domingo, 11 de julho de 2010

Viver é bom

Mais um email que não encontrou resposta. Onde andará meu velho amigo?

Caro Alexandre,

Há tempos tenho ensaiado um contato, mas por algum motivo, geralmente fútil e pedestre, esse gesto não se concretiza. Não faltam oportunidades; elas estão sempre aí, por mais que as desperdicemos. E como o fim de ano é um grande pretexto para reatar laços (de amizade, de admiração, de respeito etc.) frouxos ou estropiados, resolvi me sentar e escrever - atitude da qual alguém com ambições semelhantes às minhas nunca deveria prescindir.

Talvez o amigo não tenha recebido o último email que enviei, pois não obtive retorno. Ou talvez essa mensagem tenha perecido frente à quantidade de ocupações e preocupações que nos consomem dia a dia. Não importa. Março já vai longe no retrovisor e devemos manter nossa atenção na estrada longa e sinuosa que aos poucos se desenha à nossa frente.

Às vezes algum conhecido comum me pergunta de você e eu não sei o que responder. Dia desses estive com o Paulão no shopping e ele me pediu notícias da “turma”. O Paulão, aliás, continua o mesmo. Quem também sempre me pergunta de você é a Bianca, quando conversamos pela internet. Outro dia pensei tê-lo visto passar de carro pela avenida João Pessoa, à altura da Câmara Municipal, mas acho que me equivoquei. Assim como quase cumprimentei um careca nas Lojas Americanas, pensando que era o nosso querido Nenê.

Mas então: como andam as coisas? Está bem de saúde? Continua trabalhando no Fórum? Ainda morando no Rony? Pensei em te ligar, mas perdi seu número. Não é a primeira vez que isso acontece, eu sei, mas ser distraído é parte da minha natureza. Tal qual o Paulão, eu acho que continuo o mesmo. A bem da verdade, estou bem mais calvo, como não poderia deixar de ser, a menos que eu tivesse recorrido a um implante capilar. Ah, agora não pertenço mais à classe dos desempregados; figuro noutra linha estatística: a dos “jovens que conseguiram o primeiro emprego”. Estou trabalhando numa financeira há seis meses. Acordo cedo, dou graças aos deuses que me vêm à memória por mais uma noite mal dormida, me arrumo, e vou trabalhar, resignadamente. Não é tão ruim.

Pra variar, já me alonguei demais para os padrões de um email. Um dia eu aprendo. Melhor ir me despedindo, porque ainda tenho de tomar banho, jantar, ver um pouco de televisão, ler dez ou quinze páginas do livro que me acompanha no momento, e ir dormir. Nós dois sabemos que amanhã tem mais.

Espero que este texto tenha melhor sorte que o anterior e alcance o amigo. Tomara que eu consiga mandar um salve para o Alexandre.

Grande abraço! E até a volta.

Dezembro de 2009
* * *
Para os amigos que partiram, para os amigos presentes, e para os que ainda virão.



terça-feira, 6 de julho de 2010

Para não esquecer

Nasci em 1984, em pleno processo de abertura política, de redemocratização. Não vivi, portanto, os chamados “anos de chumbo” da ditadura, mas nem por isso tenho uma visão romântica do período. Todo o material que li, ouvi, e vi a respeito da “revolução” de 1964 é suficiente para que eu não incorra na leviandade de acreditar que a repressão político-ideológica por parte do governo da época tenha sido branda. Não foi. Está documentado. Nosso regime pode até não ter sido tão mortal quanto o foram o argentino e o chileno, mas foi violento, torturou, matou, deixou graves seqüelas.

Por isso é fundamental a criação de livros, filmes, museus etc. sobre as nossas “tragédias históricas”. Para que não as esqueçamos. Para que não se repitam jamais.

***

No livro Meu Querido Vlado (editora Objetiva), o jornalista Paulo Markun narra sua experiência como preso político e as circunstâncias que envolveram a prisão e a morte de seu amigo, o também jornalista Vladmir Herzog.

Há no livro trechos de depoimentos de outros presos políticos e de documentos oficiais da época que comprovam a brutalidade do regime.

A seguir, dois documentos extraídos do livro: uma recomendação de um chefe do Doi-Codi paulistano para tratamento de um preso, e o relato desse mesmo preso sobre as máquinas de aplicar choque utilizadas pelos militares.

Tratamento de Marco Antônio T. Coelho. Proibição de usar roupas, colchão, coberta, proibição de fumar e ler jornais; só pode tomar o café-da-manhã (pão e um caneco de café com leite) e uma colher de arroz no almoço e outra no jantar; só pode beber um caneco de água por dia (duas vezes, um caneco pela metade); deverá ser interrogado das nove da manhã até sete horas da manhã do dia seguinte, sem interrupção. Essa é uma determinação para as turmas A, B e C, a fim de quebrar a pretensa superioridade intelectual e cultural desse elemento.
***
Quando lá passei existiam três dessas máquinas. Elas são armadas em caixas de madeira, mais ou menos toscas. A menor, a que chamam de “pimentinha”, foi pintada de vermelho; outra chamam de “brochômetro” e outra tem um dizer gravado – “saudações revolucionárias”. Às vezes ligam em série duas ou três dessas máquinas ao mesmo tempo. No principio, os fios são ligados nas mãos e / ou nos pés; depois passam para o pênis; em seguida “evoluem” para os tímpanos e a boca.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

*Alguma coisa urgentemente

Sabe aquela sensação de que seu organismo, sua mente, seus anseios, seus medos, sua rotina estão te matando aos poucos? Uma sensação de sufocação que nos leva gradativamente ao desespero. Então...

Tudo bem, eu já esperava que você fosse objetar que qualquer pessoa, bem ou mal de saúde, satisfeita ou insatisfeita com sua vida, está morrendo aos poucos. Mas ocorre que a ansiedade gerada pelo descontentamento acelera o processo de envelhecimento e compromete a saúde de modo geral. (Não fui eu que descobri isso; consulte a literatura médica, ou o Google, tanto faz.) E era exatamente esse ponto que eu queria ressaltar.

Pena que seja tarde demais. Como foi que cheguei a essa conclusão? Não precisa ser nenhum gênio para saber. Você simplesmente acorda agitado no meio da noite e descobre que é tarde demais; que as coisas estão perigosamente distantes do ideal, e que por mais que você corra, jamais alcançará aquele bonde chamado satisfação, plenitude, maturidade.

(Puta que pariu! E não é que estou escrevendo igual à Lya Luft? Deve ser resultado de mandinga dos meus desafetos – que são poucos, graças a Deus.)

A juventude é uma mulher fatal. Um vírus incubado que pode se manifestar abruptamente caso você se torne um deslumbrado ou adquira o mau hábito de chorar com pena de si mesmo. Num dia você se sente apto a levantar os mais pesados halteres e a dirigir bêbado e em alta velocidade na contramão, e no outro você se descobre mais humano, matutando, algo acovardado, a respeito do seu futuro que se anuncia inglório. Eu queria ser muito mais, mas acabei me transformando nisso! E o pior é que a culpa não é dos meus pais, nem dos sucessivos governos corruptos e ineficientes, ou do pé na bunda que levei na oitava série. A culpa é minha e sua, porra!

Ouvir aquela velha canção do Bob Dylan te faz relembrar os amigos que se foram, os vivos e os mortos. Pequenas madeleines embebidas em cerveja preta suscitam mergulhos existenciais e engendram maremotos de melancolia. A recorrência e o apelo da infância são sempre um bom conhaque para noites frias e inóspitas. Mas talvez a estratégia mais eficaz para combater os dissabores do presente seja se apegar às pequenas conquistas, às virtudes incontestes que persistem mesmo na adversidade. E então gozar por um instante de uma felicidade “por assim dizer sem motivo”, como diria Clarisse.

É possível que você tenha lido os livros errados. Como é mesmo que se faz para viver um grande amor, seu Vinicius? Talvez esteja na hora de aderir definitivamente à “onda verde” e reciclar seus valores. Se você foi desmamado cedo demais, se descobriu precocemente que seu pai é um imbecil (e que você não é muito melhor que ele), se foi vítima de bullying, se em algum momento se sentiu confortável nadando neste caldo azedo de cultura em constante ebulição que banha desde Nova Iorque até o “cu do mundo”, se vive impelido a fazer alguma coisa urgentemente para não “desperdiçar sua vida” - e se, por fim, você passar a descrer da humanidade, com agá minúsculo ou maiúsculo, saiba que você não está só. Pulsos cortados, jorrando sangue, e um marmanjo dependurado numa corda atada ao pescoço podem até ser imagens românticas e, é preciso admitir, sedutoras, mas o apelo do suicídio nos é mais útil se encarado como “sopro de vida” (Clarisse de novo).

Bem, eu e você queremos crer quê, não?

* O título é o mesmo de um excelente conto do escritor João Gilberto Noll.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Olhos de Chimpanzé

Tive que postar na íntegra esse artigo do Luiz Felipe Pondé, que saiu na Folha de S. Paulo de ontem. Leiam e entendam por quê.

Os olhos do macaco

VOCÊ JÁ OLHOU nos olhos de um chimpanzé? Da próxima que for a um zoológico, faça isso. Você perceberá que ali existe uma alma presa como a sua. Seus olhos carregam um misto de espanto e tristeza que só humanos conhecem, que parece brotar de excesso de sensibilidade.

Sim, simpatizo com o darwinismo. Mas nem por isso sou ateu. Tampouco tem razão o grande filósofo Daniel Dennett, cujos livros devoro e a quem admiro na sua luta para combater a velha covardia humana travestida de fé, quando supõe que qualquer relação entre darwinismo e tradição monoteísta ocidental implica medo do ateísmo.

Não tento "casar" o darwinismo com qualquer "prova" da existência de Deus. Provar a existência de Deus me dá sono, nem acho possível prová-la. Como não levo a razão tão a sério, não temo suas incoerências.

Pelo contrário, minha simpatia está sempre contra as certezas da razão. Penso, sim, que não há nenhuma grande coerência na vida, nem uma narrativa única. Uma vida dilacerada entre narrativas contrárias me parece sempre mais sólida.

O conforto da certeza me entedia. Sou da velha escola: o sofrimento é que molda o caráter.

O darwinismo me comove, assim como Shakespeare. Quando ouço Macbeth dizer "a vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada", eu penso na luta cega de nossos ancestrais cuja humanidade foi cozida em sangue. E isso me comove.Converti-me ao darwinismo desde criança, ao ver aqueles desenhos nos quais imagens de hominídeos vão paulatinamente virando imagens de homens.

Mais tarde, quando não era não mais criança, convenci-me da verdade do darwinismo quando me vi diante das análises do comportamento humano produzidas pela psicologia evolucionista.

Não creio nas teorias que afirmam a construção social dos comportamentos, apesar de que algum grau de influência social em nosso comportamento obviamente existe.Prefiro a ideia de comportamento como destino, maldição. Mas minha relação com o darwinismo sempre foi mais estética do que um mero convencimento racional.

O que primeiro me cativou no darwinismo foi a descrição da origem do ser humano como uma saga contra um meio ambiente terrível e contra os horrores de nossa própria "alma" pré-humana.

A solidão dos nossos ancestrais combatendo os elementos externos e internos me parece uma ode à beleza humana, arrancada da indiferença das pedras.

A escuridão e a solidão do universo me encantam. Pensar que homens e mulheres são areia que um dia tomou consciência de si mesma e de sua solidão me parece um épico que canta nossa dignidade visceral.

A dignidade que só cabe aos desgraçados. Reconheço essa dignidade nos olhos do macaco: a dignidade da testemunha assombrada.

O horror de nosso passado, para mim, sempre foi motivo de orgulho. Sim, vejo o darwinismo como um drama cósmico do qual temos o privilégio de ser testemunhas assombradas. Sim, repito, a humanidade dos humanos foi cozida em sangue, uma pérola numa imensa massa cega de matéria.

Os ateus não deixam de ter razão quando apontam o pânico que muitas pessoas têm diante de descrições da vida como a darwinista. O filósofo Nietzsche (século 19) chama esse pânico de ressentimento. Daí nasceriam as bobagens platônicas e cristãs acerca de um outro mundo onde não haveria sofrimento.Mas o ressentimento de gente como Platão ou cristãos não é nada se comparado ao ridículo de algumas crenças atuais, mas que respondem ao mesmo pânico.

Por exemplo, pensemos na crença em "energias". Que os deuses me protejam de cair um dia no ridículo de "acreditar em energias". Odeio a palavra "energia". Energia isso, energia aquilo, hoje em dia qualquer um usa a palavra "energia" para seus delírios religiosos de consumo.

Digo sempre: quer uma religião? Procure uma de, no mínimo mil anos de existência, e preferivelmente que não tenha passado pela Califórnia ou pela física quântica.Seu sofá está sobre um cano de água? Humm, más energias. Você tem um câncer? Precisa "limpar" as más energias. O tratamento energético não te curou? Ahhh, você não estava preparado, precisa abrir sua mente. Ovos têm energia, alfaces têm energia, o azul da parede tem energia. As energias vão resolver o conflito israelo-palestino. As energias vão parar teu envelhecimento.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Escrever: velhos esboços

Encontrei essas notas avulsas em velhas cadernetas e resolvi publicá-las aqui. Com exceção de um ou outro pensamento tolo, e de algumas platitudes dispensáveis, não me envergonho dessas linhas. Elas são um testemunho da minha “adolescência estrangulada”, e um prelúdio do que seria o início da minha vida adulta.

“Escrevo. E ao fazê-lo é como se reconstituísse os filamentos de meu coração doente”.
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“O ato de escrever é essencialmente um ato solitário, e isso, de certo modo, agride as pessoas. Não as culpo. Pelo contrário. Encaro sua hostilidade com ares de resignação. Afinal de contas, ninguém é obrigado a aceitar a loucura dos outros. Eu mesmo às vezes me pego olhando para uma atividade alheia de modo preconceituoso, sem que a pessoa em questão tenha feito algo de ruim para me atingir. Portanto não posso ser agressivo com quem não suporta me ver escrevendo. Escrever é nadar contra a maré, e quando se nada contra a maré, há sempre alguém disposto a nos fazer voltar atrás – a impedir que nos afoguemos”.

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“Hoje, enquanto esperava pela chegada de pães frescos no supermercado, pensei em como não sou uma pessoa difícil, mas como também não sou fácil. Sou raso de tão profundo. É isso! Ou melhor: De tão profundo, chego a ser raso. Sei lá! Dá na mesma! Tudo o que eu escrever aqui deporá contra mim mais tarde. Portanto tenho de tomar cuidado. Mas não pretendo bancar o covarde. Minha cabeça funciona sem parar – a mil por hora, para empregar um clichê. (Vou fechar a janela porque os pernilongos estão invadindo o quarto.) Pronto. Eu dizia que sou raso de tão profundo, e que meus pensamentos me obsedam. Principalmente meu medo da morte. A sensação de que a morte me cerca causa-me pavor. Vou usar de outro chavão gigantesco: Sou jovem demais pra morrer velho. Ou seria o contrário? E escrever? Escrever é viver, ou é uma maneira bem estúpida de fugir à vida? Eu sinceramente não sei. Só sei que preciso me manter atento, para não me calar de uma vez por todas. Isso seria muito ruim. Também preciso cuidar para não me viciar em diários. Diários me assustam. Diários me parecem invariavelmente um ato desesperado. Morte aos diários!”
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“Tenho escrito algumas linhas bobocas no computador e esporadicamente a lápis, em papéis avulsos. Ora delas resultam contos, ora lamentos quase insuportáveis, de tão melancólicos. Alguns escritos eu tenho preservado para análise posterior, as quais me permitirão saber se de fato o que escrevi é aproveitável ou simplesmente um lixo completo. Se bem que até hoje não possuo juízo formado sobre contos que escrevi há três, quatro anos atrás. (Aliás, a expressão “há tantos anos atrás” me parece caracterizar um pleonasmo, mas uso-a assim mesmo, pois às vezes ela se faz necessária para dar ênfase à passagem do tempo).

Encher uma página de palavras sempre me dá prazer, ainda que o texto seja uma porcaria. Esse vício, contudo, é extremamente prejudicial a qualquer pessoa que queira escrever bem, pois ajuda a tornar o redator mais relapso e, conseqüentemente, menos criterioso com seus próprios escritos.

Eu também já escrevi em outro lugar que a pior parte do trabalho de um escritor é reler o que escreveu. Isso pode destruir carreiras se o sujeito não possuir o mínimo de jogo de cintura. Tenho feito o seguinte: procuro não ler um texto imediatamente após sua composição, para me preservar de uma eventual “depressão pós-parto”. Isso geralmente funciona, a não ser que o texto seja deveras ruim. Então só volto a minha cria horas, dias, ou semanas depois, sempre lutando contra um impulso natural de querer retomar o fruto engendrado o mais rápido possível. Essa luta é também contra minha ansiedade crônica, que me prejudica até quando estou em pleno processo criativo. Levando isso em conta, acredito que a ansiedade não me auxilia em absolutamente nada, muito menos quando estou compondo um texto literário - ao contrário do que afirmei em um de meus relatos de há não muitos dias”.

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“Clarisse Lispector dizia que nunca relia seus textos depois de prontos, pois quando o fazia sempre sentia nojo; nunca achava que estava bom. Mas eu não sou Clarisse Lispector. Não há comparação possível. Clarisse era um talento nato e irrefreável. Por mais que lhe colocassem amarras, ela continuava a criar maravilhosamente. Já eu duvido do meu talento diariamente. Tenho medo de dar com os burros n’água, e quem tem medo não consegue escrever – a própria Clarisse repetia isso aos jovens escritores que lhe pediam uma opinião a respeito do trabalho deles. Com medo não há literatura. Literatura alguma brota no campo infértil do medo. É preciso libertar-se dos próprios medos e limitações de quaisquer espécies para poder fazer boa literatura. E eu não sei se estou preparado para isso. Escrever sobre a incapacidade de escrever também não me interessa. Muitos grandes autores já o fizeram com maestria. John Fante, com “Pergunte ao Pó”, e Fernando Sabino, com “O Encontro Marcado”, para citar dois exemplos totalmente díspares. Se bem que boa parte da Literatura é composta de reiteração, de releituras e de intertextualidade. Enfim, Literatura é conhecimento ao contrário – é chão repisado sem propósito”.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Algumas cinematográficas III


O Livro de Eli – Mais um filme em que um “cavaleiro solitário” vaga por uma terra devastada em busca de vestígios de civilização. Denzel Washinton é o paladino da vez. Durão e justo, ele avisa seus adversários dos perigos que correm ao desafiá-lo. Em vão, obviamente. Os malfeitores que cruzam seu caminho são massacrados, e tudo é filmado de maneira bastante estilizada (leia-se pouco inventiva) pela dupla de diretores, os Irmãos Hughes – responsáveis pelo interessante Do Inferno.

Denzel / Eli carrega consigo o último exemplar da Bíblia Sagrada, que por sua vez é cobiçado pelo vilão interpretado por Gary Oldman. Este acredita que o livro possui poderes que lhe permitiriam controlar as pessoas, e então encarrega seus capangas de roubá-lo. Mas a tarefa se mostra mais complicada do que ele supunha. Eli é um tipo de messias disposto a tudo para preservar o livro em cujas páginas estão as diretrizes para uma vida boa e justa. E, como em todo filme de ação que se preze, ele encontra uma partner jovem, bela e rebelde, que o ajudará a chegar ao povoado em que as lições da Bíblia poderão ser passadas adiante.

Pode-se fazer várias leituras do filme. É possível considerá-lo tanto uma crítica ao fanatismo religioso quanto apologia ao cristianismo. Me pareceu extremamente conservador. Algo como: só existe salvação em Cristo. (Para tornar a sessão suportável, encarei o enredo genericamente como um elogio da leitura, do conhecimento.) E por mais que os diretores tenham tentado dar uma roupagem cool ao filme, tudo resulta muito cafona.
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Chico Xavier – A tão alardeada cinebiografia do médium mais famoso do Brasil chegou às telas do cinema e tem atraído um grande número de espectadores. O fato é que Daniel Filho, diretor do filme, não deve estar surpreso com o bom desempenho de Chico Xavier nas bilheterias, uma vez que se trata de um projeto meticulosamente calculado para o sucesso comercial. Um personagem carismático. Um roteiro bem amarrado. Atores da TV Globo. Emoção e humor “na dose certa”. Elementos presentes no filme de Daniel Filho – e praticamente a norma que rege quase a totalidade das fitas da Globo Filmes.

O que se vê durante as duas horas de duração do longa é basicamente uma hagiografia. Em menino, Chico sofria com as visões e as vozes do além a que apenas ele tinha acesso. Já na adolescência, o surgimento de seu “guia espiritual”, Emmanuel, lhe dá certo conforto e o prepara para a completa aceitação de sua sina: ajudar ao próximo. Cônscio de seus “poderes”, Chico passa a usá-los para, por exemplo, exorcizar demônios e psicografar mensagens de mortos famosos e anônimos. Logo a fama do médium corre o mundo. Ele passa a atender a pessoas vindas das mais variadas regiões, o que atrai a atenção da imprensa e gera investigações sobre a autenticidade de seus poderes paranormais.

A maioria das cenas que mostram o protagonista na velhice se passa num programa de entrevista que serve de base para todo o roteiro. Nelas, brilham as figuras de Tony Ramos, o diretor de TV, e Nelson Xavier, o intérprete do Chico idoso.

Ao final, resta a sensação de ter assistido a uma dramatização de programa jornalístico, como aquelas do extinto Linha Direta da TV Globo. Produção caprichada, interpretações esmeradas, roteiro ok. Ou seja, nada memorável.
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Ilha do Medo – Adaptação do romance Paciente 67, do americano Dennis Lehane, por um dos maiores cineastas vivos dos EUA: Martin Scorsese. Mais uma vez, é Leonardo DiCaprio quem interpreta o protagonista, um detetive federal que, juntamente com seu parceiro, Mark Ruffalo, é incumbido de investigar o desaparecimento de uma paciente de um manicômio situado numa ilha em Boston, a Shutter Island. Ocorre que, o que poderia resultar num suspense convencional, se torna algo bem mais interessante graças à genialidade de Scorsese, artista que domina como poucos as técnicas cinematográficas e conhece profundamente a história do cinema. Temos então um thriller psicológico em que a veracidade das imagens é sempre dúbia, em que realidade e sonho se confundem, e onde as identidades são sempre imprecisas, mutáveis.

Todo o elenco está muito bem. Destaque para as atuações de Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Max von Sydow e Jackie Earle Haley.
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Como Treinar o Seu Dragão – Um garoto desengonçado chamado Soluço vive numa vila de vikings. Seu pai é um grande guerreio e líder da comunidade. A maior ameaça à prosperidade da vila são os dragões, que vivem realizando ataques surpresas que se desdobram em grandes batalhas. A falta de talento para a guerra faz com que Soluço seja motivo de chacota entre os habitantes da vila, para decepção de seu pai. Isso só muda quando o garoto captura um “Fúria da Noite”, espécie de dragão mais temida pelos vikings, e aprende a como domá-lo.

Soluço passa a aplicar as técnicas aprendidas na convivência com o Fúria da Noite Banguela nos treinamentos nas aulas de combate a dragões da escola viking. Isso faz com que ele conquiste o respeito da comunidade e seja visto como um futuro grande guerreiro. O maior desafio de Soluço será convencer a todos de que os dragões não são seres malignos, e que a convivência entre eles e os humanos pode ser pacífica.

É esse o entrecho da última e bem-sucedida animação da Dremworks. Com esse argumento inspirado no livro homônimo de Cressida Crowell, os diretores Chris Sanders e Dean Deblois criaram um filme terno, engraçado, e com ótimas cenas de aventura. É mais um acerto dos produtores da Dremworks, que a cada filme tenta superar - ou ao menos igualar – a excelência criativa da Pixar, sua maior rival.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Entrevista de Lula na Band


O programa Canal Livre, da Band, exibiu ontem à noite uma entrevista exclusiva com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A conversa ocorreu em Brasília, no Palácio do Planalto, o que favoreceu muito o entrevistado. Se o encontro tivesse ocorrido em “território neutro”, talvez os jornalistas Joelmir Betting, Fernando Mitre, José Luiz Datena, Boris Casoy e Antonio Telles não tivessem se mostrado tão timoratos diante de um Lula seguro de si e articulado como nunca.

Mas, justiça seja feita, os entrevistadores bem que tentaram “cutucar” o presidente e extrair dele revelações sobre assuntos espinhosos - mensalão, censura, reformas várias etc. Entretanto, bom político que é, Lula soube escapar a todas as investidas, e ainda por cima reverteu alguns fatos a seu favor.

Como de costume, Lula colocou a culpa de muitos tropeços de seu governo em terceiros. Disse, por exemplo, que a reforma trabalhista só não aconteceu porque os setores interessados não chegaram a um acordo. Quanto às tentativas de controle da imprensa por parte de governistas, Lula objetou que, se houve propostas nesse sentido, elas surgiram de debates democráticos entre algumas associações de jornalistas, e que ele próprio acredita que os únicos atores que podem regular a imprensa são os telespectadores, leitores, e ouvintes.

Sobre a candidata do PT à presidência da República, Dilma Roussef, Lula afirmou que o fato de ela estar concorrendo é uma vitória da democracia, e que a ex-ministra vai surpreender nessas eleições. Aliás, a palavra democracia foi uma das mais citadas pelo presidente, que declarou não ter sequer cogitado a possibilidade de pleitear um terceiro mandato porque “com a democracia não se brinca”. Segundo Lula, esta foi uma das muitas convicções que ele adquiriu ao longo de sua trajetória. Outra afirmação acertada do presidente foi a de que a população brasileira jamais aceitaria qualquer tentativa de agressão à nossa democracia conquistada a duras penas e finalmente consolidada. Tal asserção não causaria nenhum tipo de estranhamento se não viesse de um político que apóia (e se diz amigo) de líderes totalmente antidemocráticos como Fildel Castro, Hugo Chávez, e Mahmud Ahmadinejad.

Essa pode não ter sido a “entrevista dos meus sonhos” com o nosso presidente, mas com certeza foi uma boa entrevista. Sobretudo porque Lula demonstrou que amadureceu bastante nesses oito anos de governo – apesar de ainda ostentar certa arrogância e megalomania.