domingo, 1 de fevereiro de 2009

O improvável colóquio entre um chimpanzé e uma barata – Parte II


O modo com que me ignorava veementemente fazia daquele pequeno inseto ortóptero da família dos blatídeos (pesquisei no dicionário) um dissimulado de marca maior. Suas anteninhas inquietas agora se movimentavam em várias direções; estava completamente absorvida pela leitura de Nabokov, não por acaso seu escritor predileto, como vim a descobrir mais tarde.

Cansado de ser ignorado, resolvo tentar maneiras mais hostis de aproximação:

- Você vai sair daí ou vou ter de sujar meus livros com a gosma branca das suas tripas?

E eis que ela rompe o silêncio:

- Você poderia sair de frente da luz, por favor? Está fazendo sombra.

Decepção. Esperava uma reação igualmente violenta e recebi um pedido cortês. Quem essa baratinha pensa que é? Querendo atribuir a mim a pecha de chato... Muito astuto da parte dela. Penso em empunhar um chinelo ou uma vassoura, mas desisto assim que ela me dirige a palavra pela segunda vez:

- Ah, nada como uma boa prosa para preencher o vazio dos dias chuvosos!

- Se você me der licença, eu gostaria de continuar organizando os livros. Não tenho nada contra as baratas; acho-as um pouco nojentas, insistentes, urbanas demais pro meu gosto, mas não tenho ojeriza ou fobia à sua classe. Só não gosto quando vocês se intrometem na nossa vida como está acontecendo agora. Portanto, para não reforçar ainda mais o mau juízo que faço da sua espécie, você poderia sair de cima dos meus livros?

- Era só isso? Por que você não disse antes? – e saltou da pilha de livros pousando suavemente no piso frio.

Ergueu-se sobre duas patas e me encarou com um ar circunspeto:

- Acho que nós ainda não fomos apresentados. Moro aqui há pouco tempo e, como a leitura toma quase todo o meu dia, não tive a chance de tomar conhecimento dos vizinhos.

- Entendo. Meu nome é Bruno, tenho 24 anos, e moro nesta casa há pelo menos quinze. E você?

- Eu não tenho nome. Tampouco sei minha idade. E vivo na sua biblioteca há mais ou menos seis semanas.

- E você só fez ler nessas seis semanas! O que tem lido?

- Um pouco de tudo. Agora, como você pode ver, estou relendo Lolita, a obra-prima de Vladimir Nabokov. Sempre volto a esse livro. É parte importante da minha formação como leitor. Também reli Cem Anos de Solidão. Aliás, aqui entre nós, adoro esse romance.

- Então você é uma barata macho?

- E solteiro. Não nasci para o casamento, sabe?

Sua astúcia me cativa. Então me sento de pernas cruzadas no chão frio à sua frente:

- Você nunca sai de dentro do armário?, digo, e só me dou conta da dubiedade da pergunta instantes depois.

- Claro que sim. Mas só à noite, quando todos estão dormindo. Aí saio à cata de restos de comida, migalhas, e outras porcarias que vocês derrubam nos cantos da casa.

- E os noticiários, você tem acompanhado?

- É um hábito do qual não consigo abrir mão. Mas, ao contrário dos humanos, eu tenho mais interesse pelas notícias velhas. Gosto de ser sempre o último a saber - o que não quer dizer que eu saiba menos que você ou outra pessoa qualquer.

- O que acha do caso Cesari Battisti?

- Bem, não tenho uma opinião definitiva a respeito, mas me parece que o governo brasileiro está metendo os pés pelas mãos. Não respeitar a decisão de um país democrático como a Itália é um disparate. Mas, em matéria de disparates, este governo é pródigo.

- Com um time de assessores do naipe de Marco Aurélio Garcia, não é de admirar que a produção de patuscadas seja constante.

- Concordo. Já vivi o bastante para poder afirmar com categoria: jamais vi semelhante asno à frente de um cargo tão importante no governo.

Aquele ortóptero intelectual era realmente um pândego, no melhor estilo Diogo Mainardi. Agradeci aos céus (e aos esgotos) por terem enviado criaturinha tão arguta para estagiar em minha modesta biblioteca.

Não consegui me furtar a lhe pedir mais conselhos e opiniões:

- Quais suas expectativas em relação a Barack Obama?

- Olha, sinceramente, não agüento mais falar desse assunto. Na condição de inseto abjeto, torço para que o mundo fique cada vez mais infecto, e espero que Obama consiga a seguinte proeza: tornar o mundo melhor para os humanos e, ao mesmo tempo, mais deplorável para nós, baratas. Abaixo a higiene!

- Não creio que ele disponha de meios para realizar semelhante façanha. Mas, em todo caso, gosto de pensar que ele se sairá bem.

A baratinha pôs-se a fazer circunvoluções em torno das pilhas de livros, numa clara demonstração de impaciência.

- Uma última coisa: Você é o autor das páginas avulsas que encontrei outro dia no meio dumas revistas velhas? – perguntou.

- Isso. Trata-se de rascunhos de um livro que terminei no ano passado e que enviei para um concurso. Não me orgulho muito dele. É pouco provável que ele seja premiado.

- Convém não alimentar falsas esperanças – disse, debochado. Se isso lhe servir de consolo, já li coisas piores.

De repente minha mãe entrou no quarto portando uma vassoura. Uma funérea coincidência.

- Mãe, você pode me emprestar a vassoura um instante?

sábado, 31 de janeiro de 2009

O improvável colóquio entre um chimpanzé e uma barata – Parte I


Minha mãe possui o irritante (porém saudável) hábito de trocar os móveis de lugar de tempo em tempo. Ontem, enquanto eu tentava escrever o sacrossanto post diário para este blog, ela invadiu meu quarto e começou a esvaziar o guarda-roupa. Atirou roupas, sapatos, livros, apostilas, DVDs etc. sobre a cama; pôs-se a varrer os cantos, vãos e reentrâncias do piso, debaixo da cama, do beliche, varreu e passou pano até nas paredes e no teto. E eu, sentindo-me cada vez mais coagido, não conseguia escrever uma linha inteligível sequer. Então pensei: ela pensa que estou sentado aqui de brincadeira (o que não chega a ser uma total inverdade), gastando tempo e dinheiro à toa. Não sabe que isto é um verdadeiro sacerdócio, e que toda manhã (lá pelas duas, três da tarde), após a toalete de praxe, visto meu traje episcopal, preparo uma xícara de café e venho para diante desta telinha a fim de produzir um texto (crônica, conto, comentário, poemeto ou quejandos); dar um alô pros amigos próximos e pros distantes, pros desconhecidos do hemisfério sul e do norte, pros habitantes da Terra e pros extraterrestres... aquele abraço!; compartilhar minha solidão enfim? Bem, acho que ela não faz ideia. Como todas as mães, ela só quer que o filho seja ALGUÉM na vida – e um chimpanzé que passa boa parte do dia em frente ao computador não é exatamente um modelo de pessoa bem-sucedida.

Mas minha mãe varria o quarto. Enquanto isso eu misturava alhos com bugalhos e me envergonhava do resultado. Lá pelas tantas, ela pediu que eu pelo menos – e esse pelo menos vinha eivado de ressentimento e ironia da boa - organizasse meus livros e DVDs no novo compartimento que ela reservara para eles no guarda-roupa. Fechei com ela e, assim que acabei de redigir o post, comecei a me ocupar das cinco pilhas de volumes de literatura, gramática, filosofia, matemática, entre outros, que fediam a mofo. Pobres dos meus livros massacrados pelas traças e pela umidade! Se eu dispusesse de um lugar melhor para alojá-los... Penso numa enorme estante em cerejeira abarrotada de livros, em frente à qual tirarei a foto de divulgação do meu trabalho – para não fugir ao lugar-comum. Penso na tal foto e sou tomado por uma alegria incrivelmente tênue, fogo-fátuo que se desfaz ao menor golpe de ar.

O que tinha tudo pra ser uma tarefa simples, transforma-se numa presepada. Pego cada um dos livros e imediatamente lembro o que têm de bom, muito bom, genial, e sinto uma vontade avassaladora de reler esses trechos inesquecíveis, e assim a tarefa se arrasta infinitamente. Acabo fedendo a poeira também. Me esparramo pelo chão, os livros caem sobre mim, e eu experimento cada um deles - uma verdadeira suruba literária. Este é ótimo (Desonra, do J.M Coeetze); estes também são excelentes (O Nariz do Morto, do falecido Antonio Carlos Villaça, e Matadouro 5, do também falecido Kurt Vonnegut); e mais este, e aquele, aqueles outros... Comprei, ganhei, roubei - ops! mentirinha; nunca o fiz, mas não por falta de vontade.

A festa corria às mil maravilhas quando, debaixo de um exemplar de Lolila, de Nabokov, vislumbro duas anteninhas pardas que se movimentam sincronicamente para cima e para baixo: uma baratinha leitora. A princípio reluto em puxar conversa, mas logo me dou por vencido:

- Olá!

Mas a baratinha esnobe não me dá bola.

Tento uma segunda investida.

(To be continue...)

Mais que mil palavras

Imagens da semana



Protesco contra a devastação da Amazônia, no Fórum Social Mundial, em Belém do Pará.

Os donos do dinheiro discutem como salvar seus bolsos, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça.

Pai e filho descansam em colchão sobre os escombros de sua casa, na Faixa de Gaza.

Estudante carrega quadro do ex-presidente Fidel Castro durante comemoração da independência, em Cuba.

Prece coletiva por crianças assassinadas em creche na Bélgica.



Chineses comemoram a chegada do Ano do Porco.

Fotos extraídas do MSN Notícias.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Diário de um chimpanzé (III)

Bem ou mal, ele está no jogo. I’m in, reporta o agente secreto ao chefe da missão. O chimpanzé doido continua a dar corda no músculo cardíaco precocemente debilitado. Periga rebentarem-se as frágeis estruturas do órgão. Ele se levanta do banco onde tentara relaxar debalde. A recepcionista morena (sim, ela é morena e bonitinha) segue lixando as unhas pontudas e pintadas de roxo. Com licença. Não; ele não diz isso porque não estamos num filme americano dublado. Diz: obrigado. E se encaminha à sala estanque do dono dos porcos (a expressão é do pai). À esquerda do corredor que desemboca no escritório do chefe, um grupo de funcionárias do setor administrativo grasna sem parar. Quase não é possível ouvir o que dizem aos berros porque, além das vozes agudas se anularem umas às outras, o tapume que separa o departamento do corredor produz um certo isolamento acústico. Ele sente uma vontade quase irrefreável de permanecer parado no meio do corredor, tentando captar e entender o que aquelas mulheres conversam. Mas faz um esforço para não dispersar sua atenção, que deve estar totalmente voltada para a entrevista que terá lugar dentro de instantes. Respira fundo, ajeita a camisa dentro da calça, tateia os cabelos ralos. Bate três vezes na porta. Entre, por favor, responde a voz do outro lado. E agora sim ele diz com licença, como num filme americano dublado. Postado atrás de uma mesa simples de madeira escura, o entrevistador, um senhor na casa dos 70, de aparência saudável, bem vestido, e com duas discretas bolsas de gordura sob os olhos castanhos denotando abatimento, aponta a cadeira para que o candidato se acomode. Apertam-se as mãos. Uma vez sentados, encaram-se taciturnos e assim permanecem por alguns segundos, como num jogo infantil em que dois adversários medem forças para ver quem consegue sustentar o olhar por mais tempo. A mesa está abarrotada de blocos de notas, faturas, calendários, porta-retratos, porta-lápis, celulares e calculadoras. Um relógio retangular com o logotipo da loja e um pôster do Palmeiras guarnecem a parede atrás da mesa. À direita, há uma estante repleta de arquivos, e à esquerda um frigobar e um sofá bege de dois lugares, rente à varanda cuja vista não chega a ser exatamente enaltecedora.

- Gostei muito do seu currículo. Não entendo por que você não conseguiu uma colocação até hoje. Você está com quantos anos mesmo? – e põe-se a examinar a folha bem diante dos olhos.

- Vinte e quantro!?

- Isso.

- E sua única experiência foi como estagiário!?

Ele responde que sim e passa a fornecer detalhes sobre o estágio. Apesar do indisfarçável ar de enfado, o dono dos porcos quer saber mais a seu respeito. Pergunta se mora com os pais, no que eles trabalham, quantos irmãos tem.

- Em que setor você gostaria de trabalhar?

Perguntinha cavilosa. À qual ele responde não sem titubear.

- No setor que for mais conveniente... E sabendo que precisa ser mais específico: Com sinceridade, eu não me vejo trabalhando na linha de frente; os bastidores me caem melhor. Mas não fujo aos desafios. Estou pronto a assumir com responsabilidade e dedicação a função que o senhor me confiar.

Não deu pra aferir o efeito que sua retórica abobalhada causou no entrevistador, pois a campainha do telefone soou em seguida. Ele aproveitou os dois ou três minutos que o homem ficou ao telefone para pensar no que poderia dizer para salvar a entrevista. Não lhe ocorreu nada. Dissera o que achara fundamental: tinha conhecimento disso e daquilo, disposição para contribuir e aprender; o pai estava desempregado, as contas se acumulavam, o irmão pequeno...

- Muito bem. Como eu já disse, gostei do seu currículo. Agora, no começo do ano, há sempre remanejamentos, reestruturações etc. etc. Eu vou conversar com a chefe do RH para ver se consigo encaixá-lo à equipe, provavelmente no setor administrativo. O.k.?

- O.k.

Levantam-se e trocam outro aperto de mão.

- Em breve entraremos em contato para darmos um parecer definitivo. Foi um prazer conhecê-lo, garoto – diz o dono dos porcos.

- O prazer foi meu. Obrigado pela sua atenção. Tenha um bom dia.

Ele deixa a sala amargando a derrota que lhe pareceu tão palpável quanto qualquer um dos inúmeros objetos que atulhavam a mesa de madeira escura do entrevistador. A equipe de mulheres do setor administrativo continuava a grasnar. Ao passar pela recepção, agradeceu novamente a mocinha das unhas roxas e ato contínuo ganhou a rua.
***
Louis Armstrong interpretando La vie en rose num clipe da animação Wall-E, um dos filmes mais apaixonantes do ano passado.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Diário de um chimpanzé (II)

As abluções matinais contra as secreções produzidas pelo corpo à sua completa revelia. Depois três bolachas de água-e-sal e uma xícara de café como desjejum. Veste sua melhor camisa - herdada do avô materno -, sua calça jeans menos desbotada, seus sapatos pretos mal engraxados, e sai para a entrevista de emprego. Mais uma. Pega o ônibus semilotado; a cobradora negra de cinqüenta e poucos anos o cumprimenta com um sorriso complacente, mas que se analisado com frieza e distanciamento, revela-se simplesmente automático - o que é bom. Senta-se num banco ao fundo; divide-o com uma moça de uniforme verde-água, de uma rede de farmácias local. Ela tem os cabelos escovados, sua pele recende a sabonete de erva-doce. Ele tenta ensaiar mentalmente o que dirá ao recrutador, como causar boa impressão. Por que merece o emprego? O que o torna digno de confiança? Pensa nas contas que se acumulam sobre a escrivaninha. Pensa na barba hirsuta e grisalha que cresce no rosto do pai; no seu discurso inflamado contra tudo e todos, cujo contraponto principal era encontrado na inocência destemida do irmão caçula. Até quando ele não sabe. Caminha no centro da cidade como um fugitivo da polícia. Vive como um fugitivo. E é absurda mas inevitável a comparação com um criminoso refugiado sob a chancela do governo. Chega ao local da entrevista, uma grande loja de departamentos, confiante, esperançoso, ridículo. A avó vive dizendo que para quem está se afogando jacaré é tronco. O irmão do meio acha graça. Ele também tenta rir de tudo. Mesmo constrangido, ri de suas tentativas de fugir às perguntas de conhecidos sobre sua vida profissional. Da sua idéia boba e estapafúrdia de manter um blog na internet. Dos livros que tem vendido – a contragosto, na maioria das vezes – pela internet. De sua deplorável dependência da internet; da própria citação indiscriminada da palavra internet. Mas então pensa numa verdade alentadora: ele não precisa da internet; mas precisa dos livros. Precisa ler – porque é um animal que lê, acima de tudo. E pouco pode fazer para mudar isso, como em relação às secreções e excreções produzidas diuturnamente pelo corpo. Chega à recepção e diz a que veio para a moça que lixa as unhas pontudas. Ela o anuncia para o recrutador, que pede para que ele aguarde um instante, que em breve será atendido. Enquanto isso, um gato ronrona dentro do seu estômago, e um chimpanzé doido dá corda no seu coração, que passa a bater de modo desenfreado.

***
A grande Nina Simone interpretando Sinnerman. De parar o coração.

Incursão Diurna ao Centro da Cidade Monstro


“Nós buscamos outras realidades porque não sabemos como desfrutar da nossa; e saímos de dentro de nós mesmos pelo desejo de saber como é o nosso interior."
Montaigne

"A tragédia é o estado natural do homem."
Lúcio Cardoso

Blade Runner sabe que precisa chegar ao topo da torre antes do início da tempestade – que, de acordo com o boletim meteorológico que consultara pela manhã, seria uma das mais mortíferas em décadas. Sua missão naquela tarde: exterminar o Grande Recrutador. Antes de deixar seu Q.G. particular, pouco depois da primeira revoada de vampiros do dia, Blade passou em revista seu arsenal de armamentos extremamente letal: o legado do pai finalmente começava a se mostrar de grande valia. O traje era o mesmo de sempre. Calça preta de sarja, camiseta branca e jaqueta cinza escuro.Vestiu um colete repleto de escaninhos em que esconder os armamentos por baixo da jaqueta. Óculos também escuros; gel no cabelo. Indispensável mascar um chiclete de hortelã sem açúcar até sobrevir uma leve sensação de desconforto estomacal. Apesar dos óculos, os olhos ardiam da fumaça oriunda do pólo industria e da noite mal dormida. Ao passar pela ponte pênsil deparou com dois homens barbudos e maltrapilhos que pescavam pacientemente; um deles vez em quando puxava papo com uma sereia popozuda que marcava bobeira na margem do rio. De repente todos se voltaram para a pista a fim de ver a passagem do comboio de zumbis escoltado por cerca de vinte policiais armados de escopetas. Andou cerca de quatrocentos metros até chegar ao hospital geral, em frente ao qual estendia-se uma fila com cerca de duzentas mulheres azuis de sangue prata que aguardavam sua vez de tomar a pílula do dia seguinte. Blade flertou com uma delas enquanto se dirigia ao terminal de caixas eletrônicos. As mulheres azuis tinham fama de ser grandes amantes, o que até então Blade não havia podido comprovar. Sua única parceira sexual era Elaine, que desde que abandonara o negócio de crepes suíços não voltara a dar notícias. Os dois haviam se conhecido num rodízio onde eram servidos variados tipos de carne de seres mitológicos: de faunos a dragões. A picanha de duende era uma verdadeira iguaria; o mesmo podia ser dito acerca das costeletas de saci. Além de crepes, Elaine fazia poesia. Blade era seu único leitor. Ao sacar trinta e seis reais no caixa, lembrou-se de uns versos da amada: À noite a noite abarca / meus pensamentos / E os remete ao limiar da loucura / Há um estremecimento / em face da triste urdidura. Estava triste porque achava que Elaine havia retornado à cidade natal, o que significava que dificilmente voltariam a se ver. Vai demorar?! – exclamou ruidosamente um ciclope espadaúdo que esperava a vez de usar o caixa. Já terminei, disse Blade, após ter sido violentamente sacado do seu mundo de abstrações. E saiu do terminal em disparada, rumo ao topo da torre, onde o Grande Recrutador regia férrea e sadicamente o teatro de bonecos que se dava cá embaixo, em terra firme. Quem passasse pelo corredor de mendigos corria o sério risco de ter um naco de sua carne arrancado às dentadas. Logo à entrada do mercado municipal, cuja fachada servia de abrigo para as lactantes andaluzas que amamentavam seus filhotes, anjos e demônios, protegidos por seus respectivos mascotes - lobos, tigres, falcões, rinocerontes. Blade sentiu pena dos lobisomens magros que bebiam a água turva que escorria nas sarjetas. As mulheres barbadas exibiam seus corpos roliços em vitrines esverdeadas. Cerca de quinhentos metros de um calçadão onde se comerciavam todo tipo de mercadoria imaginável. Granadas, especiarias, tubarões-baleia. Blade almoçou mariscos e bebeu meio litro de refresco de tamarindo. Restaram-lhe vinte e três reais. Quando passava distraidamente por uma galeria, foi puxado pela gola da jaqueta para dentro duma câmara escura. Os primeiros relâmpagos iluminaram o ambiente, e ele pôde ver os homens e mulheres perfilados em poltronas vermelhas e aveludadas, prestando atenção ao filme exibido na tela grande. Um rosário audiovisual de miséria, dúvidas e conquistas. E Blade podia jurar que, entre as mulheres encapuzadas que praguejavam contra a tribo inimiga em meio às ruínas e aos cadáveres de seus filhos e maridos, estava Elaine. Todos na sala riam, choravam, soluçavam, grunhiam. E ele se lembrou de um filme em que um delinqüente juvenil era obrigado a assistir a sucessivas imagens de violência. Mas, ao contrário do rapaz do filme, ele podia fechar os olhos, sair imediatamente do local e se concentrar de novo no que era realmente importante: o encontro mortal com o Grande Recrutador. Não foi difícil atravessar a praça central apinhada de bombos, consumidores, pesquisadores, ambulantes. O imbróglio de nuvens lilases já expelia jorros intermitentes de água púrpura, além das descargas elétricas que fritavam indistintamente camundongos e chimpanzés. O que restara do dinheiro foi gasto com o suborno ao leão-de-chácara que vigiava a torre. Surpreendentemente fácil chegar à sala em que o Grande Recrutador jazia, expectante, debruçado sobre sua enorme mesa de tampo de mármore. E o Grande Recrutador, sangüíneo, corpulento, eminente dono do mundo, levantou a cabeça pesada e olhou na direção de Blade Runner:

- Eu ansiava pela sua chegada.

Blade enfiou a mão direita por baixo da jaqueta e percorreu os escaninhos do colete à procura da arma perfeita.

- Venha. Não oferecerei resistência. Cumprirei minha sina à risca, disse o Grande Recrutador, após abrir a camisa cinza de linho e expor o peito nu ao sacrifício.

Tendo encontrado a faca ordinária de cozinha com a qual pretendia abater o Grande Recrutador, Blade caminhou na direção do alvo, e, desviando por um instante o olhar do rosto afogueado de sua vítima, viu as almas que despencavam do céu junto com a chuva púrpura que se adensava.

- Ande, carniceiro! Sua sede de vingança é mais um sintoma da sua mediocridade moral. Ela crava seu nome no rol dos que nasceram apenas para engordar as estatísticas oficiais – e abriu um sorriso obsceno e revelador.

Como quem descasca uma laranja pela primeira vez, Blade deu cabo do Grande Recrutador. Em seguida abandonou a faquinha sobre a mesa, deu as costas para o corpo largado na cadeira giratória, e seguiu em direção da escada. Quando colocou o pé direito no primeiro degrau, deu-se o que ocorreria, por exemplo, se alguém tivesse, displicentemente, retirado o fio do universo da tomada.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Crônica não acabada

(Autorretrato de Francis Bacon)

Às vezes, caminhando pela rua, distraído, me pego a imaginar que sou outra pessoa. Ora me vejo como o mendigo que arrasta seus petrechos pelo centro da cidade; ora como o dentista que desce as escadas do consultório assoviando uma canção de Chico Buarque. E, sendo o andarilho andrajoso, ou o graduado trajando branco, me sinto satisfeito.

Parte disso talvez advenha do fato de a gente sempre se supor mais infeliz que os outros. Querer ser o que se é, já dizia o pensador holandês Erasmo de Roterdã, no século XVI, é o segredo da felicidade. Mas quantas pessoas de fato sentem-se felizes consigo mesmas? O ideal de felicidade para um pode não ser o mesmo para outro. E ainda assim muitos insistem em projetar seu ideal de existência em outras pessoas. O dentista supracitado, por exemplo, nunca terá se imaginado na pele de um ator de novelas? E o mendigo? Terá ele algum dia aspirado à condição de senador da república, fazendo discursos acalorados no senado federal?

Imaginar-se na pele de outro alguém é um tipo de fantasia à que as pessoas mais comuns costumam recorrer. Para tanto, uns apelam à ficção - assistindo a filmes, lendo romances, ou indo ao teatro; enquanto outros escrevem suas próprias estórias, real ou mentalmente. Se essa é uma prática saudável, eu já não sei dizer. Mas a verdade é que sonhar costuma ser uma atitude recomendada, para a maioria dos seres humanos. Homens e mulheres sem imaginação costumam ser tachados de idiotas ou de desprovidos de ambição; quem não sonha não sabe para onde vai, ou não quer sair do lugar.

Aquele que sonha em demasia, no entanto, corre o risco de ser tomado por louco. Dom Quixote de La Mancha, por exemplo, era tido por seu fiel companheiro, Sancho Pança, como o maior dos lunáticos. Montado em seu cavalo Rocinante, e investindo contra moinhos de vento como se estes fossem cavaleiros inimigos, Dom Quixote moldava o mundo à sua imaginação. Por isso é tido, ainda hoje em dia, como o pai dos sonhadores – daqueles que imaginam um mundo paralelo, no qual o sonho é a moeda corrente e o livro seu mais ilustre receptáculo.

O limite entre o sonho e a loucura é muito tênue, e por isso sonhar é correr o risco de se enveredar por um caminho sem volta, que desembocará num mundo de solidão perpétua. Por essa razão é sempre aconselhável saber onde pisamos, mesmo no território da imaginação. Nada nos impede de nos projetarmos em outras vidas ou em outros mundos, mas é sempre reconfortante saber que podemos voltar a qualquer momento para nossa triste porém sólida realidade.

07/12/2006