Sentado à mesa da cozinha, esperando a água do chá ferver, Vladimir foi arrebatado por uma idéia genial para um romance, que nasceu bem atrás do olho esquerdo e, grandiosa, logo se espalhou por toda a cabeça. Foram cerca de quarenta segundos de uma deliciosa euforia que terminou com o escritor tombando no chão frio. Incomodada com o zunido da chaleira, sua mulher acorreu à cozinha e pôde socorrê-lo. No hospital, após uma bateria de exames, o médico deu o diagnóstico: AVC. “Querida, você trouxe meu bloco de notas?”, indagou um débil Vladimir no leito da UTI, segurando com firmeza a mão da esposa.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Inspiração
terça-feira, 12 de abril de 2011
Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e eram felizes.

Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e eram felizes. Não gostei delas. Sempre me sentia enjoado e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. Pintávamos com tinta guache. Plantávamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comíamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infância, gostava mais dela que dos meus pais. Um problema que eu enfrentava era ir ao banheiro. Estava sempre apertado, mas tinha vergonha de deixar os outros saberem da minha necessidade. Assim, eu segurava. Era realmente terrível conter a vontade. E o ar estava puro, e eu sentia vontade de vomitar, vontade de cagar e de mijar, mas não dizia nada. E quando algumas das outras crianças voltavam do banheiro, eu pensava: vocês estão sujas, vocês fizeram algo lá dentro...
As garotinhas eram bacanas em seus vestidos curtos, com seus cabelos longos e seus belos olhos, mas eu pensava, elas também fazem as coisas lá dentro, mesmo que finjam que não.
O jardim de infância era em grande parte constituído de ar puro...
(Trecho de "Misto-quente", de Charles Bukoski. Tradução de Pedro Gonzaga. L&PM Pocket - 316 páginas.)
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Poema de Ana Cristina Cesar
Nada, esta espuma
Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
Quero tanto os seios da sereia.
Publicado no livro "A teus pés", de 1982.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Reparo
Casa em obras
Cheiro nauseante de cimento
Sem Internet
solicitamos reparo.
Há um elefante branco e pútrido na sala
Solicitamos reparo
Reparo
Para a solidão.
10/02/2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Alguns dos melhores filmes que vi em 2010
Sem ordem de preferência:
Ervas Daninhas
À Prova de Morte
Um Homem Sério
Tudo Pode Dar Certo
Ilha do Medo
Vício Frenético
A Estrada
Ponyo – Uma amizade que veio do mar
O Escritor Fantasma
Como treinar o seu dragão
Férias Frustradas de Verão
Toy Story 3
A Rede Social
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
A juventude do artista
O problema dele é que não está preparado para fracassar. Quer um A ou um alfa ou cem por cento em todas as tentativas, e um grande Excelente! na margem. Ridículo! Infantil! Ninguém precisa lhe dizer isso: pode ver por si próprio. Mesmo assim. Mesmo assim não pode agir. Não hoje. Talvez amanhã. Talvez amanha tenha vontade, tenha coragem.
Se fosse uma pessoa mais cálida, sem dúvida acharia tudo mais fácil: a vida, o amor, a poesia. Mas não há calor em sua natureza. E não é o calor que leva a escrever poesia. Rimbaud não era cálido. Baudelaire não era cálido. Quente, sim, mas era preciso – quente na vida, quente no amor -, mas não cálido. Ele também é capaz de ser quente, não deixou de acreditar nisso. Mas no momento, no momento indefinido, ele é frio: frio, congelado.
E qual o desfecho dessa falta de calor, dessa falta de coração? O desfecho é que está sentado sozinho na tarde de domingo no quarto de cima de uma casa no fundo do campo de Berkshire, com corvos crocitando no campo e uma névoa cinzenta no céu, jogando xadrez sozinho, ficando velho, esperando a noite cair para, sem nenhuma culpa, fritar suas lingüiças para comer com pão no jantar. Aos dezoito anos, podia ter sido um poeta. Agora não é um poeta, nem um escritor, nem um artista. É um programador de computador, um programador de computador de vinte e quatro anos num mundo em que não existe programadores de computador de trinta anos. Trinta é velho demais para ser programador; a pessoa se volta para alguma outra coisa – algum tipo de empresariado – ou se mata. Só porque é jovem, porque os neurônios em seu cérebro ainda estão disparando mais ou menos infalivelmente, é que tem um pé na indústria de computadores britânica, na sociedade britânica, na Grã-bretanha em si. Ele e Ganapathy são dois lados da mesma moeda: Ganapathy morrendo de fome não porque está separado da Mãe Índia, mas porque não come direito, porque apesar de seu mestrado em ciência da computação não sabe nada sobre vitaminas, minerais e aminoácidos; e se trancou num fim de jogo debilitador, jogando consigo mesmo, a cada lance mais encurralado, mais derrotado. Um dia desses, os homens da ambulância terão de ir ao apartamento de Ganapathy e tirá-lo de lá numa maca com um cobertor em cima da cara. Depois de levar Ganapathy, podiam vir buscá-lo também.
Trecho final do romance Juventude, de J. M. Coetzee.
sábado, 13 de novembro de 2010
Um Deus das pequenas e das grandes causas
São raras as vezes em que penso em Deus. Apesar disso, tenho um fundo religioso, uma ânsia de religião. Queria me convencer de que definitivamente tenho uma definição de Deus, um conceito de Deus. Mas não tenho nada semelhante. São raras as vezes em que penso em Deus, pelo simples fato de que o problema me excede tão demasiada e soberanamente, que chega a me provocar uma espécie de pânico, uma debandada geral de minha lucidez e de minha razão. “Deus é a totalidade/’, diz Avellaneda com freqüência. “Deus é a Essência de tudo”, diz Aníbal, “o que mantém tudo em equilíbrio, em harmonia, Deus é a Grande Coerência. Sou capaz de entender uma e outra definição, mas nem uma nem outra são a minha definição. É provável que eles estejam no caminho certo, mas não é desse Deus que necessito. Necessito de um Deus com quem conversar, um Deus em quem possa buscar amparo, um Deus que responda aos meus questionamentos, que suporte as metralhadas das minhas dúvidas. Se Deus é a Totalidade, a Grande Coerência, se Deus não é mais que a energia que mantém vivo o Universo, se é algo tão incomensuravelmente infinito, que importância posso ter para Ele, um átomo tão precariamente alçado a um insignificante piolho de seu Reino? Não me importa ser um átomo do último piolho de seu Reino, mas me importa que Deus esteja ao meu alcance, me importa poder agarrá-lo, não com minhas mãos, claro, nem sequer com meu raciocínio. Importa agarrá-lo com meu coração.
Trecho do romance A Trégua, do uruguaio Mario Benedetti.