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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Alguns dos melhores filmes que vi em 2010

Sem ordem de preferência:

Ervas Daninhas

À Prova de Morte

Um Homem Sério

Tudo Pode Dar Certo

Ilha do Medo

Vício Frenético

A Estrada

Ponyo – Uma amizade que veio do mar

O Escritor Fantasma

Como treinar o seu dragão

Férias Frustradas de Verão

Toy Story 3

A Rede Social


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Algumas cinematográficas III


O Livro de Eli – Mais um filme em que um “cavaleiro solitário” vaga por uma terra devastada em busca de vestígios de civilização. Denzel Washinton é o paladino da vez. Durão e justo, ele avisa seus adversários dos perigos que correm ao desafiá-lo. Em vão, obviamente. Os malfeitores que cruzam seu caminho são massacrados, e tudo é filmado de maneira bastante estilizada (leia-se pouco inventiva) pela dupla de diretores, os Irmãos Hughes – responsáveis pelo interessante Do Inferno.

Denzel / Eli carrega consigo o último exemplar da Bíblia Sagrada, que por sua vez é cobiçado pelo vilão interpretado por Gary Oldman. Este acredita que o livro possui poderes que lhe permitiriam controlar as pessoas, e então encarrega seus capangas de roubá-lo. Mas a tarefa se mostra mais complicada do que ele supunha. Eli é um tipo de messias disposto a tudo para preservar o livro em cujas páginas estão as diretrizes para uma vida boa e justa. E, como em todo filme de ação que se preze, ele encontra uma partner jovem, bela e rebelde, que o ajudará a chegar ao povoado em que as lições da Bíblia poderão ser passadas adiante.

Pode-se fazer várias leituras do filme. É possível considerá-lo tanto uma crítica ao fanatismo religioso quanto apologia ao cristianismo. Me pareceu extremamente conservador. Algo como: só existe salvação em Cristo. (Para tornar a sessão suportável, encarei o enredo genericamente como um elogio da leitura, do conhecimento.) E por mais que os diretores tenham tentado dar uma roupagem cool ao filme, tudo resulta muito cafona.
***
Chico Xavier – A tão alardeada cinebiografia do médium mais famoso do Brasil chegou às telas do cinema e tem atraído um grande número de espectadores. O fato é que Daniel Filho, diretor do filme, não deve estar surpreso com o bom desempenho de Chico Xavier nas bilheterias, uma vez que se trata de um projeto meticulosamente calculado para o sucesso comercial. Um personagem carismático. Um roteiro bem amarrado. Atores da TV Globo. Emoção e humor “na dose certa”. Elementos presentes no filme de Daniel Filho – e praticamente a norma que rege quase a totalidade das fitas da Globo Filmes.

O que se vê durante as duas horas de duração do longa é basicamente uma hagiografia. Em menino, Chico sofria com as visões e as vozes do além a que apenas ele tinha acesso. Já na adolescência, o surgimento de seu “guia espiritual”, Emmanuel, lhe dá certo conforto e o prepara para a completa aceitação de sua sina: ajudar ao próximo. Cônscio de seus “poderes”, Chico passa a usá-los para, por exemplo, exorcizar demônios e psicografar mensagens de mortos famosos e anônimos. Logo a fama do médium corre o mundo. Ele passa a atender a pessoas vindas das mais variadas regiões, o que atrai a atenção da imprensa e gera investigações sobre a autenticidade de seus poderes paranormais.

A maioria das cenas que mostram o protagonista na velhice se passa num programa de entrevista que serve de base para todo o roteiro. Nelas, brilham as figuras de Tony Ramos, o diretor de TV, e Nelson Xavier, o intérprete do Chico idoso.

Ao final, resta a sensação de ter assistido a uma dramatização de programa jornalístico, como aquelas do extinto Linha Direta da TV Globo. Produção caprichada, interpretações esmeradas, roteiro ok. Ou seja, nada memorável.
***
Ilha do Medo – Adaptação do romance Paciente 67, do americano Dennis Lehane, por um dos maiores cineastas vivos dos EUA: Martin Scorsese. Mais uma vez, é Leonardo DiCaprio quem interpreta o protagonista, um detetive federal que, juntamente com seu parceiro, Mark Ruffalo, é incumbido de investigar o desaparecimento de uma paciente de um manicômio situado numa ilha em Boston, a Shutter Island. Ocorre que, o que poderia resultar num suspense convencional, se torna algo bem mais interessante graças à genialidade de Scorsese, artista que domina como poucos as técnicas cinematográficas e conhece profundamente a história do cinema. Temos então um thriller psicológico em que a veracidade das imagens é sempre dúbia, em que realidade e sonho se confundem, e onde as identidades são sempre imprecisas, mutáveis.

Todo o elenco está muito bem. Destaque para as atuações de Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Max von Sydow e Jackie Earle Haley.
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Como Treinar o Seu Dragão – Um garoto desengonçado chamado Soluço vive numa vila de vikings. Seu pai é um grande guerreio e líder da comunidade. A maior ameaça à prosperidade da vila são os dragões, que vivem realizando ataques surpresas que se desdobram em grandes batalhas. A falta de talento para a guerra faz com que Soluço seja motivo de chacota entre os habitantes da vila, para decepção de seu pai. Isso só muda quando o garoto captura um “Fúria da Noite”, espécie de dragão mais temida pelos vikings, e aprende a como domá-lo.

Soluço passa a aplicar as técnicas aprendidas na convivência com o Fúria da Noite Banguela nos treinamentos nas aulas de combate a dragões da escola viking. Isso faz com que ele conquiste o respeito da comunidade e seja visto como um futuro grande guerreiro. O maior desafio de Soluço será convencer a todos de que os dragões não são seres malignos, e que a convivência entre eles e os humanos pode ser pacífica.

É esse o entrecho da última e bem-sucedida animação da Dremworks. Com esse argumento inspirado no livro homônimo de Cressida Crowell, os diretores Chris Sanders e Dean Deblois criaram um filme terno, engraçado, e com ótimas cenas de aventura. É mais um acerto dos produtores da Dremworks, que a cada filme tenta superar - ou ao menos igualar – a excelência criativa da Pixar, sua maior rival.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

*Post de outros carnavais

Findos os quatro dias de folia, voltamos à nossa rotina de chimpanzés.

É hora de fazer um balanço da festa: contar os mortos nas estradas, os mortos a tiro, os bêbados mortos, os amores mortos... Triste contabilidade, enfim. Mas sem novidades no front.

Os puxadores de samba (Jamelão odiava que o chamassem assim; dizia que era cantor e ponto), os mestres-salas, as porta-bandeiras, os mestres de bateria, os carnavalescos cairão no ostracismo durante doze meses, após o quê emergirão do anonimato para serem novamente celebrados por todos nós. As rainhas de bateria profissionais (Luma de Oliveira, Luiza Brunet, Adriana Bombom, Viviane Araújo etc.) nos privarão de seu charme e gostosura durante todo esse tempo. Os orixás também voltarão à clandestinidade, como os camelôs e as putas. Nossa sociedade predominantemente católica só os tolera durante o carnaval, quando então podem ser enredo de escola de samba, ir atrás dos trios elétricos (se tiveram 600, 800 reais para comprar um abadá, claro), se vestir de mulher e brincar num bloco qualquer, whatever. Podem até aparecer na televisão - o que, em última análise, os legitima.

***
Luiz Zanin, crítico de cinema do Estadão, em post recente em seu blog, lembrou que A Lira do Delírio é, provavelmente, o melhor filme brasileiro cuja trama se passa durante o Carnaval. Concordo. Walter Lima Jr. fez um desses filmes que nos encantam pela maneira "despretensiosa" como foram filmados. Tudo parece muito natural: os atores flanam pelos cenários, inebriados, eufóricos, apaixonados. Nada é estilizado. Não é cinema-favela, nem cinema-agreste. É CINEMA e fim de papo.

Convém ressaltar que esse tipo de cinema (naturalista, marcado pela improvisação) não é o único que me interessa. Nem tampouco estou aqui para fazer a defesa irrestrita do cinema nacional. Ocorre que A Lira do Delírio é um projeto nessa linha de dramaturgia calcada na parceria ator-diretor - em que o roteiro é criado conjuntamente, com o mínimo de premeditação - que deu certo. Não por acaso o filme se tornou um clássico.

E mais não digo. Porque já estou ficando pernóstico.(Graciliano Ramos gostava desse adjetivo: pernóstico; seus livros estão cheios dele. Foi assim que aprendi a gostar também.)

*Publicado originalmente em 26 de fevereiro de 2009.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Melhores de 2009 (III)

E, encerrando a postagem das listas de melhores do ano, seguem as sete obras-primas do cinema que me encantaram em 2009.

1 – Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder
2 – Ran, de Akira Kurosawa
3 – Os Incompreendidos, de François Truffaut
4 – Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rosellini
5 – Morte em Veneza, de Luchino Visconti
6 – Meu Ódio Será Sua Herança, de Sam Peckinpah
7 – Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho

Seis narrativas e uma espécie de “estudo” sobre a narrativa e a arte da representação (Jogo de Cena) que merecem ser vistos. Sete excelentes maneiras de se “perder tempo”.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os melhores de 2009 (1)

Hoje O Chimpanzé completa um ano de existência. E eu resolvi comemorar publicando minhas listas de favoritos de 2009. Primeiramente, segue a relação dos (meus) melhores filmes lançados em 2009.

1- Amantes, de James Gray
2- Gran Torino, de Clint Eastwood
3- Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino
4- Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow
5- O Lutador, de Darren Aronofsky
6- Inimigos Públicos, de Michael Mann
7- Up – Altas Aventuras, Pete Docter
8- Arraste-me para o Inferno, de Sam Raimi
9- Milk – A Voz da Igualdade, Gus Van Sant
10- Avatar, de James Cameron
11- Star Trek, de J.J Abrams
12- Se Beber, Não Case, Todd Phillips
13- Presságio, de Alex Proyas
14- *Para Aceitá-la Continue na Linha, de Anna Muylaert

Após compor a lista, me dei conta de que todos os filmes – com a nobre exceção de Para Aceitá-la.... - são made in USA, o que pode ser “explicado” pelos seguintes motivos: a) quase não tenho acesso aos melhores filmes europeus / asiáticos / sul-americanos (incluindo os nacionais), que podem ser vistos quase que exclusivamente nos festivais de cinema das capitais ou em salas destinadas a “filmes de arte”; b) não tenho o hábito de baixar filmes na internet, pois não disponho de meios para tanto; c) nem todos os filmes relevantes são lançados em DVD, e mesmo quando ocorre de serem bem distribuídos, eles nem sempre chegam às locadoras do interior; d) Hollywood continua soberana.

* Para Aceitá-la Continue na Linha é um telefilme exibido pela tevê Cultura em meados de dezembro do ano passado. Trabalho notável. Anna Muylaert é uma diretora invulgar. Quem viu Durval Discos sabe disso. Agora estou ansioso para ver É Proibido Fumar.

sábado, 24 de outubro de 2009

Meninos Incompreendidos

Antoine Doinel e Jason Taylor são dois garotos de 13 anos do século XX. O primeiro vive na França da década de 50, e o segundo na Inglaterra dos anos 80. Ambos são saudáveis, inteligentes, e vivem em família. A família de Antoine é pobre e negligente para com ele; já a de Jason é de classe média, e o prove de conforto material e afeto. Por viverem na Europa, continente em que a maioria dos países preza pela educação, os dois adolescentes freqüentam boas escolas públicas - e passam por dificuldades diferentes também. Os problemas que Jason enfrenta na sua rotina escolar são, em sua maioria, decorrentes dos conflitos com colegas mais fortes e imbecis que ele. Antoine Doinel, ao contrário de Jason, não é impopular nem tampouco vítima de perseguição dos colegas; seu nome está associado a um tipo de liderança negativa, e não ao de um grupo de crianças bem comportadas e introvertidas que sofrem nas mãos dos colegas sádicos.

Antoine Doinel é o protagonista de Os Incompreendidos (1959), filme de estréia de François Truffaut e marco da Nouvelle Vague. Monumento de simplicidade e beleza, este longa-metragem narra as aventuras e os dissabores vividos por esse alter-ego de Truffaut na Paris do pós-guerra. Movido por um misto de curiosidade e revolta, Doinel confronta a autoridade dos pais e dos professores, e se encaminha para uma vida anárquica e precoce. Filho adotivo, o garoto interpretado por Jean Pierre Léaud vive numa casa humilde onde dorme num catre no quartinho dos fundos. A mãe, uma mulher jovem e bonita, nos é apresentada numa bela seqüência em que chega do trabalho, põe-se a despir as meias-calça e a reclamar os chinelos que não encontra. De início percebemos seu desprezo pelo filho. Ele é cobrado e criticado o tempo todo, não recebe nenhuma manifestação de carinho ou apoio, e muitas vezes é tratado como um simples empregado doméstico. Os olhos de Antoine / Jean Pierre ora lembram os de um cão vadio, ora expressam agressividade e ressentimento. Quando miram o pai, no entanto, os olhos do menino ganham alguma vivacidade. Há um clima de camaradagem entre os dois, que só é desfeito quando Antoine comete suas traquinagens e pequenos delitos, ou quando resolve se insurgir contra as arbitrariedades dos próprios pais e da sociedade em geral.

Jason Taylor é o narrador-protagonista de Menino de Lugar Nenhum, romance de formação do escritor britânico David Mitchell, lançado o ano passado no Brasil pela editora Cia das Letras. Ele vive numa cidadezinha do interior da Inglaterra chamada Black Swan Green, título original do livro. Amado e protegido pela família, Taylor não encontra a mesma acolhida de que dispõe em casa na escola. Vítima de gagueira, é alvo constante de chacota dos outros garotos, que o apelidam de Verme. Para minimizar o problema da gagueira, chamada por ele de Carrasco, Jason recorre a uma fonoaudióloga. Além de se interessar por atividades caras à maioria dos garotos de sua idade, Jason dedica-se (secretamente) à poesia. Reconhece, em dado momento da narrativa, que se os colegas descobrissem esse seu hobby sua vida social estaria comprometida de vez. Por isso envia poemas para concursos e revistas locais sob o pseudônimo de Eliot Bolívar. “Quando você mostra pra alguém uma coisa que escreveu, está oferecendo uma estaca pontiaguda, deitando no caixão e dizendo ‘Quando você quiser’”, diz na ocasião em que encontra Madame Crommelynck, senhora culta e experiente que faz críticas construtivas à sua obra.

As narrativas de Truffaut e Mitchell têm pontos em comum, como a fluência e o lirismo. Não há espaço para a pieguice nem para a divagação gratuita. Mas o humor está presente em ambas, principalmente como antídoto a um possível laivo de (auto)comiseração que poderia arruinar os relatos de cunho autobiográfico. Os personagens também não são caricatos nem agem segundo uma disposição maniqueísta. Por mais cruéis que os pais de Antoine Doinel possam ser, eles são dotados de algum senso de justiça, e soam sinceros quando se põem a ministrar conselhos que julgam importantes para a formação do filho. Por vezes os personagens de Menino de Lugar Nenhum podem parecer estereotipados, mas isso não é um problema narrativo, e sim uma conseqüência do olhar imaturo e parcial do protagonista-narrador. Seus algozes, por exemplo, são naturalmente descritos como bestas-feras despidas de bons sentimentos. Os pais, apesar de cuidar para que nada lhe falte, vivem às turras, o que é motivo de descontentamento para Jason.

Dois adolescentes de natureza diversa vivendo no mesmo século em décadas diferentes. Jason Taylor e Antoine Doinel. O primeiro tenta se livrar do assédio dos colegas de escola e sofre com a separação dois pais. O segundo possui espírito livre e se esforça para adaptar-se à vida em sociedade, a qual julga castradora e injusta.

François Truffaut e David Mitchell. Um cineasta e um romancista de origens e épocas diferentes. Dois grandes artistas. Duas grandes obras.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Forever Young

Eu ia escrever um post sobre os últimos filmes que vi na tevê, mas, uma vez que os dois posts anteriores ficaram uma merda, resolvi poupar dessa chateação os dois ou três leitores habituais deste blog. Se bem que é forçoso não compartilhar o fato de ter visto As Virgens Suicidas pela segunda vez ontem à noite.

O primeiro e surpreendente filme de Sofia Coppola é uma adaptação do extraordinário romance homônimo do americano Jeffrey Eugenides, lançado no Brasil pela editora Rocco, em ótima tradução de Marina Colasanti. Após debutar no cinema como atriz na terceira parte de O Poderoso Chefão, e ter sofrido duras críticas por sua atuação medíocre, Sofia resolveu voltar ao meio agora como diretora, e escolheu um material no mínimo ousado, que poderia ter comprometido seriamente essa sua nova empreitada. Para sorte nossa não foi o que ocorreu. Tendo o pai, Francis Ford Coppola, como um dos produtores, e o apoio de um elenco de primeira – com destaque para James Woods e Kathleen Turner, que vivem os pais das cinco adolescentes -, Sofia conseguiu fazer um filme sensível e original, ainda que não impecável. Entre as lindas garotas loiras que interpretam as irmãs suicidas, destaca-se a talentosa Kirsten Dunst, que voltaria a trabalhar com a diretora em Maria Antonieta, no qual interpreta o papel-título.

Quando vi o filme pela primeira vez, eu ainda não havia lido o livro. Depois de ter comprado e lido a edição de bolso lançada pela Rocco em parceria com a L&PM por R$ 13,00, achei o filme ainda melhor. Trata-se de uma brilhante adaptação de um romance complexo, narrado na segunda pessoa do plural por um grupo de garotos que testemunham a morte de cada uma das meninas.

***

Bob Dylan é gênio? A maioria dos chimpanzés (eu incluso) acha que sim, mas há quem o considere apenas um compositor competente e superestimado. Lembro de uma cena de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa em que (o genial) Woody Allen ridiculariza o músico num curto bate-papo com uma fã dele. A propósito, quem interpreta a tiete de Dylan é a ótima Shelley Duvall, de O Iluminado, e Popeye. Por ande anda Shelley Duval?

Um compositor nacional constantemente comparado a Dylan é Chico Buarque, que já chegou a ser chamado de “Bob Dylan brasileiro” nos EUA. Chico é quase unanimidade no Brasil: gênio. Mas seus detratores o acusam de barroco e exageradamente rebuscado. Na minha modesta opinião, o repertório de Chico vai do sublime ao tedioso, sempre com muita dignidade. Foi esse, aliás, o parecer de Paulo Francis a respeito de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, como li numa dessas deliciosas coletâneas de artigos do escritor.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Algumas cinematográficas II

Em DVD

Assisti a sete filmes em DVD nos dois últimos fins de semana:

O Leitor – Embora Kate Winslet esteja muito bem como a sentinela nazista que se envolve com o tal leitor do título, apenas isso não garante o interesse pelo filme, que aliás é bem enfadonho. Trata-se de um melodrama em dois atos com uma carga de “filme de tribunal.” A mensagem essencial do filme é a seguinte: facínoras também amam.

Foi apenas um sonho – Outro filme protagonizado pela ótima Kate Winslet, em sua segunda parceria com Leonardo DiCaprio. Dirigido por Sam Mendes (Beleza Americana, Soldado Anônimo), este drama versa basicamente sobre os conflitos de um jovem casal suburbano nos EUA da década de 50. Inconformados com sua vida monótona, Frank e April (DiCaprio e Winslet) sonham em se mudar para Paris a fim de viver uma vida menos ordinária. April é a atriz frustrada que não aceita sua condição de mãe e dona-de-casa, e Frank é um funcionário insatisfeito de uma grande empresa na qual o pai também fizera carreira como vendedor. Convencido pela esposa, ele resolve pedir as contas e ir para Paris. Quando a notícia se espalha, o casal vira motivo de chacota na vizinhança, o que só reforça seu desejo de mudar de vida. Um tema interessante – assim como o de O Leitor. Mas o resultado final é apenas mediano, como de resto toda a obra do diretor.

A Garota Ideal - Ryan Gosling vive um auxiliar de escritório misantropo que um belo dia apresenta uma boneca inflável como sua namorada à família e aos vizinhos. A princípio o espanto é geral, mas aos poucos todos aceitam o namoro com certa naturalidade a fim de não ferir os sentimentos do rapaz. Mais uma comédia dramática “sensível e inteligente” – e dispensável - produzida pelo cinema independente americano.

A Felicidade Não Se Compra – Clássico do cinema americano dirigido por Frank Capra e estrelado por James Stuart, em 1946. Uma parábola sobre os valores essenciais da América. Stuart interpreta um jovem do interior dos EUA que abre mão de suas mais altas ambições para se dedicar ao bem-estar da família e do povoado local. Aliás, só agora me ocorrem as (ligeiras) semelhanças entre esse filme e o recente Foi apenas um sonho. Cada qual trata do american way of life à sua maneira: o primeiro pela via do humor e do melodrama, e o segundo pela via da tragédia.

O Agente da Estação – Outro produto do cinema alternativo americano. Mas este me parece um projeto mais bem-sucedido que “A Garota Ideal”. Novamente o protagonista é um outsider, o que é quase uma regra inalterável do cinema indie mundial. Finbar (o ótimo Peter Dinklage) é um anão que trabalha numa oficina de brinquedos em Nova Iorque. Sua especialidade é o conserto de trens elétricos. Com a morte de seu patrão e amigo, Fin herda uma pequena propriedade à margem de uma linha ferroviária numa cidadezinha do interior, para onde acaba se mudando. Lá ele conhece um pequeno grupo de pessoas com quem faz amizade. O desenrolar dessas novas amizades e a maneira como Finbar encara o preconceito e o deboche são os fios condutores desse drama bastante acima da média.

Embriagado de Amor – O quarto filme do diretor Paul Thomas Anderson (Magnólia, Boogie Nights) é uma insólita comédia romântica estrelada por Adam Sandler e Emily Watson. Ele é um pequeno empresário do ramo dos desentupidores de pia, atormentado pela solidão e por suas sete irmãs superprotetoras; e ela é a “mulher misteriosa” que entra na vida dele por intermédio de uma das irmãs. A maioria dos recursos cinematográficos caros a P.T. Anderson está lá: planos longos, atuações carregadas (quase caricatas), cores vibrantes – porém não há mais o mesmo painel narrativo presente em seus trabalhos anteriores.

Amores – Comédia nacional sobre relacionamentos amorosos contemporâneos, dirigida por Domingos Oliveira, e baseada em sua peça homônima. Como em toda adaptação teatral, o forte é o desempenho dos atores, essencial para a sustentação da trama. Domingos de Oliveira filma de maneira muito simples: a câmera sempre acompanha os personagens de perto, restringindo ao máximo o espaço da ação. A preocupação com cenário, figurino, iluminação, e demais recursos técnicos é mínima – o que interessa é pura e simplesmente a mise-en-scéne. Divertido, sem dúvida. As questões discutidas também são bastante pertinentes. Mas o filme posterior de Domingos, “Separações”, me parece mais rico em todos os sentidos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Algumas cinematográficas I

Últimas idas ao cinema



Inimigos Públicos - O último filme que me levou ao cinema. Um legítimo e moderno "filme de gângster", dirigido por Michael Mann, o mesmo dos ótimos Fogo Contra Fogo, Colateral e Miami Vice, e estrelado por Johnny Depp, Christian Bale e Marion Cotillard. As seqüências de ação são primorosas, os diálogos são inteligentes, e as interpretações (destaque para o sempre ótimo Deep), cativantes.


A Era do Gelo 3 - Tão divertido quanto os anteriores, embora menos interessante. O filme foi todo pensado para a exibição em 3 D, como provam as infindáveis cenas de ação que por vezes cansam um pouco. Ninguém sai insatisfeito do cinema, mas com a sensação de que o material se esgotou.


Transformers - A Vingança dos Derrotados: Com essa sequência, Michael Bay surpreendeu a todos com sua capacidade de superação: o filme é muito pior que o primeiro, que já é bem ruim. Duas horas e meia de tortura mitigadas apenas pela beleza de Megan Fox.


domingo, 14 de junho de 2009

Um poema e uma canção. Ou A preguiça do blogueiro

Incapaz de administrar seu tempo de maneira produtiva, o blogueiro apenas lamenta – e admira. Por vezes, inverte a ordem, então admira (a capacidade alheia de gerenciar o tempo) e lamenta (sua falta de talento para criar, construir, fazer acontecer, nas horas em que não está tentando garantir seu sustento ou descansando).

***
Um poema de Roberto Piva que vive na minha cabeça:

O SÉCULO XXI ME DARÁ RAZÃO
(se tudo não explodir antes)

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro-velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gângsters, seus gângsters ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, seus anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seus jardinzinhos com vidro fumê, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheios de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas com desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, , sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.
***
Um filme visto no fim de semana: Árido Movie, do pernambucano Lírio Ferreira. Belo. Divertido. Irregular. Penso que Bianca iria gostar desse filme. Acho que iria apreciar principalmente a trilha sonora. Da qual "extraí" o samba-canção Naquela mesa, clássico de Sérgio Bittencourt cantado por Otto, ao final do filme, e por Nelson Gonçalves, na versão abaixo:

terça-feira, 26 de maio de 2009

Entre os muros da escola*

Terça-feira passada, assisti com satisfação ao melhor programa da televisão aberta brasileira. Sim, meus caros, ele é exibido pela tevê Globo nas noites de terça. Não, não se trata do irregular e dispensável Casseta & Planeta, nem do simplório e vulgar Toma lá, da cá – e sim do jornalístico comandado pelo veterano Caco Barcelos, Profissão Repórter.

Para quem não conhece o programa, segue uma breve descrição. A cada semana, uma equipe de repórteres liderada por Caco Barcelos elege um determinado tema – ou pauta, no jargão jornalístico – e o explora numa espécie de documentário multifacetado, onde os muitos vieses do assunto são desenvolvidos em micro-reportagens apresentadas de modo alternado ao longo do episódio.

Dito assim, parece que o programa não apresenta nada de novo, uma vez que a televisão nacional contém uma série de atrações semelhantes – entre elas o Globo Repórter, exibido pela mesma emissora. O que diferencia Profissão Repórter dos seus congêneres é a abordagem. Aqui, o que interessa é apresentar os “bastidores e desafios da reportagem”, isto é, revelar ao telespectador o que todos os veículos jornalísticos, televisivos ou não, procuram esconder.

Pois bem. Na última terça-feira 19, o tema em questão foi o cotidiano de um grupo de estudantes do ensino médio da periferia de São Paulo. Os repórteres se dividiram em duplas e investiram em algumas frentes de possível interesse jornalístico. Por exemplo: enquanto uma dupla acompanhava o dia-a-dia de uma professora de matemática que leciona cerca de catorze horas diárias para conseguir uma renda de R$ 3.000,00 mensais, uma outra registrava a rotina extraclasse de alguns alunos. Entre os muros da escola, professores sobrecarregados e mal pagos se esforçam para transmitir o mínimo de conhecimento a uma horda de adolescentes dispersos e desinteressados.

Conhecemos, por meio das lentes e da abordagem dos jovens repórteres, pessoas com as quais topamos diariamente e a quem muitas vezes não atribuímos o menor valor. Pessoas como essa professora de matemática, que, dona de uma inquebrantável resignação, ministra conceitos de álgebra, aritmética, geometria etc. a adolescentes como a mulatinha grávida de nove meses que não presta a menor atenção à aula por se julgar incapaz de entender as lições, e o rapaz algo tímido e franzino que deseja aprender para “ser alguém na vida” e concilia os estudos com o emprego de auxiliar de escritório numa indústria metalúrgica.

À medida que conquistam a confiança dos “personagens” que se destacam no transcorrer das matérias, os jornalistas conseguem registrar fatos da sua vida pessoal, e são essas incursões para além dos muros da escola que nos dão uma melhor noção de como vive a maioria dos brasileiros.

A jovem gestante divide o mesmo teto com oito irmãos e trabalha como babá para contribuir (modestamente) com o orçamento doméstico. Visitamos sua casa simples, conversamos com sua mãe, conhecemos até o beliche onde, segundo a mãe, a criança foi concebida. Em seguida, acompanhamos o garoto estudioso até sua casa depois da aula, por volta das 11 da noite. Ele nos convida para entrar. O repórter vacila, não acha o horário conveniente. Decide apenas cumprimentar o pai do menino, que descansa no sofá da sala. Da porta mesmo, esboça uma discreta saudação, que não encontra resposta. “É que ele está um pouco alcoolizado”, o menino justifica a apatia do pai.

Às cinco horas da manhã, o repórter apanha o menino em casa e juntos enfrentamos uma viagem de metrô de mais de uma hora até seu local de trabalho. E só algumas dezenas de quilômetros depois, após termos atravessado a maior cidade do país quase de ponta a ponta, nos despedimos do jovem aprendiz, na porta da fábrica.

Durante cerca de quarenta minutos, desfrutamos da companhia dessas pequenas criaturas. Tempo suficiente para descobrir que a professora de matemática, embora ensine com dedicação e goste do magistério, faz tratamento contra hipertensão. Para sermos apresentados a outros personagens e conhecer outras histórias, como a do garoto mais popular do colégio, um ex-encrenqueiro que, de acordo com a mãe, agora tem se comportado. Ele nos introduz nos diferentes “bandos” dos quais é integrante - pequenos grêmios que se caracterizam por seus gostos, seu modo de vida. Uns cultuam o hip-hop e o grafite; outros, o pagode e a cerveja; e há ainda os que curtem rock e skate. São os manos da periferia. A rapaziada que dribla habilmente as agruras rotineiras e ainda consegue "tirar onda". Tribos. Juntos esses jovens se sentem mais fortes. Intramuros, os que não se encaixam em nenhum grupo, os que destoam da maioria por alguma razão, são alvo de chacota. Em nossa curta estada na periferia da megalópole, recebemos a notícia de que um estudante de catorze anos cometeu suicídio. Numa carta deixada para a mãe, o garoto pede desculpas por não ter tido força suficiente para sobreviver aos anos de insultos e agressões físicas constantes.

Faltando poucos minutos para o final de mais uma edição do Profissão Repórter, a mulatinha extrovertida e sorridente que conhecemos no começo do programa entra em trabalho de parto. A repórter que a acompanhara desde o início da matéria segue depressa para o hospital onde a menina está prestes a dar à luz uma outra menina, cujo nome de pronúncia difícil foi extraído de um seriado estrangeiro qualquer.

*Título do filme francês que venceu a Palma de Ouro em Cannes, no ano passado. Dirigido por Laurent Cantet, o longa narra o cotidiano de uma escola pública da periferia de Paris.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Gabo é fã de Nelson Ned

Esta semana o Jornal da Globo exibiu duas reportagens sobre a aposentadoria de Gabriel Garcia Márquez. A primeira foi ao ar na quarta-feira e se restringiu a uma notinha sobre o fato de o célebre escritor colombiano, autor de clássicos como Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera, ter feito saber ao mundo, por meio de um agente, que deixará de escrever. A segunda - espécie de mea-culpa em relação à primeira, uma reportagem pobre demais até para os padrões televisivos - foi exibida na quinta, e contou com um breve perfil de Gabo, como ele é conhecido entre os amigos, além de exaltar o prêmio Nobel recebido por ele em 1982. Embora um pouco mais elaborada que a primeira, esta última matéria não conseguiu desfazer a impressão de que a notícia era irrelevante – não obstante a popularidade do escritor.

A meu ver, a única informação realmente importante dada pelo telejornal foi que Garcia Márquez, também conhecido por seus gostos exóticos (sic), é fã de carteirinha do cantor brasileiro Nelson Ned. Taí, gostei. Eu não sabia. Não sou fã de Garcia Márquez nem de Nelson Ned, embora admire alguns livros do primeiro e respeite a trajetória do segundo. E meu respeito por Nelson Ned advém do fato de ele ser um homem que venceu exclusivamente pelo talento. Ou alguém acha que o cara é só um rostinho bonito? Nós, os feios, os desajustados, os desempregados, os misantropos, os ansiosos crônicos, os escritores não publicados, cineastas sem filmes, pintores sem tela, os amantes do inútil, enfim, toda essa fauna de marginais e marginalizados, regozijamos quando uma criatura da nossa estirpe vence pelo talento. Nós temos orgasmos múltiplos. (Eu tenho!)

Por exemplo, quando vejo um ator / atriz (ou qualquer outro artista) fazer sucesso única e exclusivamente em razão da sua capacidade, fico felicíssimo. Significa que a pessoa chegou lá por suas qualidades realmente importantes. Não foi porque era linda, ou porque pertencia a uma classe de privilegiados qualquer, mas porque seu talento era indiscutível. Há inúmeros exemplos de gente assim. Vou citar um: Woody Allen. Goste-se ou não da obra dele, há que se reconhecer que ele se tornou um artista mundialmente respeitado por ser multitalentoso. Aliás, o tipo esquisitão que o diretor criou no cinema pode ser considerado uma figura icônica do mundo freak. Desde que seu personagem desajustado porém safo surgiu (salvo engano) no filme Bananas (1971), nós acompanhamos, filme após filme, suas desventuras e o modo como, ao final, ele sempre se dá bem. Basta listar a quantidade de mulheres lindas e inteligentes que foram suas amantes. De passagem, listo Mia Farrow, Diane Keaton, Julia Roberts, Mira Sorvino, Charlize Theron, entre outras. E o mais interessante é que, para se dar bem, por assim dizer, o tipo atrapalhado de Woody Allen nunca faz concessões: segue fiel a seu estilo, e cativa as mulheres por isso.

No filme Fatal (2008), baseado no romance O Animal Agonizante, de Philip Roth, a certa altura o personagem principal, um professor universitário (Ben Kingsley) na casa dos sessenta que tem um caso com uma aluna trinta anos mais jovem (Penélope Cruz), diz mais ou menos o seguinte: Quando fazemos amor com uma mulher, é como se nos vingássemos da morte. Inspirado nesta frase, eu diria que, quando uma pessoa “fora dos padrões” conquista um lugar de destaque, todos os freaks se vingam da vida.

P.S. - este texto também pode ser lido no ímpar-par americano, bloguinho que criei para publicar alguns comentários, rascunhos de ficções, cartas abertas, mensagens engarrafadas - enfim, nada muito distinto deste sítio; o que os difere é o fato de seus layouts serem diferentes: o ímpar-par, por exemplo, possui fundo branco.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Terrorismo à americana


Há alguns anos os Estados Unidos vêm produzindo um tipo muito particular de criminoso: o atirador sem causa. Esses atiradores geralmente são jovens em idade escolar, tidos como freaks (esquisitos, desajustados) pela sociedade, com fácil acesso a armas de fogo, que planejam seus atentados meticulosamente, e cujas vítimas são colegas de escola, professores, e, em última instância, eles próprios.

O caso mais famoso dessa espécie de terrorismo é o do massacre de Columbine, ocorrido em abril de 1999 numa pacata cidadezinha do estado do Colorado. Na ocasião, dois adolescentes abriram fogo contra colegas e professores do Instituto Colombine, deixando 15 mortos, incluindo eles mesmos, que se mataram após a chacina.

Outros episódios dentro e fora dos EUA também marcaram época. No Brasil, o caso mais conhecido é o do estudante de medicina Mateus da Costa Meira, que em novembro de 1999 invadiu uma sala de cinema num shopping em São Paulo e disparou contra a platéia, matando três pessoas e ferindo outras cinco. O filme que estava sendo exibido quando do ataque era Clube da Luta, de David Fincher, e eu me lembro de Arnaldo Jabor espinafrando a obra de Fincher e o cinema de ação hollywoodiano de modo geral em seu comentário no Jornal da Globo, como se a violência perpetrada naquela noite fatídica houvesse sido transmitida a nós, os puros de coração, através do cinema americano. Simples assim.

Seria leviano afirmar que os americanos criaram essa nova categoria de terrorismo e a exportaram para o resto do mundo. Equivaleria a sustentar que as “raízes do mal” germinam apenas em solo americano, na terra do capitalismo desmedido, onde os fracos não têm vez etc. – o que é uma completa tolice. Do mesmo modo, acredito que a violência no cinema – ou nos videogames – não seja a principal propagadora do mal entre os jovens que cometem essas atrocidades. Ela até pode servir de modelo para os ataques, mas não me parece ser seu fator gerador.

Cineastas como Michel Moore (Tiros em Columbine) e Gus Van Sant (Elefante) investigaram, cada qual à sua maneira, os motivos que levam parte da juventude americana a cometer tais atos de desespero. O primeiro, utilizando o documentário como instrumento de investigação, acredita que o livre acesso a armas letais e o descaso do governo para com a população mais pobre do país seriam as principais causas desses atentados. Já o segundo, valendo-se dos meios ficcionais, atribui essas manifestações ao isolamento social e a fragilidades emocionais inerentes aos protagonistas. Ou seja, enquanto para Michel Moore as deficiências sócio-culturais são as verdadeiras vilãs, para Gus Van Sant, o problema maior está no silêncio dos jovens atiradores, um silêncio que denota medo e desesperança, e que, somado à extrema facilidade de se adquirir armas letais no país, acaba culminando em violência gratuita.

Sejam quais forem os estopins desses assassinatos, o fato é que eles estão se tornando cada vez mais constantes. Em 2007, houve chacinas dessa ordem numa universidade americana da Virgínia (32 mortos), e numa escola da Finlândia (8 mortos). Hoje pela manhã, ao acessar a internet, descubro que ocorreram mais dois casos do tipo, um na Alemanha e outro nos Estados Unidos. Este último se deu ontem no Alabama e envolveu um atirador que matou dez pessoas, entre elas um bebê de um ano e meio e sua mãe, além dele próprio. Até agora a polícia local não sabe o que motivou o crime. No sudoeste da Alemanha, um rapaz de 17 anos invadiu sua antiga escola na manhã desta quarta-feira e abriu fogo contra alunos e professores. Dezesseis pessoas morreram, incluindo o adolescente, morto em tiroteio com a polícia.

Como disse Bob Dylan em sua célebre canção, the times are changing. Ou melhor, things have changed.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

De volta ao planeta dos macacos

A atriz Anecy Rocha em cena de A Lira do Delírio (1978), de Walter Lima Júnior

Findos os quatro dias de folia, voltamos à nossa rotina de chimpanzés.

É hora de fazer um balanço da festa: contar os mortos nas estradas, os mortos a tiro, os bêbados mortos, os amores mortos... Triste contabilidade, enfim. Mas sem novidades no front.

Os puxadores de samba (Jamelão odiava que o chamassem assim; dizia que era cantor e ponto), os mestres-salas, as porta-bandeiras, os mestres de bateria, os carnavalescos cairão no ostracismo durante doze meses, após o quê emergirão do anonimato para serem novamente celebrados por todos nós. As rainhas de bateria profissionais (Luma de Oliveira, Luiza Brunet, Adriana Bombom, Viviane Araújo etc.) nos privarão de seu charme e gostosura durante todo esse tempo. Os orixás também voltarão à clandestinidade, como os camelôs e as putas. Nossa sociedade predominantemente católica só os tolera durante o carnaval, quando então podem ser enredo de escola de samba, ir atrás dos trios elétricos (se tiveram 600, 800 reais para comprar um abadá, claro), se vestir de mulher e brincar num bloco qualquer, whatever. Podem até aparecer na televisão - o que, em última análise, os legitima.

Confesso que dei uma espiada nos desfiles das escolas de samba do Rio, de São Paulo, e daqui de Guaratinguetá. Achei tudo muito parecido e, salvo poucas exceções, tedioso. Mas talvez a culpa não seja das agremiações, e sim minha. Fevereiro está sendo o mês mais longo desta minha vida besta. Outra hora eu explico por quê.

Luiz Zanin, crítico de cinema do Estadão, em post recente em seu blog, lembrou que A Lira do Delírio é, provavelmente, o melhor filme brasileiro cuja trama se passa durante o Carnaval. Concordo. Walter Lima Jr. fez um desses filmes que nos encantam pela maneira "despretensiosa" como foram filmados. Tudo parece muito natural: os atores flanam pelos cenários, inebriados, eufóricos, apaixonados. Nada é estilizado. Não é cinema-favela, nem cinema-agreste. É CINEMA e fim de papo.

Convém ressaltar que esse tipo de cinema (naturalista, marcado pela improvisação) não é o único que me interessa. Nem tampouco estou aqui para fazer a defesa irrestrita do cinema nacional. Ocorre que A Lira do Delírio é um projeto nessa linha de dramaturgia calcada na parceria ator-diretor - em que o roteiro é criado conjuntamente, com o mínimo de premeditação - que deu certo. Não por acaso o filme se tornou um clássico.

E mais não digo. Porque já estou ficando pernóstico.(Graciliano Ramos gostava desse adjetivo: pernóstico; seus livros estão cheios dele. Foi assim que aprendi a gostar também.)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Pot-pourri carnavalesco

Um crime lesa-assalariado

Será que sou o único que se aborrece ao ver funcionários de redes de lanchonetes e lojas de departamentos exibindo petrechos e alegorias em datas como Natal, Carnaval e Páscoa? Corta meu coração ver os pobres coitados vestindo fantasias e enfeites ridículos, ultrajantes. E não venham me dizer que essas pessoas levam tudo na brincadeira! Eles se submetem a isso porque precisam do emprego, da grana, obviamente; pode até ser que eventualmente se divirtam, entrem na dança, por assim dizer. Mas continuo achando isso triste - e sem graça. Por que os funcionários do alto escalão não se fantasiam e macaqueiam durante seu turno de trabalho? Quero ver essa gente com gorro de Papai Noel, peruca colorida, maquiagem de coelhinho da Páscoa e o escambau. Ou será que só quem ganha em torno de seiscentos merréis (meu falecido avô materno dizia assim, merréis, corruptela de mil réis, cousa das antigas enfim) por mês tem o condão de se emperiquitar e sorrir com benevolência para a clientela?

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Dicas

Um filme assaz mediano para o feriadão:

Batman - O Cavaleiro das Trevas

Um "baile de máscaras" repleto de ação, diálogos mais ou menos tediosos e truques ordinários de roteiro. Não recomendado para crianças - foi essa a impressão que tive quando assisti ao filme. Embora a atuação (triste, muito triste) do falecido Heat Ledger seja notável - porque divertida e assustadora ao mesmo tempo -, há um clima de sordidez e violência que perpassa a maioria das cenas, além de a performance de Christian Bale anular qualquer possibilidade de identificação do expectador com o homem-morcego.

Um filme para se evitar no feriadão:

Última Parada - 174

O diretor Bruno Barreto levou às telas a trajetória de Sandro do Nascimento, o seqüestrador carioca que, no dia 12 de junho de 2000, manteve um grupo de pessoas refém dentro de um ônibus por várias horas, na cidade do Rio de Janeiro. A tragédia resultou na morte de uma jovem (Geisa Gonçalves) e do próprio Sandro, sufocado pelos policiais no interior de um camburão.

Dois ótimos filmes para qualquer época:

Os Donos da Noite

O diretor James Gray (Caminho Sem Volta) realizou não apenas um grande filme policial, mas também um drama profundo e contundente sobre amor fraterno, lealdade, e vingança.

E Superbad - É Hoje

Considerado (erroneamente) por muitos como mais uma comédia adolescente marcada pelo besteirol hollywoodiano, este filme é, sobretudo, um belo elogio da amizade.

Ainda que possam desagradar a algumas pessoas, as piadas e situações cômicas do filme estão todas muito bem contextualizas dentro do roteiro. É o que ocorre também em outra boa comédia dos mesmos criadores desta, Ligeiramente Grávidos - embora neste último haja três ou quatro piadinhas de mau gosto bastante dispensáveis. Se rimos de algumas cenas patéticas e algo grotescas de Superbad, é porque elas nos fazem lembrar de como já fomos ridículos num dado momento da juventude. Não se trata de uma comédia ordinária, em que o único objetivo é levar a platéia ao riso a qualquer custo e o maior número de vezes possível, sem a menor preocupação com a trama, que nesse caso só serve para ligar uma piada a outra, o que também se aplica aos filmes pornôs, se substituirmos as piadas pelas transas. Aqui, as gags estão a serviço do roteiro, e não o contrário.

Superbad traz um velho tema (a passagem da adolescência para a idade adulta) com um novo tratamento, mais sensível e inteligente.

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Encerrando as dicas, um livro como contraponto à novela Caminho das índias:

O Tigre Branco, de Aravind Adiga.

Sinopse: Um empresário indiano escreve uma carta para o primeiro-ministro chinês tentando explicar o espírito empreendedor de seu país citando seu próprio exemplo.

Um romance criativo e provocador, que deu ao autor indiano o Man Booker Prize, principal prêmio literário europeu para obras de língua inglesa.

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Vamos acabar com o samba?

Em agosto do ano passado, o cantor João Gilberto fez duas apresentações no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Qualquer pessoa que não estava fora do Brasil na semana dos shows se lembra da cobertura grandiosa e deliberadamente entusiasmada que os cadernos de cultura fizeram dos eventos. Fazia cinco anos que o músico baiano não se apresentava na capital paulista. Em comemoração aos 50 anos da bossa nova, João cedeu à insistência de fãs e amigos que queriam vê-lo no palco outra vez. Foi um acontecimento. E por um bom tempo não se falou de outra coisa na imprensa especializada.

Por incrível que pareça, João Gilberto não é unanimidade. À época das apresentações houve quem desse declarações inflamadas e publicasse artigos de repúdio à enorme cobertura dos shows pela mídia. Lembro particularmente da indignação do cantor Agnaldo Timóteo, que, em entrevista a uma rádio carioca, disse: “João Gilberto não canta, não interage, não sorri”, desafiando nossa sociedade hipócrita (sic) a listar as contribuições de João à música brasileira nos últimos cinqüenta anos. Timóteo afirmou ainda que ele sim é um talento raríssimo da MPB.

Outro que manifestou seu desprezo por João Gilberto foi o roqueiro e apresentador de tevê Lobão. Durante um debate num festival literário em Ouro Preto, ele disse ter menosprezado João quando este lhe pediu uma opinião acerca de sua versão para o hit Me Chama, sucesso na voz de Lobão.

É natural que não haja consenso em torno da figura de João Gilberto. Eu desconfio dos que o veneram tanto quanto dos que o tratam com menoscabo. Gosto de algumas canções gravadas por ele e admiro sua vocação para a repetição. Os artistas que se debruçam sobre um mesmo tema, aplicando pequenas e sutis variações a cada nova criação, me fascinam. E João Gilberto é um intérprete desse naipe.

O samba, gênero ao qual João se dedicou amiúde, também nunca foi unanimidade no Brasil. E junto com ele o carnaval. Há quem considere o carnaval uma farra para alienados. Se a religião é o ópio do povo, o carnaval e o futebol são o circo. Pão e circo são indispensáveis para se manter o povo no cabresto, apregoavam os senadores romanos. Mas tachar o carnaval dessa maneira é incorrer em reducionismo. É diminuir a importância de um conjunto de manifestações artísticas que fazem parte da cultura nacional.

Nem tudo nesta festa popular são flores. Mas dizer que o carnaval não passa de uma farra de tolos é um equívoco.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Kate é minha musa


A exatos seis dias da cerimônia do Oscar 2009 - da qual, ao que tudo indica, a atriz britânica Kate Winslet sairá consagrada -, blogueiros e escribas em geral decidiram proclamar seu amor à musa. E eu confesso que, não obstante contente de constatar quão grande é o número de admiradores da atriz, fiquei com uma ponta de ciúmes.

É mulher pra vida inteira

Queria Kate só para mim. Afinal, nossa relação é antiga. Me apaixonei por ela numa sessão de cinema lotada do Taubaté Shopping. Em 1998 embarquei, como todo bom chimpanzé, naquele transatlântico saído de Southampton (Inglaterra) - Deus abençoe o Google! - rumo a Nova Yorque. Mas, ao contrário de Leonardo DiCaprio, não morri congelado nas águas do Atlântico, depois que o Titanic naufragou.

A "gorducha" mais sexy da história do cinema

Nascia ali, naquela sala de cinema superlotada, uma história de amor que, como vim a descobrir mais tarde, começara a brotar alguns anos atrás, num filme mediano de Peter Jackson, Almas Gêmeas, ao qual eu assistira uma madrugada na Bandeirantes, atual tevê Band. (Mudou o nome, mas a programação continua uma merda).

Kate, aos 19 anos, em Almas Gêmeas

Senti palpitações não apenas em face da beleza clássica de Kate (a quem, aliás, alguns ditadores da moda acusam injustamente de gorda; ela sempre foi muito gostosa), mas também pela dimensão do seu talento. Não é de admirar que DiCaprio não tenha sido indicado ao Oscar por Titanic: a grandeza de Kate em cena faz dele, no máximo, um adolescente com futuro promissor.

Ainda por cima é simpática

Vi quase todos os filmes em que Kate Winslet atuou. Almas Gêmeas, sua estréia no cinema, já nos apresentava um diamante bruto que necessitava ser lapidado. No seu trabalho seguinte, Razão e Sensibilidade, sob direção do experiente Ang Lee, Kate brilhou ao lado da veterana Emma Thompson, e ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante, além de ter sido indicada ao Oscar de mesma categoria. Titanic, de James Cameron, lançou a então quase desconhecida atriz ao estrelato, e lhe valeu outra indicação ao Oscar, desta vez como melhor atriz. Em seguida veio Contos Proibidos do Marquês de Sade, no qual ela interpreta uma serviçal de um manicômio francês, no século XVIII, fascinada pelos dotes de um interno maldito, o Marquês de Sade, vivido pelo sempre ótimo Geoffrey Rush. Seguiram-se outros trabalhos importantes como Íris (pelo qual foi mais uma vez indicado ao Oscar de melhor atriz coadjuvante); A Vida de David Gale, de Alan Parker; Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, no qual fez par com Jim Carrey (outra indicação ao Oscar de melhor atriz); Em Busca da Terra do Nunca, em que contracenou com Johny Depp; e Pecados Íntimos, em que interpreta uma esposa infiel e mãe negligente.

Dá vontade de levar pra casa e botar no colo

Atualmente, Kate pode ser vista (não aqui em Guaratinguetá, claro) em dois filmes em cartaz: O Leitor e Foi Apenas Um Sonho. Ambos lhe valeram, respectivamente, o Globo de Ouro de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante deste ano. Seu trabalho no primeiro pode lhe dar finalmente a estatueta de melhor atriz no Oscar do próximo domingo, e colocá-la de vez no rol das melhores atrizes da nossa época.


Esse olhar fulmina qualquer chimpanzé


De minha parte, só posso dizer que torço para que minha musa continue a fazer filmes interessantes. Se bem que, até nos filmes ruins ou regulares em que atuou (Fogo Sagrado, Enigma, O Amor Não Tira Férias), Kate conseguiu sair ilesa.


A mulher é danada!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

De ex-pecadores e ex-terroristas

Do blog da jornalista Barbara Gancia:

1. E já que o assunto é religião ou a fé embalada para consumo, que tal estas camisetas lançadas pelo Movimento Pela Paixão de Cristo, dos EUA?


Além do modelo acima, existem também as versões “Ex-fornicador”, “Ex-homossexual” e “Ex-Escravo” (?)

Mas é como dizem: todo “ex-masturbador” e “ex-fornicador” deveria ter uma segunda camiseta com a frase “atual mentiroso”...

2. União Européia pede ao Brasil que reconsidere caso Battisti

"O parlamento de Estrasburgo ficou calado até o último minuto, mas acabou passando resolução pedindo ao Brasil que reconsidere o refúgio concedido a Cesare Battisti, levando em conta os acordos bilaterais assinados pela UE e o Brasil.Em nota oficial, a UE afirma que “a sentença emitida pela Itália respeitou os plenos princípios de legalidade que servem de fundamento para a União Européia”.

Digo e repito: na hora em que os amiguinhos tapuias do criminoso italiano perpetraram a burrada, eles não tinham noção do que estava por vir, não é mesmo, eminente jurista Dalmo Dallari?

***
1. Os Estados Unidos são mesmo uma nação incrível. Concentram em seu território desde grupos religiosos ultraconservadores até a maior indústria de pornografia do mundo. Há estados americanos em que as práticas de sexo oral e anal são ilegais. Por outro lado, a cidade de São Francisco, na Califórnia, onde aliás o casamento entre homossexuais é permitido por lei, é a capital mundial dos gays. Se você está a fim de sair do armário e ser feliz sem dar satisfação a ninguém, tem de mudar-se para lá. Ir para Cuba ou para algum país islâmico, nem pensar. Depois não digam que eu não avisei. Se bem que, como li outro dia numa revista, o governo da Indonésia - país com a maior população de muçulmanos do planeta - mandou construir um banheiro para uso exclusivo dos alunos transsexuais em cada escola pública. Uau! E eu que pensava que na Indonésia só havia praias deslumbrantes e dragões-de-komodo. Que nada! Lá também há vida inteligente.

Quanto às camisetas cristãs, será que a moda pegaria no Brasil? E se pegasse, que frase você estamparia na sua camiseta: ex-pecador, ex-petista, ou ex-corintiano?

***
2. Caso Cesari Battisti. Vocês leram a carta de misericórdia que o ex-terrorista divulgou na imprensa brasileira? Quase fiquei com pena dele. Mas continuo achando que ele tem culpa no cartório. E vejam que não sou o único: agora a União Européia pediu que o Brasil devolva Battisti à sua pátria-mãe. Não bastasse o pedido formal do parlamento europeu, o ex-esquerdista perdeu ainda uma importante aliada, a primeira-dama francesa Carla Bruni, a feiosa da foto abaixo. Ela negou recentemente que tenha intercedido a favor de Battisti junto ao governo brasileiro, mas há quem assevere que ela tenha movido uns pauzinhos para garantir o asilo político ao compatriota. A julgar pela influência do maridão da musa na política internacional, o italiano sofreu uma baixa considerável.

Que os ex-masturbadores não vejam esta foto

Mas chega de Cesari Battisti. No momento, as únicas coisas oriundas da Itália que me interessam são o livro-reportagem Gomorra , de Roberto Salviano, e o filme homônimo baseado nele, que (merda! merda! merda!) está em cartaz apenas nas grandes capitais do País.

Marley & Eu o cacete! Eu quero cinema DE VERDADE!

E mais não digo. Até.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Blog é uma merda!

Do blog da escritora Clarah Averbuck:

blog é uma merda. se você não escreve no blog, te mandam emails reclamando do abandono. se está se sentindo mal e escreve no blog, te escrevem reclamando que você reclamou. se você está feliz e escreve no blog, te acusam de só falar de si mesmo. se você cansou de ficar reclamando e ficando feliz publicamente porque causa muito furor e foi trabalhar, dizem que você está negligenciando seus importantíssimos leitores. então você publica um trecho de seu novo livro no blog e ele VIRA UM LIVRO DE BLOG. se você escreveu uma crônica e publicou no blog, ela vira um TEXTO DE BLOG. se você escreve um conto ficcional, ele vira um FATO CUSPIDO E NARRADO EM UM BLOG. depois ainda perguntam por que eu canso. mas aí fico com uma saudadinha de poder publicar a qualquer momento e faço um blog qualquer escondido. leva um tempo até descobrirem e é legal. depois, quando descobrem e começam a achar que o meu email é um SAC, é hora de acabar.

***
Clarah é uma pioneira da blogosfera. Os textos que ela publicou no extinto blog Brazileira Preta serviram de base para seu primeiro livro de ficção, Máquina de Pinball, que por sua vez foi adaptado para o cinema pelo diretor Murilo Salles (Nunca fomos tão felizes, Como nascem os anjos, Seja o que Deus quiser) no ano passado. O resultado pode ser visto em Nome Próprio, filme estrelado pela ótima Leandra Leal - ao qual infelizmente ainda não assisti. (Não ter acesso a produção cultural de qualidade é o que mais me deprime em viver no interior. Eu quero corda pr’eu me enforcar, porra!)

Não dá pra gritar nem fazer birra na internet - graças a Deus! Mas não se morre de tédio? Bem, a meu ver só morre de tédio ou solidão aquele que não tem talento. Se você não acredita em mim, assista a O Escafandro e a Borboleta, o belo filme dirigido por Julian Schnabel. Depois conversamos.

Mas, quase esqueço de concordar com Averbuck, blog é mesmo uma merda. Um conselho de amigo: não cometa o desatino de criar um blog. Porque qualquer chimpanzé pode criar e "alimentar" um blog com todo tipo de bobagem. O difícil é conseguir abandoná-lo depois. Vai por mim.

Cinema Mudo

Eu e meu pai não temos muita coisa em comum. Tirante o fato de que somos muito parecidos fisicamente, são poucos nossos gostos e opiniões convergentes. No tocante a cinema, por exemplo, meu pai não nutre o menor entusiasmo pelos títulos que me apaixonam. Ele prefere os filmes que são esquecidos logo após serem vistos; eu aprecio aqueles que ficam na memória por um bom tempo, gerando reflexão e reacendendo velhos conflitos internos e quase sempre insolúveis.

Quando assistimos a um filme juntos, não é raro que ele se aborreça de saída com o que chama de blablablá insuportável (leia-se a introdução da trama). "Muito falatório pro meu gosto", dispara, ríspido, virando pro outro lado no sofá. Se ninguém é assassinado ou não ocorre um crime instigante nos primeiros vinte minutos da fita, meu pai desiste dela. Conversação em cinema não é com ele. Meu pai - como eu não canso de enfatizar ironicamente - é um amante do cinema mudo.

Mas ele não é o único. A maioria das pessoas que conheço não tem paciência para assistir a filmes que por assim dizer fazem pensar. O que as cativa são os thrillers de ação espertos, daqueles que geram uma saudável (?) taquicardia do começo ao fim, e os dramas de forte apelo emocional. Sem falar nas comédias adolescentes de alto teor escatológico.

Mas, antes que me xinguem de ranzinza, intelectual xiita, ou de desprovido de senso de humor, quero dizer que também gosto de uma boa comédia, de um bom filme de ação, e, em menor grau, de um drama meloso. O que me difere dessas pessoas que mencionei acima é o fato de essa minha disposição para o passatempo cinematográfico ser a exceção, e não a regra. Pois, quando vou ao cinema ou à videolocadora, simplesmente não consigo deixar meu cérebro em casa.

O último dos irmãos Coen

Ontem fui ao cinema assistir a Queime Depois de Ler, o último trabalho dos irmãos Coen. O filme estreou no Brasil em novembro passado, mas, como a rede de cinema aqui do shopping padece de um anacronismo homérico quando o assunto é data de exibição, nós sempre somos os últimos a ver os títulos mais discutidos e badalados do circuito nacional - isso quando eles são exibidos por aqui, o que quase nunca acontece.

Queime Depois de Ler é uma tragicomédia ao melhor estilo dos Coen. Ou seja, um filme para fãs. Acontece que o cinema daqui mantém uma promoção para atrair público na segunda-feira, dia em o ingresso custa R$5,00 (inteira) e R$2,50 (meia). E como há muita gente de férias agora em janeiro, as salas costumam estar lotadas nas segundas e nas quartas-feiras. A sessão em que assisti ao filme dos Coen não estava lotada; havia umas trinta pessoas na sala; mas pelo menos dois terços delas se decepcionaram com Queime Depois de Ler.

Isso porque certamente nunca ouviram falar nos irmãos Coen e só compraram o ingresso para ver Brad Pitt e George Clooney em cena. Até aí tudo bem. O problema é que neste filme Pitt interpreta um personal trainer idiota que perto do final da história leva um tiro na testa, e Clooney vive um ex-policial cafajeste e não menos aloprado que dá o tiro na testa de Pitt.

Ouvi uma série de comentários desolados de expectadores medianos que não entenderam bulhufas do filme e por isso mesmo não se divertiram como eu me diverti. Os mais comuns foram: "Não tem pé nem cabeça"; "Não tem trilha sonora"; "A história é ridícula"; "Perdi meu tempo"; "Joguei dinheiro fora" etc. Paciência. É óbvio que essa gente que faz fila para assistir à sequência de Se eu fosse você não vai gostar do filme dos Coen. Mas, por outro lado, é ótimo e indispensável que vejam o filme de Daniel Filho. Porque se o exibidor não lucrar com esses títulos populares, nem cogitará de colocar em cartaz filmes alternativos como Queime Depois de Ler, Juno, Sweeney Todd, Brokeback Mountain, Possuídos, Encarnação do Demônio, O Labirinto do Fauno, aos quais assisti no cinema daqui.