudo eu sequer sabia no que consistia a profissão de engenheiro, tampouco que existem vários campos de atuação para esse profissional. Minha disposição de me tornar um engenheiro provia do meu desejo de ser rico - mais rico que meu pai, o que não era difícil -, e naquela época eu só conhecia três tipos de pessoas que ganhavam dinheiro: médicos, engenheiros, e artistas. Como sempre fui facilmente impressionável, nunca cheguei a aventar a possibilidade de me tornar médico. Já meu “lado artístico” nunca foi muito desenvolvido, apesar de eu ser dramático por natureza e viver imitando cantores populares e não tão populares assim longe de olhares críticos e / ou reprovadores. É verdade que houve uma época em que quis ser pintor, outra que quis ser roteirista de HQ, e, mais recentemente, um período em que desejei – ardorosamente, diga-se -, ser cineasta. Tudo ponderado, tratei de me colocar no meu devido lugar. Eu andei pensando em suicídio. Melhor dizendo, em quanto o suicídio é contraproducente. Acho que só acredito no suicídio como “expressão artística”, ou algo que o valha.

Daí que eu sempre fui um ator medíocre. E um notívago de quinta categoria. Quase nunca cedo meu lugar no ônibus por vergonha e ruborizo ante uma mulher bonita. Dizem que não acredito em Deus por preguiça, mas não é verdade (?). Falam de minhas carências sem ter coragem de sondar minhas virtudes. No fundo, sou um romântico - no melhor sentido do termo, qual seja o de alguém que ama o belo e reconhece as mazelas do mundo sem jamais tirar os pés do chão. Sei lá. Eu queria ser poeta. Mais combativo. Cara-de-pau. Um compositor popular, como já comentei aqui outro dia. Escritor? Não sei. Quero tanto que tenho medo. E, como dizia Clarice Lispector, quem tem medo de escrever jamais escreverá algo que preste.

Nesta semana inicio uma nova fase na minha vida. Não, não vou sair por aí com mochila a tiracolo, sem lenço nem documento, saudoso da época em que ser hippie era a única maneira decente de levar a vida. Vou começar num emprego novo. Vou trabalhar com finanças, empréstimos, juros simples e compostos. Vou de esporte fino. E vou graças à generosidade de um amigo, que acreditou em mim e me deu esta oportunidade. Um amigo.

Tento me imaginar daqui a dez anos, debalde. Tento me imaginar escritor. Mas mal consigo vislumbrar o que me aguarda daqui a dez dias. O presente é tão grande, cantava o poeta. Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. E, se possível, vamos de mãos dadas.

***

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Coisas que aprendemos andando de ônibus - Divagações

Não sei como é na sua cidade, mas aqui em Guaratinguetá cerca de 90% por cento da frota de ônibus possui televisão de bordo. E eu sou a favor da pena capital pro sujeito que teve essa idéia brilhante. Porque é simplesmente um suplício viajar com o som e as imagens atordoantes exibidas numa tela fixada no alto da parede que separa o banco do motorista do primeiro assento de passageiros. Se o volume fosse um pouco mais baixo e não ameaçasse gravemente meu sistema auditivo, talvez eu não me incomodasse tanto, e quem sabe até recebesse melhor as informações veiculadas ao longo da programação gerada especificamente para a empresa de transporte urbano que atua na cidade desde que eu me conheço por gente.

Hoje, por exemplo, o “canal do ônibus” informou que porções excessivas de chocolate podem ser fatais aos cachorros, pois que o chocolate possui uma substância (não me perguntem qual) nociva ao melhor amigo do homem. Os filhotes são os menos resistentes a essa substância, portanto devem ser totalmente privados do consumo de chocolate. No máximo, e se o dono achar mesmo necessário que seu cão desfrute vez ou outra desse doce tão popular entre os humanos, é tolerável um bombom dos pequenos, de menos de 50 gramas.

Outro fato de que tomei conhecimento foi que o governo pretende ampliar a fiscalização nos sítios em que se produz açaí. O motivo é o combate à contaminação da fruta pelo mosquito transmissor da doença de Chagas, para a qual ainda não existe cura. A doença de Chagas, como vocês devem saber, conduz a pessoa à morte em questão de anos e de maneira tenebrosa. O coração do doente incha de modo irreparável, e não há outra solução senão o transplante. Eu, que há coisa de dois anos sou um consumidor regular de açaí na tigela, fiquei assustadíssimo por saber que durante todo esse tempo estive exposto a tal perigo, e, na condição de hipocondríaco inveterado, já cogito suprimir essa (deliciosa) sobremesa da minha dieta, assim como fiz com o caldo-de-cana depois que foram noticiados casos de mortes de pessoas que beberam garapa de cana contaminada.

Definitivamente, o mundo não é um bom lugar.

domingo, 3 de maio de 2009

Ao vencedor, as batatas

"Em todo caso, havia um só tunel: escuro e solitátio - o meu."
Ernesto Sábato / O túnel

Quando eu era garoto, acreditava que tudo correria bem no futuro desde que eu seguisse os passos que traçava com base no que as pessoas me haviam dito que era bom, justo, promissor. Bastaria continuar a me dedicar aos estudos, a respeitar meus pais, e a me alimentar corretamente. Seguindo esta receita tão básica, o início da minha vida adulta seria tranqüilo, cheio mesmo dessa substância, desse hormônio tão almejado que chamam de felicidade. Eu me formaria numa boa faculdade, arranjaria um ótimo emprego, conheceria uma mulher incrível, e constituiria uma família exemplar num lar aconchegante, desses para o qual a gente tem vontade de voltar correndo depois de um longo e exaustivo dia de trabalho.

Desnecessário dizer que nada disso aconteceu. Minha "vida adulta", se é que ela já começou, é um verdadeiro desastre. Por que estou falando disso? Não estou chorando o leite derramado não - longe de mim! É que dois filmes que vi esta semana me fizeram refletir sobre minha condição, e sobre o quão ingênuo eu fui acreditando que, caso eu me engajasse num projeto de "vida feliz", tudo correria às mil maravilhas. A propósito, os filmes que suscitaram estas ponderações são Clamor do Sexo, do Elia Kazan, e Mundo Livre, do Ken Loach. Basicamente, a única coisa que têm em comum, além de serem ótimos filmes, é a desesperança, precedida de desespero, que assola as personagens - jovens que um dia acreditaram que seriam vitoriosos na vida profissional e no amor, dois dos aspectos mais relevantes na medição do grau de felicidade de uma pessoa - num dado momento de suas vidas.

É assustador (e ridículo também) pensar que, após ter amargado várias derrotas, passei a apostar as fichas que me restavam num único livro. Um livro do qual ora me orgulho, ora me envergonho. Algumas dezenas de páginas de alto teor autobiográfico, escritas ao longo de dois anos. Tão pouco que, quando segurei o maço de folhas da última versão do romance pela primeira vez, pensei que ele fosse se esfarelar nas minhas mãos. Eu sentia (e ainda sinto) o bafo ácido de deboche que muita gente me dirigia. E não tinham razão? O que um filho da classe trabalhadora tinha de se meter em literatura - arte praticada pela elite; ofício de gênios, loucos, veados, vagabundos? Por que não arruma emprego na indústria como o pai? Por que não age como todo jovem de bem e arranja um emprego qualquer? Mas eu procurei - e muito! - emprego. Acontece que fracassei. Não fui competente o bastante. Não me deram oportunidade. Não tive sorte. E os concursos públicos? Não tive êxito; não estudei o suficiente; não prestei os concursos certos. Nada de batatas para mim, portanto. A literatura? Todos nós sabemos que nunca deu dinheiro. Conta-se nos dedos os privilegiados que vivem disso; os beste-sellers. Imagine: um rapazinho tímido e esquisito do interior do estado de SP, metido a escritor, e que, pasmem!, esperava que a literatura pudesse lhe abrir portas, ao menos dar-lhe um meio de subsistência, devolver-lhe a dignidade perdida... Um ingênuo! Um idiota! Um desesperado, sobretudo.
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Impossível não lembrar de O Náufrago, estupendo romance de Tomaz Bernhard.