segunda-feira, 22 de junho de 2009

Correspondência

No dia 18 de Junho de 2009, meu amigo F. escreveu:

Bruno,

Como vai de emprego novo? Você deu uma sumida, ou será que fui eu? Ainda não tive tempo de imprimir o seu livro para ler. Gosto de papel. Mas quero ler tão logo eu consiga respirar um pouco.

Aliás, eu terminei o meu livro (uma pequena coletânea de contos) e gostaria que você lesse. O que acha?

Abraços,

F.

Cerca de quatro horas depois, eu respondi:


Caro F.,

não foi você quem sumiu, fui eu. E o motivo tem a ver com o fato de eu ainda estar me adaptando à nova rotina, que inclui menos horas de sono diárias, menos tempo para leitura (e para a escrita, por conseguinte), para cinema, internet, tevê, passeio, namoro, para pensar na morte do bezerro - em vez de pensar na nossa; e mais responsabilidade, compromisso, enfim, uma legítima "vida adulta."

Até publiquei um postezinho - como diria João Ubaldo Ribeiro, cujo "Sorriso do Lagarto" estou lendo - sobre esse assunto lá no meu blog / burgo.

Ando meio broxa pra literatura, digo, pra criação literária. Nunca pensei que fosse sentir uma espécie de saudade do período em que trabalhei no... romance, vá lá. Naquela época, embora o estigma do desemprego me vexasse e privasse de muitas coisas, eu sentia, agora percebo, um prazer enorme em dedicar algumas horas por dia a um ofício inútil, contraproducente, e tributário da loucura. Num dado momento, fui acometido de um estranho, porém agradável, sentido de dever, como se concluir o livro fosse a missão que justificasse minha existência.

Admito que esse negócio de predestinação é piegas e cafona como o quê. Mas eu fui de fato tomado por esse sentimento quase místico, que, a bem da verdade, não se traduziu em grande literatura - e sim, no máximo, num texto razoavelmente bem estruturado e irregular.

(O emissor da crítica acima é o autor do livro. Portanto, favor desconsiderá-la.)

Contudo, quero deixar claro ao amigo que não estou me queixando - longe de mim. Como cantou o grande poeta e filósofo Zeca Pagodinha, para mim a coisa mais feia é gente que vive chorando de barriga cheia.

A vida, confessou-me um garçom certa noite num boteco fantasma, tem de ser cortada em cubos e servida à milanesa para consumo próprio e geral.

Abraços bêbados,

Bruno.

Ps - Será um prazer (e uma honra) ler sua coletânea de contos. Pode mandar!

E então a vida seguiu seu curso natural, tangida pela irretroatividade do tempo.

***

Espero que F. não fique chateado por eu ter publicado parte de nossa correspondência on-line aqui, pois o fiz com a melhor das intenções.

Como prova do respeito que devoto à nossa amizade, deixo o vídeo com essa magnífica interpretação de Chopin:

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