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quarta-feira, 9 de junho de 2010

*Alguma coisa urgentemente

Sabe aquela sensação de que seu organismo, sua mente, seus anseios, seus medos, sua rotina estão te matando aos poucos? Uma sensação de sufocação que nos leva gradativamente ao desespero. Então...

Tudo bem, eu já esperava que você fosse objetar que qualquer pessoa, bem ou mal de saúde, satisfeita ou insatisfeita com sua vida, está morrendo aos poucos. Mas ocorre que a ansiedade gerada pelo descontentamento acelera o processo de envelhecimento e compromete a saúde de modo geral. (Não fui eu que descobri isso; consulte a literatura médica, ou o Google, tanto faz.) E era exatamente esse ponto que eu queria ressaltar.

Pena que seja tarde demais. Como foi que cheguei a essa conclusão? Não precisa ser nenhum gênio para saber. Você simplesmente acorda agitado no meio da noite e descobre que é tarde demais; que as coisas estão perigosamente distantes do ideal, e que por mais que você corra, jamais alcançará aquele bonde chamado satisfação, plenitude, maturidade.

(Puta que pariu! E não é que estou escrevendo igual à Lya Luft? Deve ser resultado de mandinga dos meus desafetos – que são poucos, graças a Deus.)

A juventude é uma mulher fatal. Um vírus incubado que pode se manifestar abruptamente caso você se torne um deslumbrado ou adquira o mau hábito de chorar com pena de si mesmo. Num dia você se sente apto a levantar os mais pesados halteres e a dirigir bêbado e em alta velocidade na contramão, e no outro você se descobre mais humano, matutando, algo acovardado, a respeito do seu futuro que se anuncia inglório. Eu queria ser muito mais, mas acabei me transformando nisso! E o pior é que a culpa não é dos meus pais, nem dos sucessivos governos corruptos e ineficientes, ou do pé na bunda que levei na oitava série. A culpa é minha e sua, porra!

Ouvir aquela velha canção do Bob Dylan te faz relembrar os amigos que se foram, os vivos e os mortos. Pequenas madeleines embebidas em cerveja preta suscitam mergulhos existenciais e engendram maremotos de melancolia. A recorrência e o apelo da infância são sempre um bom conhaque para noites frias e inóspitas. Mas talvez a estratégia mais eficaz para combater os dissabores do presente seja se apegar às pequenas conquistas, às virtudes incontestes que persistem mesmo na adversidade. E então gozar por um instante de uma felicidade “por assim dizer sem motivo”, como diria Clarisse.

É possível que você tenha lido os livros errados. Como é mesmo que se faz para viver um grande amor, seu Vinicius? Talvez esteja na hora de aderir definitivamente à “onda verde” e reciclar seus valores. Se você foi desmamado cedo demais, se descobriu precocemente que seu pai é um imbecil (e que você não é muito melhor que ele), se foi vítima de bullying, se em algum momento se sentiu confortável nadando neste caldo azedo de cultura em constante ebulição que banha desde Nova Iorque até o “cu do mundo”, se vive impelido a fazer alguma coisa urgentemente para não “desperdiçar sua vida” - e se, por fim, você passar a descrer da humanidade, com agá minúsculo ou maiúsculo, saiba que você não está só. Pulsos cortados, jorrando sangue, e um marmanjo dependurado numa corda atada ao pescoço podem até ser imagens românticas e, é preciso admitir, sedutoras, mas o apelo do suicídio nos é mais útil se encarado como “sopro de vida” (Clarisse de novo).

Bem, eu e você queremos crer quê, não?

* O título é o mesmo de um excelente conto do escritor João Gilberto Noll.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Escrever: velhos esboços

Encontrei essas notas avulsas em velhas cadernetas e resolvi publicá-las aqui. Com exceção de um ou outro pensamento tolo, e de algumas platitudes dispensáveis, não me envergonho dessas linhas. Elas são um testemunho da minha “adolescência estrangulada”, e um prelúdio do que seria o início da minha vida adulta.

“Escrevo. E ao fazê-lo é como se reconstituísse os filamentos de meu coração doente”.
* * *
“O ato de escrever é essencialmente um ato solitário, e isso, de certo modo, agride as pessoas. Não as culpo. Pelo contrário. Encaro sua hostilidade com ares de resignação. Afinal de contas, ninguém é obrigado a aceitar a loucura dos outros. Eu mesmo às vezes me pego olhando para uma atividade alheia de modo preconceituoso, sem que a pessoa em questão tenha feito algo de ruim para me atingir. Portanto não posso ser agressivo com quem não suporta me ver escrevendo. Escrever é nadar contra a maré, e quando se nada contra a maré, há sempre alguém disposto a nos fazer voltar atrás – a impedir que nos afoguemos”.

* * *
“Hoje, enquanto esperava pela chegada de pães frescos no supermercado, pensei em como não sou uma pessoa difícil, mas como também não sou fácil. Sou raso de tão profundo. É isso! Ou melhor: De tão profundo, chego a ser raso. Sei lá! Dá na mesma! Tudo o que eu escrever aqui deporá contra mim mais tarde. Portanto tenho de tomar cuidado. Mas não pretendo bancar o covarde. Minha cabeça funciona sem parar – a mil por hora, para empregar um clichê. (Vou fechar a janela porque os pernilongos estão invadindo o quarto.) Pronto. Eu dizia que sou raso de tão profundo, e que meus pensamentos me obsedam. Principalmente meu medo da morte. A sensação de que a morte me cerca causa-me pavor. Vou usar de outro chavão gigantesco: Sou jovem demais pra morrer velho. Ou seria o contrário? E escrever? Escrever é viver, ou é uma maneira bem estúpida de fugir à vida? Eu sinceramente não sei. Só sei que preciso me manter atento, para não me calar de uma vez por todas. Isso seria muito ruim. Também preciso cuidar para não me viciar em diários. Diários me assustam. Diários me parecem invariavelmente um ato desesperado. Morte aos diários!”
* * *
“Tenho escrito algumas linhas bobocas no computador e esporadicamente a lápis, em papéis avulsos. Ora delas resultam contos, ora lamentos quase insuportáveis, de tão melancólicos. Alguns escritos eu tenho preservado para análise posterior, as quais me permitirão saber se de fato o que escrevi é aproveitável ou simplesmente um lixo completo. Se bem que até hoje não possuo juízo formado sobre contos que escrevi há três, quatro anos atrás. (Aliás, a expressão “há tantos anos atrás” me parece caracterizar um pleonasmo, mas uso-a assim mesmo, pois às vezes ela se faz necessária para dar ênfase à passagem do tempo).

Encher uma página de palavras sempre me dá prazer, ainda que o texto seja uma porcaria. Esse vício, contudo, é extremamente prejudicial a qualquer pessoa que queira escrever bem, pois ajuda a tornar o redator mais relapso e, conseqüentemente, menos criterioso com seus próprios escritos.

Eu também já escrevi em outro lugar que a pior parte do trabalho de um escritor é reler o que escreveu. Isso pode destruir carreiras se o sujeito não possuir o mínimo de jogo de cintura. Tenho feito o seguinte: procuro não ler um texto imediatamente após sua composição, para me preservar de uma eventual “depressão pós-parto”. Isso geralmente funciona, a não ser que o texto seja deveras ruim. Então só volto a minha cria horas, dias, ou semanas depois, sempre lutando contra um impulso natural de querer retomar o fruto engendrado o mais rápido possível. Essa luta é também contra minha ansiedade crônica, que me prejudica até quando estou em pleno processo criativo. Levando isso em conta, acredito que a ansiedade não me auxilia em absolutamente nada, muito menos quando estou compondo um texto literário - ao contrário do que afirmei em um de meus relatos de há não muitos dias”.

* * *
“Clarisse Lispector dizia que nunca relia seus textos depois de prontos, pois quando o fazia sempre sentia nojo; nunca achava que estava bom. Mas eu não sou Clarisse Lispector. Não há comparação possível. Clarisse era um talento nato e irrefreável. Por mais que lhe colocassem amarras, ela continuava a criar maravilhosamente. Já eu duvido do meu talento diariamente. Tenho medo de dar com os burros n’água, e quem tem medo não consegue escrever – a própria Clarisse repetia isso aos jovens escritores que lhe pediam uma opinião a respeito do trabalho deles. Com medo não há literatura. Literatura alguma brota no campo infértil do medo. É preciso libertar-se dos próprios medos e limitações de quaisquer espécies para poder fazer boa literatura. E eu não sei se estou preparado para isso. Escrever sobre a incapacidade de escrever também não me interessa. Muitos grandes autores já o fizeram com maestria. John Fante, com “Pergunte ao Pó”, e Fernando Sabino, com “O Encontro Marcado”, para citar dois exemplos totalmente díspares. Se bem que boa parte da Literatura é composta de reiteração, de releituras e de intertextualidade. Enfim, Literatura é conhecimento ao contrário – é chão repisado sem propósito”.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Algumas cinematográficas III


O Livro de Eli – Mais um filme em que um “cavaleiro solitário” vaga por uma terra devastada em busca de vestígios de civilização. Denzel Washinton é o paladino da vez. Durão e justo, ele avisa seus adversários dos perigos que correm ao desafiá-lo. Em vão, obviamente. Os malfeitores que cruzam seu caminho são massacrados, e tudo é filmado de maneira bastante estilizada (leia-se pouco inventiva) pela dupla de diretores, os Irmãos Hughes – responsáveis pelo interessante Do Inferno.

Denzel / Eli carrega consigo o último exemplar da Bíblia Sagrada, que por sua vez é cobiçado pelo vilão interpretado por Gary Oldman. Este acredita que o livro possui poderes que lhe permitiriam controlar as pessoas, e então encarrega seus capangas de roubá-lo. Mas a tarefa se mostra mais complicada do que ele supunha. Eli é um tipo de messias disposto a tudo para preservar o livro em cujas páginas estão as diretrizes para uma vida boa e justa. E, como em todo filme de ação que se preze, ele encontra uma partner jovem, bela e rebelde, que o ajudará a chegar ao povoado em que as lições da Bíblia poderão ser passadas adiante.

Pode-se fazer várias leituras do filme. É possível considerá-lo tanto uma crítica ao fanatismo religioso quanto apologia ao cristianismo. Me pareceu extremamente conservador. Algo como: só existe salvação em Cristo. (Para tornar a sessão suportável, encarei o enredo genericamente como um elogio da leitura, do conhecimento.) E por mais que os diretores tenham tentado dar uma roupagem cool ao filme, tudo resulta muito cafona.
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Chico Xavier – A tão alardeada cinebiografia do médium mais famoso do Brasil chegou às telas do cinema e tem atraído um grande número de espectadores. O fato é que Daniel Filho, diretor do filme, não deve estar surpreso com o bom desempenho de Chico Xavier nas bilheterias, uma vez que se trata de um projeto meticulosamente calculado para o sucesso comercial. Um personagem carismático. Um roteiro bem amarrado. Atores da TV Globo. Emoção e humor “na dose certa”. Elementos presentes no filme de Daniel Filho – e praticamente a norma que rege quase a totalidade das fitas da Globo Filmes.

O que se vê durante as duas horas de duração do longa é basicamente uma hagiografia. Em menino, Chico sofria com as visões e as vozes do além a que apenas ele tinha acesso. Já na adolescência, o surgimento de seu “guia espiritual”, Emmanuel, lhe dá certo conforto e o prepara para a completa aceitação de sua sina: ajudar ao próximo. Cônscio de seus “poderes”, Chico passa a usá-los para, por exemplo, exorcizar demônios e psicografar mensagens de mortos famosos e anônimos. Logo a fama do médium corre o mundo. Ele passa a atender a pessoas vindas das mais variadas regiões, o que atrai a atenção da imprensa e gera investigações sobre a autenticidade de seus poderes paranormais.

A maioria das cenas que mostram o protagonista na velhice se passa num programa de entrevista que serve de base para todo o roteiro. Nelas, brilham as figuras de Tony Ramos, o diretor de TV, e Nelson Xavier, o intérprete do Chico idoso.

Ao final, resta a sensação de ter assistido a uma dramatização de programa jornalístico, como aquelas do extinto Linha Direta da TV Globo. Produção caprichada, interpretações esmeradas, roteiro ok. Ou seja, nada memorável.
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Ilha do Medo – Adaptação do romance Paciente 67, do americano Dennis Lehane, por um dos maiores cineastas vivos dos EUA: Martin Scorsese. Mais uma vez, é Leonardo DiCaprio quem interpreta o protagonista, um detetive federal que, juntamente com seu parceiro, Mark Ruffalo, é incumbido de investigar o desaparecimento de uma paciente de um manicômio situado numa ilha em Boston, a Shutter Island. Ocorre que, o que poderia resultar num suspense convencional, se torna algo bem mais interessante graças à genialidade de Scorsese, artista que domina como poucos as técnicas cinematográficas e conhece profundamente a história do cinema. Temos então um thriller psicológico em que a veracidade das imagens é sempre dúbia, em que realidade e sonho se confundem, e onde as identidades são sempre imprecisas, mutáveis.

Todo o elenco está muito bem. Destaque para as atuações de Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Max von Sydow e Jackie Earle Haley.
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Como Treinar o Seu Dragão – Um garoto desengonçado chamado Soluço vive numa vila de vikings. Seu pai é um grande guerreio e líder da comunidade. A maior ameaça à prosperidade da vila são os dragões, que vivem realizando ataques surpresas que se desdobram em grandes batalhas. A falta de talento para a guerra faz com que Soluço seja motivo de chacota entre os habitantes da vila, para decepção de seu pai. Isso só muda quando o garoto captura um “Fúria da Noite”, espécie de dragão mais temida pelos vikings, e aprende a como domá-lo.

Soluço passa a aplicar as técnicas aprendidas na convivência com o Fúria da Noite Banguela nos treinamentos nas aulas de combate a dragões da escola viking. Isso faz com que ele conquiste o respeito da comunidade e seja visto como um futuro grande guerreiro. O maior desafio de Soluço será convencer a todos de que os dragões não são seres malignos, e que a convivência entre eles e os humanos pode ser pacífica.

É esse o entrecho da última e bem-sucedida animação da Dremworks. Com esse argumento inspirado no livro homônimo de Cressida Crowell, os diretores Chris Sanders e Dean Deblois criaram um filme terno, engraçado, e com ótimas cenas de aventura. É mais um acerto dos produtores da Dremworks, que a cada filme tenta superar - ou ao menos igualar – a excelência criativa da Pixar, sua maior rival.

domingo, 28 de março de 2010

Olhos Castrados

Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o grito do galo ou ao ouvirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os “prazeres da carne”, na condição de que sejam insossos.

(Trecho de História do Olho, de Georges Bataille.)

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Sonho nº 12

Como de hábito, eu tinha passado as dezoito horas em que me mantivera acordado em constante conflito comigo mesmo. Naquela noite, o sono me engolfou por volta das quinze para as duas, depois de eu ter ficado meia hora pensando em como fazia tão pouco tempo que eu não adormecia sem antes me persignar e agradecer a Deus pelo meu bem-estar e o de meus familiares. Aos quatorze anos, eu era um menino temente a Deus, que sofria de insônia, e só se apaixonava por “garotas problemáticas”. Hoje não bendigo nem maldigo Deus nem o diabo, alterno noites de insônia crônica com períodos de folgada hibernação, e procuro sempre renovar meu amor pela mesma mulher: aquela que criei para mim mesmo tão-logo me vi envolvido pelas coisas do amor e do sexo (e da morte, claro!) há mais ou menos vinte anos.

Foi com essa mulher que sonhei aquela noite. Era então apenas uma amiga que tinha pudor em chorar apoiada em meus ombros. Eu era seu confessor mais fiel. E o mais que ela sabia sobre mim era que eu disfarçava minha solidão – mal e porcamente, ressalte-se – enviando mensagens de esperança e de adeus em garrafas de cerveja para ninguém. No sonho eu me negava a admitir que estava irremediavelmente apaixonado por ela. Para não correr o risco de ser desnudado pela força arrebatadora do seu olhar, eu tentava me manter o mais distante possível do seu campo de visão. Às vezes baixava a guarda e era surpreendido por uma investida sua que, por mais que eu relutasse em aceitar, acabava por extrair de mim revelações que só viriam à tona em sonhos ou em pesadelos febricitantes. Nossos momentos de maior intimidade se davam quando ela chorava e dizia desconhecer o cerne de sua dor. E o mais próximos que chegávamos da lubricidade era quando nos entregávamos desvairadamente à nossa idiotia galhofeira que nos provia de imensos e prazerosos risos.

Certo dia ela desapareceu resguardada pela neblina do sonho. E, para minha surpresa, seus amigos mais próximos me atiraram pedras. Diziam que eu só podia ser cego para não perceber que ela se afastara porque sentia que eu nunca corresponderia a seus anseios de mulher apaixonada. Fiquei furioso. Arranquei meu coração à unha e o guardei dentro de uma gaveta. Ela nunca mais voltou. E eu simplesmente acordei.

sábado, 20 de março de 2010

Aparições

"Desde sempre, dormíamos cada irmão em seu quarto. Cumpri o dever de ser homem e deitei-me sozinho (...) Mas no outro dia, assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava."


(Trecho do romance Aparição, do português Vergílio Ferreira)

***

Sonho nº 3

Ontem sonhei com Isabela Rosselini e perdi a hora para o trabalho. Encontrei-a numa festa de amigos comuns e pus-me a falar de minha admiração por ela desbragadamente. Era uma reunião íntima num apartamento modesto porém aconchegante, e - absurdo dos absurdos - os anfitriões eram seres sem rosto. Isabela foi gentil e atenciosa, mas parecia não compreender muito bem meu inglês middle brown. Descrevi o quanto seu trabalho me afetara em filmes como Veludo Azul e Amantes, por exemplo, enquanto bebíamos uma garrafa de vinho branco. Tamanho era meu entusiasmo ao falar de como suas performances em determinadas cenas eram de uma beleza quase etérea que me levava às lágrimas (ref. A cena da despedida com Joaquim Phoenix, na escada do prédio, em Amantes), que a certa altura Isabela pareceu descrer de minha sinceridade. Mas não havia a menor mossa de cinismo em minha postura, tudo o que eu desejava era dizer à Isabela o quanto eu a amo; o quanto admiro sua beleza clássica e seu domínio dos silêncios em cena. Eu bem que tentei transmitir isso a ela e acho que não me saí muito bem porque, sempre cortês e sensual, ela sorria e dizia oh, thank you! Kind of you, dear! Até que seu marido apareceu para apanhá-la. Assim que o vi pensei: esse sujeito não me é estranho, apesar de seu rosto estar oculto por uma esfera branca e lisa, tal qual os dos donos do apartamento. E mal o casal se despediu, eu acordei com o berro do meu celular. Era meu patrão, que, furioso, me chamava à responsabilidade.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Diário de um chimpanzé VII

“O tempo que me resta, se preenchido por ansiedade, não me é suficiente”.

Tony Monti / eXato acidente


A qualquer momento ele sabe que pode ser acometido de uma súbita sensação de angústia que num átimo diluirá tudo aquilo que ele reconhece como realidade e o lançará num completo estado de anomia. Pode acontecer enquanto estiver se preparando para dormir, ou enquanto estiver voltando do trabalho; pode ser que ele esteja só, como também pode ser que tenha de se esforçar para não deixar transparecer toda essa angústia caso ocorra de ela eclodir quando estiver acompanhado.

Ele sabe que a tristeza é uma forma de egoísmo e se ressente disse toda vez que imerge numa dessas bad trips caretas. Às vezes tudo começa com um formigamento que nasce na região do abdômen e vai migrando aos poucos até alcançar os ombros, descer pelas suas costas e se alojar entre as omoplatas. E enquanto essa espécie de metástase se dá, ele tem de se conter para não arrancar os próprios olhos ou se cortar de algum modo com o fio lacerante das questões sem respostas que o golpeiam e do sentimento de inutilidade que abafa qualquer possibilidade de esperança.

Para afastar de si todo esse abstracionismo deletério, ele tenta se concentrar nas pequenas tarefas do dia-a-dia. Levanta cedo e vai trabalhar. Cumprimenta os conhecidos na rua. Cede seu lugar aos mais velhos no ônibus. Trabalha com satisfação e afinco, embora acredite que sua dedicação não seja devidamente reconhecida. (Preferia não fazê-lo?) Acompanha com interesse e benevolência tudo o que ocorre a seu redor, toda a faina cotidiana. Participa dela. Sente-se tocado pelo “prazer animal de existir”, mas está muito longe de se tornar o homem simples que um dia pretende ser.

***

Enquanto se apronta para trabalhar numa manhã fria e silenciosa de segunda-feira, ele fica sabendo do desaparecimento de um avião de passageiros que saíra do Rio de Janeiro com destino a Paris. Havia mais de duzentas pessoas a bordo: homens, mulheres e crianças. Logo o mistério é desfeito e todos são informados de que o avião caiu durante a travessia do Atlântico, num “ponto cego” onde não existe cobertura de radares aéreos. Desastres de avião sempre o abalaram, e com esse não é diferente. Pensa na desdita dos passageiros, no seu desespero; o sofrimento dos parentes das vítimas o comove sobremaneira. Logo a ele, sujeito tão telúrico, que nunca andou de avião. Talvez porque ele não acredite em vida após a morte. Talvez porque ele acredite que para as mais de duzentas pessoas mortas no acidente tudo tenha terminado daquela maneira brutal, no fundo do oceano Atlântico, sem que nenhuma entidade superior, nenhum deus se apiedasse deles.

***

Em casa todos demonstram seu orgulho pelos pequenos progressos que ele anda fazendo. O fato de ter passado a integrar a “população economicamente ativa” contribui para a diminuição dos embates com os pais. Agora não é mais um diplomado sem emprego ou um patético aspirante a escritor, e sim apenas um assalariado comum, o que os enche de orgulho.

Mas passa muito longe de ser um filho exemplar. (Mesmo porque, ele pensa, filhos exemplares precisam de pais exemplares). Está longe de ser um sujeito “bem resolvido”: há muitos problemas concretos que o atormentam. Problemas familiares, sentimentais, existências. Conhece bem a si próprio, sabe das suas muitas limitações. E existem momentos em que essa autoconsciência se torna um fardo tão pesado que ele até sente dificuldades em se encarar no espelho.

Ele classifica toda essa angústia de ansiedade e imagina que isso irá matá-lo em breve. Por enquanto ainda não encontrou antídoto eficaz. Apesar de ter deixado de ser um garoto há um bom tempo, ele ainda não sabe viver. Quer, como qualquer ser humano, o melhor da vida, a serenidade, o gozo, o sumo. Mas sente muita culpa, não sabe respirar direito. Sente muita dor, e, como repudia o menor laivo de autocomiseração (esse câncer!), ainda pretende rir disso tudo.


***

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

*Post de outros carnavais

Findos os quatro dias de folia, voltamos à nossa rotina de chimpanzés.

É hora de fazer um balanço da festa: contar os mortos nas estradas, os mortos a tiro, os bêbados mortos, os amores mortos... Triste contabilidade, enfim. Mas sem novidades no front.

Os puxadores de samba (Jamelão odiava que o chamassem assim; dizia que era cantor e ponto), os mestres-salas, as porta-bandeiras, os mestres de bateria, os carnavalescos cairão no ostracismo durante doze meses, após o quê emergirão do anonimato para serem novamente celebrados por todos nós. As rainhas de bateria profissionais (Luma de Oliveira, Luiza Brunet, Adriana Bombom, Viviane Araújo etc.) nos privarão de seu charme e gostosura durante todo esse tempo. Os orixás também voltarão à clandestinidade, como os camelôs e as putas. Nossa sociedade predominantemente católica só os tolera durante o carnaval, quando então podem ser enredo de escola de samba, ir atrás dos trios elétricos (se tiveram 600, 800 reais para comprar um abadá, claro), se vestir de mulher e brincar num bloco qualquer, whatever. Podem até aparecer na televisão - o que, em última análise, os legitima.

***
Luiz Zanin, crítico de cinema do Estadão, em post recente em seu blog, lembrou que A Lira do Delírio é, provavelmente, o melhor filme brasileiro cuja trama se passa durante o Carnaval. Concordo. Walter Lima Jr. fez um desses filmes que nos encantam pela maneira "despretensiosa" como foram filmados. Tudo parece muito natural: os atores flanam pelos cenários, inebriados, eufóricos, apaixonados. Nada é estilizado. Não é cinema-favela, nem cinema-agreste. É CINEMA e fim de papo.

Convém ressaltar que esse tipo de cinema (naturalista, marcado pela improvisação) não é o único que me interessa. Nem tampouco estou aqui para fazer a defesa irrestrita do cinema nacional. Ocorre que A Lira do Delírio é um projeto nessa linha de dramaturgia calcada na parceria ator-diretor - em que o roteiro é criado conjuntamente, com o mínimo de premeditação - que deu certo. Não por acaso o filme se tornou um clássico.

E mais não digo. Porque já estou ficando pernóstico.(Graciliano Ramos gostava desse adjetivo: pernóstico; seus livros estão cheios dele. Foi assim que aprendi a gostar também.)

*Publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2009.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Confissões de ano velho II

“Quanto mais claramente enxergamos este mundo, mais nos vemos obrigados a fingir que ele não existe”.
James Salter / Um Esporte e Um Passatempo

Em abril do ano passado eu me encontrava com a alma pesada. Acho que, na realidade, era meu corpo que estava inchado pelo excesso de ócio e por uma espécie de abstracionismo auto-indulgente. Em casa ou na rua, eu boiava ou flutuava ao invés de caminhar. Era paradoxal: como um corpo inchado e adiposo podia flanar por aí qual um ectoplasma? Não me ocorriam respostas nem soluções. Minha língua e meu humor afiados eram defesas cínicas de alguém desacreditado, alguém comprometido apenas com a própria miséria, que se fiava em pequenas esperanças, cartas e amigos antigos, e frases e gestos de efeito.

Lado a lado na parede do meu quarto, dois diplomas – o de conclusão do ensino superior, e o de participação e destaque num concurso literário de âmbito nacional – que não me serviam para nada. Apesar do esforço sincero que fazia para manter a cabeça erguida enquanto buscava conquistar espaço e ocupação (concursos públicos, mais concursos literários, entrevistas e entrevistas de emprego) num mundo decadente em que suas loas de progresso eram seus próprios estertores, eu sempre falhava; já começava a batalha previamente derrotado.

Mas então chegou o mês de maio e eu recebi um telefonema de um velho amigo ali pelas sete da noite. Ele me perguntou o que eu estava fazendo e eu disse nada de produtivo ou saudável - e isso bastou. Em menos de uma semana eu tinha um emprego, responsabilidades, direitos e deveres, enfim, uma ocupação para viver e morrer disso. De segunda a sexta feira, das nove às dezoito horas. Dar as mãos aos homens comuns e participar dessa ciranda.

Algum tempo de adequação à rotina (radicalmente?) alterada e às exigências do trabalho. Faça frio ou calor, sob sol ou chuva, é preciso acordar por volta das sete e meia, fazer a higiene matinal, trajar esporte-fino, colocar marmita / guarda-chuva / livro dentro da mochila, e tomar o ônibus para o centro da cidade. Quando batem as nove horas, é tempo de entregar-se à faina do escritório. Por sorte os companheiros de trabalho são pessoas muito boas; o dia-a-dia pode até ser estressante e ocasionar dissabores, mas nunca por conta deles.

Minha alma – esse apêndice metafísico onde se depositam todas as minhas angústias – continua pesada, mas agora não flutuo nem bóio por aí como uma sacola plástica. Tenho andado por entre a gente com os pés descalços e os bolsos (quase) vazios. Eventualmente queimo os pés no asfalto em brasa e procuro manter a cabeça erguida.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Confissões de ano velho I

No início de 2009, eu era um ser errante, algo patético, sem ocupação nem perspectiva. Enquanto aguardava a possível confirmação do pouco de talento que havia algum tempo acreditava ter, resolvi criar este blog para me distrair. Em março essa confirmação veio na forma de um reconhecimento por parte do júri do maior prêmio literário para autores estreantes do país. Embora meu livro não tenha sido o vencedor da categoria romance, a menção honrosa que lhe foi concedida insuflou algum ânimo em meu espírito e me incentivou a continuar escrevendo. Não que agora eu tenha plena certeza de que nasci para ser escritor; não se trata disso. Aliás, nunca fui possuidor desse tipo de convicção. Nunca me julguei predestinado a nada.

No entanto, eu continuei minha busca por ocupação. Vagava por Guaratinguetá e por cidades vizinhas à procura de emprego, preenchendo fichas, respondendo a perguntas de recrutadores psicólogos e psicólogos recrutadores; de baldeação em baldeação, com dinheiro contado, uma pastinha de plástico transparente ridícula debaixo do braço, distribuindo currículos e pequenas inverdades convenientes.

Às vezes enveredava por descaminhos francamente aterradores. Aceitava apadrinhamento de gente mau-caráter e fingia crer em doutrinas e métodos que sempre havia julgado ilegítimos. Numa dessas manhãs desesperançosas e aflitas, acabei indo parar num templo religioso do magnata ungido R.R. Soares, levado por um fotógrafo calhorda amigo do meu pai. Waldemar era um troglodita pio e desonesto, alguém com quem somente o biltre do meu pai poderia manter laços de amizade.

Na ocasião, assustado e vexado debaixo daquela cúpula azul celeste, ouvi a palavra do Senhor através da boca de um pastor com sotaque carioca que tinha pinta de pagodeiro. Enquanto o pastor Edmilson se preparava para derramar suas bênçãos sobre mim, Waldemar lhe fornecia informações a meu respeito e a respeito de minha família: o garoto está com um encosto tremendo e a família é assombrada por demônios: o pai é um bêbado, a mãe uma dona-de-casa infeliz, e a avó uma anciã enferma. Então o pastor pediu para que eu fechasse os olhos, erguesse os braços na direção do céu, e deixasse o Espírito Santo agir. E foi assim que este blogueiro ímpio acabou “curado” em nome de Jesus, do pastor Edmilson, de R.R. Soares, e do Waldemar, o fotógrafo.

domingo, 29 de novembro de 2009

Verdades literárias

Todos desejamos resgatar por intermédio da memória cada fragmento de vida que subitamente nos volta, por mais indigno, por mais doloroso que seja. E a única maneira de fazê-lo é fixá-lo com a escrita.

A literatura, por mais que nos apaixone negá-la, permite resgatar do esquecimento tudo isso sobre o que o olhar contemporâneo, cada dia mais imoral, pretende deslizar com a mais absoluta indiferença.

Enrique Vila-Matas / Bartleby e companhia


Alguns fatos só se tornam verdadeiramente críveis quando colocados no papel. Certas experiências só adquirem sua real dimensão quando consubstanciadas em literatura. O mero relato oral ou o discurso jornalístico nem sempre se prestam à melhor exposição de determinados acontecimentos. Às vezes, apenas uma forma alternativa de narrar, que nem sempre é a mais clara ou a mais razoável, consegue transmitir sensações e idéias dos mais variados matizes.

Quando iniciei meu roman à clef Paroxetina, não tinha idéia do estilo de narrativa que desejava criar. Só sabia que precisava compartilhar certos aspectos da minha vida que - devido a uma série de fatores, mas principalmente pelo fato de eu ser uma pessoa muita reservada (leia-se extremamente tímida) - sempre foram circunscritos ao conhecimento de poucos. E o que eu pretendia com isso? A bem dizer, o motivo ainda não me é claro até hoje, um ano após a conclusão do livro, porém tenho certeza de que ele está muito mais relacionado à busca por autocompreensão e à necessidade de * “compartilhar minha solidão, torná-la meio de conhecimento”, do que a alguma compulsão autodepreciativa ou à urgência de clamar por ajuda.

O estilo por assim dizer “tragicômico” só foi definitivamente adotado quando a narrativa já se encontrava pelo meio, o que me obrigou a reescrever boa parte da história. Esse tom foi escolhido no intuito de mitigar um pouco a natureza extremamente dramática / pesada dos temas tratados (alcoolismo, violência doméstica, síndrome do pânico, esquizofrenia, bissexualismo; a velhice, a solidão; o “fim da inocência”; o fim do mundo...). Se tivesse optado por um tom mais seco, solene, ou jornalístico, talvez a leitura do livro se tornasse insuportável. Não que este tipo de narrativa não renda boa literatura, pelo contrário. (E J. M. Coeetze é o nome que me vem com mais força à memória como exemplo de grande escritor sisudo.) O importante é que o estilo adotado seja coerente com o teor da narrativa.

Um livro que acabo de ler e que está cheio de “coerência narrativa” é Fun Home – Uma Tragicomédia em Família, romance gráfico da americana Alison Bechdel, que descreve o conturbado relacionamento da autora com o pai, e os prazeres e dissabores de se crescer num lar disfuncional.

Fun Home é a primeira graphic novel que leio, uma agradabilíssima surpresa. Impossível não se emocionar com o texto e os traços criados por Bechdel, alguém que soube se utilizar brilhantemente de duas linguagens complementares para contar uma história tão íntima, delicada, triste, e divertida. Ou seja, uma história universal.

Aqui, uma análise de Fun Home por Michel Laub.

* Isso é Drummond.

sábado, 24 de outubro de 2009

Meninos Incompreendidos

Antoine Doinel e Jason Taylor são dois garotos de 13 anos do século XX. O primeiro vive na França da década de 50, e o segundo na Inglaterra dos anos 80. Ambos são saudáveis, inteligentes, e vivem em família. A família de Antoine é pobre e negligente para com ele; já a de Jason é de classe média, e o prove de conforto material e afeto. Por viverem na Europa, continente em que a maioria dos países preza pela educação, os dois adolescentes freqüentam boas escolas públicas - e passam por dificuldades diferentes também. Os problemas que Jason enfrenta na sua rotina escolar são, em sua maioria, decorrentes dos conflitos com colegas mais fortes e imbecis que ele. Antoine Doinel, ao contrário de Jason, não é impopular nem tampouco vítima de perseguição dos colegas; seu nome está associado a um tipo de liderança negativa, e não ao de um grupo de crianças bem comportadas e introvertidas que sofrem nas mãos dos colegas sádicos.

Antoine Doinel é o protagonista de Os Incompreendidos (1959), filme de estréia de François Truffaut e marco da Nouvelle Vague. Monumento de simplicidade e beleza, este longa-metragem narra as aventuras e os dissabores vividos por esse alter-ego de Truffaut na Paris do pós-guerra. Movido por um misto de curiosidade e revolta, Doinel confronta a autoridade dos pais e dos professores, e se encaminha para uma vida anárquica e precoce. Filho adotivo, o garoto interpretado por Jean Pierre Léaud vive numa casa humilde onde dorme num catre no quartinho dos fundos. A mãe, uma mulher jovem e bonita, nos é apresentada numa bela seqüência em que chega do trabalho, põe-se a despir as meias-calça e a reclamar os chinelos que não encontra. De início percebemos seu desprezo pelo filho. Ele é cobrado e criticado o tempo todo, não recebe nenhuma manifestação de carinho ou apoio, e muitas vezes é tratado como um simples empregado doméstico. Os olhos de Antoine / Jean Pierre ora lembram os de um cão vadio, ora expressam agressividade e ressentimento. Quando miram o pai, no entanto, os olhos do menino ganham alguma vivacidade. Há um clima de camaradagem entre os dois, que só é desfeito quando Antoine comete suas traquinagens e pequenos delitos, ou quando resolve se insurgir contra as arbitrariedades dos próprios pais e da sociedade em geral.

Jason Taylor é o narrador-protagonista de Menino de Lugar Nenhum, romance de formação do escritor britânico David Mitchell, lançado o ano passado no Brasil pela editora Cia das Letras. Ele vive numa cidadezinha do interior da Inglaterra chamada Black Swan Green, título original do livro. Amado e protegido pela família, Taylor não encontra a mesma acolhida de que dispõe em casa na escola. Vítima de gagueira, é alvo constante de chacota dos outros garotos, que o apelidam de Verme. Para minimizar o problema da gagueira, chamada por ele de Carrasco, Jason recorre a uma fonoaudióloga. Além de se interessar por atividades caras à maioria dos garotos de sua idade, Jason dedica-se (secretamente) à poesia. Reconhece, em dado momento da narrativa, que se os colegas descobrissem esse seu hobby sua vida social estaria comprometida de vez. Por isso envia poemas para concursos e revistas locais sob o pseudônimo de Eliot Bolívar. “Quando você mostra pra alguém uma coisa que escreveu, está oferecendo uma estaca pontiaguda, deitando no caixão e dizendo ‘Quando você quiser’”, diz na ocasião em que encontra Madame Crommelynck, senhora culta e experiente que faz críticas construtivas à sua obra.

As narrativas de Truffaut e Mitchell têm pontos em comum, como a fluência e o lirismo. Não há espaço para a pieguice nem para a divagação gratuita. Mas o humor está presente em ambas, principalmente como antídoto a um possível laivo de (auto)comiseração que poderia arruinar os relatos de cunho autobiográfico. Os personagens também não são caricatos nem agem segundo uma disposição maniqueísta. Por mais cruéis que os pais de Antoine Doinel possam ser, eles são dotados de algum senso de justiça, e soam sinceros quando se põem a ministrar conselhos que julgam importantes para a formação do filho. Por vezes os personagens de Menino de Lugar Nenhum podem parecer estereotipados, mas isso não é um problema narrativo, e sim uma conseqüência do olhar imaturo e parcial do protagonista-narrador. Seus algozes, por exemplo, são naturalmente descritos como bestas-feras despidas de bons sentimentos. Os pais, apesar de cuidar para que nada lhe falte, vivem às turras, o que é motivo de descontentamento para Jason.

Dois adolescentes de natureza diversa vivendo no mesmo século em décadas diferentes. Jason Taylor e Antoine Doinel. O primeiro tenta se livrar do assédio dos colegas de escola e sofre com a separação dois pais. O segundo possui espírito livre e se esforça para adaptar-se à vida em sociedade, a qual julga castradora e injusta.

François Truffaut e David Mitchell. Um cineasta e um romancista de origens e épocas diferentes. Dois grandes artistas. Duas grandes obras.

sábado, 1 de agosto de 2009

Diário de um chimpanzé (VI)

Rotina

Nos últimos dias ele tem alternado sentimentos de resignação e esperança. Quase nunca é agredido pela falta de sentido que sempre o acompanhou. Ainda não é a sensação de conforto absoluto que um dia pretende trazer consigo, a sensação de que viver é natural, e que portanto deve encarar seu destino humano como um chimpanzé ou um lagarto encaram o seu. Depois que experimentou o pânico, nunca mais conseguiu viver com total naturalidade; o tempo todo tem de se esforçar para convencer a si próprio de que estar vivo é natural e devemos tocar nossas vidas de acordo com o que nos constitui.

Tem saído para procurar emprego como de hábito. Na maioria das vezes fica sabendo de oportunidades por meio de amigos e conhecidos. Às vezes consegue uma ou outra entrevista; às vezes essas entrevistas se desdobram em segundas entrevistas ou em testes diversos, os quais ele encara estoicamente, sempre cuidando para transmitir uma impressão melhor do que sua aparência e seu semblante melancólico acusam. Quer impressionar sem cair no ridículo, mas quase nunca consegue. Diz pequenas mentiras e acredita que nunca vai ser desmascarado em razão da inocuidade desse ato. Mais do que mentiras, ele comete omissões. É um sonegador. Se fosse bom nisso, até que sentiria algum orgulho, mas passa muito longe da competência nesse quesito.

Gosta de acordar cedo – talvez pela ausência de obrigatoriedade. Se tivesse de se levantar cedo todos os dias, talvez passasse a não gostar. Gosta de tomar café na rua, e o faria sempre se dispusesse de recursos para tanto. Quando não sai à procura de emprego, vai à biblioteca municipal da cidade vizinha, Lorena. Descobriu o lugar por acaso, numa incursão à cidade, durante a qual deixou alguns currículos na agência de empregos do estado local e, na viagem de ônibus, conheceu uma delegada de polícia de meia-idade que lhe desejou boa-sorte. A biblioteca municipal de Lorena possui um acervo variado que lhe apetece. Além do mais, dispõe de assinaturas de jornais e revistas que ele gosta de ler com alguma periodicidade. Os funcionários o tratam com bonomia; permitem que ele empreste três livros por vez, e nunca o punem – sequer o repreendem – quando devolve os livros fora do prazo. A única ressalva que faz à biblioteca diz respeito à limpeza do local. Os banheiros são imundos. Não dispõem de papel higiênico nem de sabão para a higiene das mãos. A bem da verdade, a culpa pela imundície dos banheiros é dos usuários da biblioteca, que decerto reproduzem no ambiente coletivo o que fazem em casa. Caso essa suposição esteja correta, os azulejos do banheiro dessa gente devem estar sarapintados de bosta humana.

Cães vadios circulam livremente pelo prédio. Duas devotas de são Francisco de Assis - a mulher de cabelos tingidos de ruivo que trabalha no guarda-volumes, e a magrinha de olhos fundos que cuida do acervo restrito ao público – dão liberdade para que os cachorros se sintam à vontade no local, podendo se abrigar debaixo de qualquer mesa ou cadeira sem ser incomodados por ninguém, como se fossem vacas ou macacos sagrados indianos. E ele teme pelo dia em que atolará o pé num amontoado de merda canina ao adentrar o prédio, ao caminhar por entre as estantes de livros disponíveis para empréstimo, ou ao se dirigir ao cantinho debaixo da rampa de acesso à sala de informática para cadeirantes, onde jaz o bebedouro enferrujado.

Desfila suas dúvidas e sua insegurança pelos corredores das estantes. Abre livros empoeirados, lê alguns parágrafos, sente a aspereza do papel velho ao folhear. Agacha-se a fim de apanhar um volume na prateleira mais baixa. Permanece alguns minutos assim, de cócoras, namorando o romance, o volume de memórias, de conto, de poesia... Enrubesce quando se descobre observado: ainda é imaturo demais para ignorar o julgamento alheio. Quando se põe de pé novamente, sente uma dor aguda no joelho esquerdo, doente desde a manhã em que caiu no meio de uma partida de futebol na quadra da escola e nunca mais se levantou. Continua lá, estirado na intermediária, sob os olhares preocupados e zombeteiros dos colegas; sob o sol forte de uma bela manhã de verão.


(Continua.)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Luto em Neverland

A morte de Michael Jackson repercute de modo impressionante pelo mundo todo. O choque provocado pela abrupta partida do cantor levou as pessoas a relembrarem o grande talento que encantou gerações e estabeleceu definitivamente o conceito de pop star. De repente, a convicção que os fãs de Michael nunca abandonaram foi partilhada por admiradores comuns de todas as partes do globo. Todos apontam uma qualidade marcante do rei do pop, um hit inesquecível, um videoclipe. E, como carreiras de grandes astros da música e do cinema costumam ser marcadas por polêmicas e escândalos, o lado ruim da trajetória de Michael Jackson - quiçá o maior ícone individual da história do show business -, também está sendo rememorado.

Meses atrás, ao rever alguns clipes do cantor na tevê, eu e meu irmão nos entreolhamos e concordamos: ele era o maior. Tinha uma voz especial, inconfundível. Dançava maravilhosamente bem, sem deixar transparecer qualquer esforço. Parecia mesmo flutuar no palco. Acerca dessa sua habilidade admirável, o crítico de cinema Inácio Araújo escreveu em seu blog:

Michael dançando era um corpo que desorganizava o mundo ao seu redor, reduzindo nossos corpos, os corpos de todos os outros, a coisas mal-ajambradas. E depois reorganizava-o pelo simples efeito de sua elegância, da impressionante agilidade dos gestos.

A busca pela juventude eterna levou Michael Jackson a transformar seu corpo de tal modo, que o Michael de meia-idade, de pele alabastrina e rosto disforme, em nada lembrava o Michael mulato e de traços simétricos e suaves do início da carreira. As ilações a respeito dos motivos dessa transformação física brutal do cantor são muitas, mas as certezas são poucas. Assim como as acusações de pedofilia que recaíram sobre ele nunca foram confirmadas, apesar de seu comportamento muitas vezes ter fomentado esse tipo de denúncia.

De menino prodígio a rei do pop. Cinqüenta anos de vida e quarenta e cinco de carreira. Há anos Michael Jackson não se apresentava nem gravava discos. Apenas as polêmicas e as excentricidades do cantor eram veiculadas na mídia nos últimos tempos. Seu retorno triunfal estava marcado para o mês que vem: uma turnê de 50 shows no Reino Unido. Um desafio enorme para alguém com a saúde tão debilitada. Talvez nem o próprio Michael acreditasse na sua capacidade de cumprir esses compromissos.

Talvez sua morte restabeleça a dignidade perdida pelos maus passos dados. Porque a convicção de que Michael foi um grande artista ela já trouxe de volta.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Correspondência

No dia 18 de Junho de 2009, meu amigo F. escreveu:

Bruno,

Como vai de emprego novo? Você deu uma sumida, ou será que fui eu? Ainda não tive tempo de imprimir o seu livro para ler. Gosto de papel. Mas quero ler tão logo eu consiga respirar um pouco.

Aliás, eu terminei o meu livro (uma pequena coletânea de contos) e gostaria que você lesse. O que acha?

Abraços,

F.

Cerca de quatro horas depois, eu respondi:


Caro F.,

não foi você quem sumiu, fui eu. E o motivo tem a ver com o fato de eu ainda estar me adaptando à nova rotina, que inclui menos horas de sono diárias, menos tempo para leitura (e para a escrita, por conseguinte), para cinema, internet, tevê, passeio, namoro, para pensar na morte do bezerro - em vez de pensar na nossa; e mais responsabilidade, compromisso, enfim, uma legítima "vida adulta."

Até publiquei um postezinho - como diria João Ubaldo Ribeiro, cujo "Sorriso do Lagarto" estou lendo - sobre esse assunto lá no meu blog / burgo.

Ando meio broxa pra literatura, digo, pra criação literária. Nunca pensei que fosse sentir uma espécie de saudade do período em que trabalhei no... romance, vá lá. Naquela época, embora o estigma do desemprego me vexasse e privasse de muitas coisas, eu sentia, agora percebo, um prazer enorme em dedicar algumas horas por dia a um ofício inútil, contraproducente, e tributário da loucura. Num dado momento, fui acometido de um estranho, porém agradável, sentido de dever, como se concluir o livro fosse a missão que justificasse minha existência.

Admito que esse negócio de predestinação é piegas e cafona como o quê. Mas eu fui de fato tomado por esse sentimento quase místico, que, a bem da verdade, não se traduziu em grande literatura - e sim, no máximo, num texto razoavelmente bem estruturado e irregular.

(O emissor da crítica acima é o autor do livro. Portanto, favor desconsiderá-la.)

Contudo, quero deixar claro ao amigo que não estou me queixando - longe de mim. Como cantou o grande poeta e filósofo Zeca Pagodinha, para mim a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia.

A vida, confessou-me um garçom certa noite num boteco fantasma, tem de ser cortada em cubos e servida à milanesa para consumo próprio e geral.

Abraços bêbados,

Bruno.

Ps - Será um prazer (e uma honra) ler sua coletânea de contos. Pode mandar!

E então a vida seguiu seu curso natural, tangida pela irretroatividade do tempo.

***

Espero que F. não fique chateado por eu ter publicado parte de nossa correspondência on-line aqui, pois o fiz com a melhor das intenções.

Como prova do respeito que devoto à nossa amizade, deixo o vídeo com essa magnífica interpretação de Chopin:

domingo, 14 de junho de 2009

Um poema e uma canção. Ou A preguiça do blogueiro

Incapaz de administrar seu tempo de maneira produtiva, o blogueiro apenas lamenta – e admira. Por vezes, inverte a ordem, então admira (a capacidade alheia de gerenciar o tempo) e lamenta (sua falta de talento para criar, construir, fazer acontecer, nas horas em que não está tentando garantir seu sustento ou descansando).

***
Um poema de Roberto Piva que vive na minha cabeça:

O SÉCULO XXI ME DARÁ RAZÃO
(se tudo não explodir antes)

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro-velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gângsters, seus gângsters ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, seus anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seus jardinzinhos com vidro fumê, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheios de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas com desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, , sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.
***
Um filme visto no fim de semana: Árido Movie, do pernambucano Lírio Ferreira. Belo. Divertido. Irregular. Penso que Bianca iria gostar desse filme. Acho que iria apreciar principalmente a trilha sonora. Da qual "extraí" o samba-canção Naquela mesa, clássico de Sérgio Bittencourt cantado por Otto, ao final do filme, e por Nelson Gonçalves, na versão abaixo:

sábado, 6 de junho de 2009

Eu ando pelo mundo prestando atenção em tudo... (2)

Semana passada meu chefe me perguntou do que eu menos gostava na vida. Estávamos sozinhos no escritório, ali por volta de meio-dia e meia, e de repente ele parou o que estava fazendo no computador, contornou sua baia e veio na minha direção. Com o mesmo ar enigmático de quem está perto de solucionar um grande mistério, ele me encarou: De que você realmente não gosta? O que mais o aborrece? Surpreendido por aquela pergunta fora de hora e de contexto, refleti durante cerca de vinte segundos antes de responder que o que mais me desagradava era a ignorância. A ignorância das pessoas. Mas essa é uma resposta muito vaga, ele objetou. Durante sua entrevista de emprego você me disse que o que mais o chateava era ter de varrer a casa, ajuntou. Sim, mas na ocasião você indagou qual a tarefa doméstica de que eu menos gostava, justifiquei. Então ele pôs-se em marcha mais uma vez, as mãos ocultas nos bolsos da calça verde-escura e exemplarmente vincada, e só depois de desarmar a expressão insondável que o caracteriza sempre antes de uma abordagem, voltou à carga: Eu não gosto de almoçar sozinho, entende? Isso sim é uma resposta objetiva, direta. Eu não sabia aonde ele queria chegar. Mas insisti na questão da ignorância. Que não suportava pessoas que além de não saber se negam a tomar conhecimento de qualquer coisa. Que tinha ojeriza a intolerâncias de quaisquer espécies. E que perto disso varrer o chão de casa chegava até a figurar como uma tarefa agradável. Entendi. Agora entendi, ele disse por fim, retornando à sua baia e retomando o trabalho no computador que abandonara minutos antes, quando fora acometido por aquela súbita e estranha curiosidade.
***
Após esse episódio, lembrei de uma canção de Adriana Calcanhoto, a qual gostaria de compartilhar com vocês e com meu distinto patrão:

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu ando pelo mundo prestando atenção em tudo... (1)

O governo do Estado de S. Paulo baniu os pobres (?) dos fumantes dos estabelecimentos públicos. A próxima providência deveria ser expulsar os espalhafatosos. 13:40 - apenas um terço das mesas do restaurante estão ocupadas. Meia dúzia de gatos pingados retardatários almoça rápida e silenciosamente; só se ouve o barulho de mastigação, de talheres que se chocam, e dos funcionários do estabelecimento. Vez ou outra a campainha do painel de senhas apita e todos (mesmo os que não aguardam pedidos) olham invariavelmente para o visor e acompanham a sucessão dos números: 21, 22, 23... 30, 31... Tudo na mais ordinária e reconfortante calma, até que uma voz altissonante e rouquenha abala a trama de placidez em que todos os comensais repousavam. Quase engasgo com um naco de carne vermelha. Mais que depressa me esforço por localizar a origem daquele grasnado, e após varrer brevemente o salão com minhas "retinas tão fatigadas", avisto a dona de tão incômoda voz. Uma loira alta e robusta, quase gorda, muito maquiada e vestida como uma boneca barbie. Seu discurso é mais potente que o de Heloísa Helena e o da ministra Dilma Rousseff, com a diferença de que não possui nenhum viés político; antes, está carregado de futilidade e, ainda pior, de intimidade. Em instantes todos os presentes tomam conhecimento de boa parte da vida pessoal e profissional da loira, com destaque para sua atribulada vida sexual. Que falta faz um "som ambiente" numa hora dessas, penso, uma vez que com o bom senso não se pode contar mesmo. A barbie grasna sem parar, expansiva, e sua vítima principal, a amiga com quem divide a mesa e uma porção de frango a passarinho, também parece um pouco constrangida diante de tamanha falta de compostura. Expõe indignações, resmunga em alto e bom som, confessa intimidades sem sequer ruborizar. Não contente com a pirotecnia verbal, ainda gesticula desbragadamente, à italiana. Deve ser surda, pondero sem qualquer ironia, mesmo não acreditando muito na hipótese. E seguimos almoçando sob a bufonaria da loira que, agora percebo, possui um belo par de seios, o que contudo não a redime. Termino minha refeição. Como de hábito, limpo a boca uma última vez antes de deixar a mesa. E, enquanto me encaminho para o caixa, sou surpreendido por um funk que eclode do nada e preenche em segundos todo o ambiente, causando risos e má digestão. O celular da loira começara a tocar.

sábado, 23 de maio de 2009

O Naufrágio da Ópera Flutuante

em memória de Mario Benedetti, homem bom que não conheci, mas cuja obra hei de descobrir

Atenção, senhoras e senhores! Quem fala é o seu timoneiro. Peço que me escutem atentamente pois o que tenho a informar é grave. A Ópera Flutuante está prestes a naufragar e não há botes para todos. Por favor, organizem-se em fila indiana – mulheres e crianças primeiro – e sigam as instruções da tripulação. A embarcação deverá soçobrar dentro de uma hora e meio mais ou menos, portanto ainda temos um bom tempo para acondicionar a todos (?) nos botes sem afobação.

Isso não aconteceu de fato, mas poderia ter acontecido. Por pouco A Ópera Flutuante - romance do americano John Barth com o qual eu vinha me digladiando havia duas semanas - não vai a pique. Nelson Rodrigues achava que não devíamos perder tempo tentando ler o maior número possível de livros. Para ele, só havia três ou quatro “livros totais”, aos quais devíamos nos ater durante toda nossa vida de leitor. Mas a realidade é que nos desgastamos com a leitura de romances “mais áridos que três desertos”, reféns de nossa insaciável curiosidade.

Agora que comecei a trabalhar, terei de diminuir meu ritmo de leitura, que já era lento, diga-se de passagem. Invejo essa gente que lê (ou afirma ler) uma grande quantidade de livros num curto período de tempo – sem contudo prejudicar sua vida social ou abrir mão de outras atividades como internet, cinema, esporte, caça ao tesouro etc. Como eu queria ser assim, multifuncional! Mas não dá. Se tento me dedicar a várias atividades simultaneamente, acabo entrando em parafusos. Espero conseguir ler dois, no máximo três livros por mês. Terei de ser mais seletivo, ir ao encontro dos “livros totais.” O que mais me preocupa é a escrita. Será que conseguirei produzir como antes? Se bem que já faz algum tempo que não crio nada que preste. Um conto aqui, um aforismo acolá. Ó Pai! Será o peso da menção honrosa?
***
Para encerrar, segue, em versão bilíngüe, um poema do peruano César Vallejo:

Intensidad y altura
Intensidade e Altura

Quiero escribir, pero me sale espuma,
Quero escrever, mas só me sai espuma,
quiero decir muchíssimo y me atollo;
quero dizer muitíssimo e me entulho;
no hay cifra hablada que no sea suma,
não há cifra falada sem ser suma
no hay pirámide escrita, sin cogollo.
nem pirâmide escrita, sem cogulho.

Quiero escribir, pero me siento puma;
Quero escrever, porém me sinto puma;
quiero laurearme, pero me encebollo.
quero a glória, e no entanto a mim me esbulho.
No hay toz hablada, que no llegue a bruma,
Não há tosse que nos fale sem ser bruma,
no hay dios ni hijo de dios, sin desarollo.
Não há deus nem seu filho, sem acúleo.

Vámonos, pues, por eso, a comer yerba,
Vamos, por isso, comer erva, sorva,
carne de llanto, fruta de gemido,
carne de pranto, fruta de gemido
nuestra alma melancólica en conserva.
a nossa alma em conserva sempre torva.

¡Vámonos! ¡Vámonos! Estoy herido;
Vamos agora porque estou ferido;
vámonos a beber lo ya bebido,
vamos beber o que já foi bebido,
vámonos, cuervo, a fecundar tu cuerva.
e vamos, corvo, fecundar a corva.

21/10/1937

(Tradução de Ivo Barroso)

domingo, 10 de maio de 2009

Dez anos depois

É comum em entrevistas de emprego o recrutador perguntar ao candidato como ele se imagina dali a dez anos. Tal pergunta tem o propósito de aferir o grau de objetividade do candidato, e como ele se posiciona diante da vida. Falar bobagem nessa etapa é dar adeus à chance de emprego. E como ter certeza de que sua resposta é original, e que, mais importante de tudo, irá agradar ao entrevistador? Difícil saber.

Minhas respostas sempre foram vagas, não raro insinceras. Mas não por desonestidade de minha parte, e sim porque nunca soube ao certo o que queria (quero) para mim no futuro. Em garoto eu vivia dizendo que gostaria de ser engenheiro, o que enchia meu pai de orgulho e esperança. Engenheiro, o filho teria emprego garantido e em poucos anos ganharia muito mais dinheiro do que ele ganhara a vida toda. Contudo eu sequer sabia no que consistia a profissão de engenheiro, tampouco que existem vários campos de atuação para esse profissional. Minha disposição de me tornar um engenheiro provia do meu desejo de ser rico - mais rico que meu pai, o que não era difícil -, e naquela época eu só conhecia três tipos de pessoas que ganhavam dinheiro: médicos, engenheiros, e artistas. Como sempre fui facilmente impressionável, nunca cheguei a aventar a possibilidade de me tornar médico. Já meu “lado artístico” nunca foi muito desenvolvido, apesar de eu ser dramático por natureza e viver imitando cantores populares e não tão populares assim longe de olhares críticos e / ou reprovadores. É verdade que houve uma época em que quis ser pintor, outra que quis ser roteirista de HQ, e, mais recentemente, um período em que desejei – ardorosamente, diga-se -, ser cineasta. Tudo ponderado, tratei de me colocar no meu devido lugar. Eu andei pensando em suicídio. Melhor dizendo, em quanto o suicídio é contraproducente. Acho que só acredito no suicídio como “expressão artística”, ou algo que o valha.

Daí que eu sempre fui um ator medíocre. E um notívago de quinta categoria. Quase nunca cedo meu lugar no ônibus por vergonha e ruborizo ante uma mulher bonita. Dizem que não acredito em Deus por preguiça, mas não é verdade (?). Falam de minhas carências sem ter coragem de sondar minhas virtudes. No fundo, sou um romântico - no melhor sentido do termo, qual seja o de alguém que ama o belo e reconhece as mazelas do mundo sem jamais tirar os pés do chão. Sei lá. Eu queria ser poeta. Mais combativo. Cara-de-pau. Um compositor popular, como já comentei aqui outro dia. Escritor? Não sei. Quero tanto que tenho medo. E, como dizia Clarice Lispector, quem tem medo de escrever jamais escreverá algo que preste.

Nesta semana inicio uma nova fase na minha vida. Não, não vou sair por aí com mochila a tiracolo, sem lenço nem documento, saudoso da época em que ser hippie era a única maneira decente de levar a vida. Vou começar num emprego novo. Vou trabalhar com finanças, empréstimos, juros simples e compostos. Vou de esporte fino. E vou graças à generosidade de um amigo, que acreditou em mim e me deu esta oportunidade. Um amigo.

Tento me imaginar daqui a dez anos, debalde. Tento me imaginar escritor. Mas mal consigo vislumbrar o que me aguarda daqui a dez dias. O presente é tão grande, cantava o poeta. Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. E, se possível, vamos de mãos dadas.

***

domingo, 3 de maio de 2009

Ao vencedor, as batatas

"Em todo caso, havia um só tunel: escuro e solitátio - o meu."
Ernesto Sábato / O túnel

Quando eu era garoto, acreditava que tudo correria bem no futuro desde que eu seguisse os passos que traçava com base no que as pessoas me haviam dito que era bom, justo, promissor. Bastaria continuar a me dedicar aos estudos, a respeitar meus pais, e a me alimentar corretamente. Seguindo esta receita tão básica, o início da minha vida adulta seria tranqüilo, cheio mesmo dessa substância, desse hormônio tão almejado que chamam de felicidade. Eu me formaria numa boa faculdade, arranjaria um ótimo emprego, conheceria uma mulher incrível, e constituiria uma família exemplar num lar aconchegante, desses para o qual a gente tem vontade de voltar correndo depois de um longo e exaustivo dia de trabalho.

Desnecessário dizer que nada disso aconteceu. Minha "vida adulta", se é que ela já começou, é um verdadeiro desastre. Por que estou falando disso? Não estou chorando o leite derramado não - longe de mim! É que dois filmes que vi esta semana me fizeram refletir sobre minha condição, e sobre o quão ingênuo eu fui acreditando que, caso eu me engajasse num projeto de "vida feliz", tudo correria às mil maravilhas. A propósito, os filmes que suscitaram estas ponderações são Clamor do Sexo, do Elia Kazan, e Mundo Livre, do Ken Loach. Basicamente, a única coisa que têm em comum, além de serem ótimos filmes, é a desesperança, precedida de desespero, que assola as personagens - jovens que um dia acreditaram que seriam vitoriosos na vida profissional e no amor, dois dos aspectos mais relevantes na medição do grau de felicidade de uma pessoa - num dado momento de suas vidas.

É assustador (e ridículo também) pensar que, após ter amargado várias derrotas, passei a apostar as fichas que me restavam num único livro. Um livro do qual ora me orgulho, ora me envergonho. Algumas dezenas de páginas de alto teor autobiográfico, escritas ao longo de dois anos. Tão pouco que, quando segurei o maço de folhas da última versão do romance pela primeira vez, pensei que ele fosse se esfarelar nas minhas mãos. Eu sentia (e ainda sinto) o bafo ácido de deboche que muita gente me dirigia. E não tinham razão? O que um filho da classe trabalhadora tinha de se meter em literatura - arte praticada pela elite; ofício de gênios, loucos, veados, vagabundos? Por que não arruma emprego na indústria como o pai? Por que não age como todo jovem de bem e arranja um emprego qualquer? Mas eu procurei - e muito! - emprego. Acontece que fracassei. Não fui competente o bastante. Não me deram oportunidade. Não tive sorte. E os concursos públicos? Não tive êxito; não estudei o suficiente; não prestei os concursos certos. Nada de batatas para mim, portanto. A literatura? Todos nós sabemos que nunca deu dinheiro. Conta-se nos dedos os privilegiados que vivem disso; os beste-sellers. Imagine: um rapazinho tímido e esquisito do interior do estado de SP, metido a escritor, e que, pasmem!, esperava que a literatura pudesse lhe abrir portas, ao menos dar-lhe um meio de subsistência, devolver-lhe a dignidade perdida... Um ingênuo! Um idiota! Um desesperado, sobretudo.
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Impossível não lembrar de O Náufrago, estupendo romance de Tomaz Bernhard.