terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Minhas leituras prediletas de 2015 (sem ordem de preferência)
domingo, 23 de agosto de 2015
Catedral
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Minhas 14 leituras preferidas de 2014:
Falar Sozinhos (Andrés Neuman)
Como me tornei freira (César Aira)
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Sem ódio, de mãos dadas
É triste ver o País mergulhado nessa cultura de ódio. A mim me escandaliza sobretudo a fúria insensata de parte dos eleitores de Aécio Neves. Mas os militantes petistas que insistem em dividir o país entre pobres e ricos (Lula incluso) também são responsáveis por esse clima de animosidade.
Aliás, não só as militâncias: os candidatos também contribuem para esse cenário beligerante com uma campanha pobre em ideias e rica em debates de baixo nível.
Espero que sobrevivamos a essa eleição. E que, independentemente de quem conquiste a Presidência, possamos, tal qual o poeta ensinou, caminhar de mãos dadas.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Matéria publicada no Uol e meu comentário a seguir:
Livros novos para alunos de Araçatuba (SP) são encontrados em matagal
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Microconto
sábado, 28 de julho de 2012
A pequenez da vida que a arte exagera
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
O inquilino
domingo, 11 de dezembro de 2011
Crack
domingo, 10 de julho de 2011
Ivan Ilitchi está morrendo

Ivan Ilitch via que estava morrendo e desesperava-se.
No fundo do coração sabia que estava indo embora e, longe de acostumar-se com a idéia, simplesmente não conseguia entendê-la.
O exemplo de um silogismo que aprendera na Lógica de Kiezewetter, “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal”, parecera-lhe a vida toda muito lógico e natural se aplicado a Caio, mas certamente não quando aplicado a ele próprio. Que Caio, ser abstrato, fosse mortal estava absolutamente correto, mas era não era Caio, nem um ser abstrato. Não: havia sido a vida toda um ser único, especial. Fora o pequeno Vanya, com mamãe e papai Mita e Volodya, com brinquedos e um tutor e uma babá; e mais tarde com Kátia e todas as alegrias e prazeres da infância, da adolescência e da juventude. O que sabia Caio do cheiro da bola de couro de que Vanya tanto gostava? Por acaso era Caio quem beijava a mão de sua mãe e escutava o suave barulho da seda de suas saias? Foi por acaso Caio quem se envolveu em protestos quando estudante de Direito? Foi Caio quem se apaixonou? Quem presidiu sessões como ele?
E Caio certamente era mortal e era mais do que justo que morresse, mas ele, o pequeno Vanya, o Ivan Ilitch, com todos os seus pensamentos e emoções, é completamente diferente. Não pode ser verdade, isso seria terrível demais.
Era assim que se sentia por dentro.
“Se eu tinha que morrer assim como Caio, deveriam ter me avisado antes. Uma voz dentro de mim desde o início deveria ter-me dito que seria assim. Mas não havia nada em mim que indicasse isso; eu e todos os meus amigos sabíamos que no nosso caso seria diferente. E eis que agora... Não... não pode ser e no entanto é assim! Como entender isso?”
Trecho de “A Morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstoi.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Um homem à tarde
Eu já tive vinte e um anos e escrevia contos como esse:
Naquela tarde imaginei que se eu fosse uma mulher bonita ignoraria todos os homens do mundo. Viveria num celibato cativo, indiferente a investidas masculinas de qualquer espécie. Isso naquela tarde em que encontrei a professorinha na biblioteca.
Fiquei feliz em reencontrá-la. Foi como topar um compatriota numa nação estrangeira. Eu, que havia muito não tinha uma conversa minimamente agradável com ninguém, me senti à vontade para falar de mim mesmo, o que um dia cheguei a considerar a mais egoísta das atitudes.
A professorinha disse estar contente lecionando para crianças da pré-escola, mas que a remuneração era vergonhosa. Por isso se preparava para um concurso do Banco do Brasil, onde decerto poderia lograr prestígio e melhores salários. Não concordei nem discordei, apenas pedi que não se esquecesse dos velhos amigos quando do chopinho no sábado à noite.
Conversava comigo e folheava uma apostila de Direito Bancário. Vestia jeans e blusa branca, os cabelos crespos presos para trás num coque. Elogiava minha erudição e ignorava minha aparência de andarilho bêbado.
- Desempregado!? E a faculdade?
- Um porre! Um emaranhado de teorias broxantes. Estão me castrando aos poucos.
Coçou de leve a orelha direita. Reparei num fio de remela no canto do seu olho esquerdo. Daí não consegui prestar atenção em mais nada, nem mesmo em seus seios pequenos contraídos na blusinha apertada.
Partimos para a política.
- Este ano vou anular meu voto. Meu ex-namorado me convenceu.
- Eu ainda não sei em quem vou votar, para presidente. Mas não voto no governo, nem fodendo. Foi uma decepção muito grande.
Começou a espirrar. E eu resisti à inclinação atávica de desejar saúde.
- É que não posso com ar condicionado.
Será que era infeliz? Se o era, sua voz não denunciava, nem tampouco seu porte austero, típico de mulher independente. Talvez algo no modo de manusear a caneta sobre o papel, mas nada grave. Apenas um resquício de remela no canto do olho.
- E você, continua escrevendo?
- Pouco, bem pouco.
- É uma pena. Me lembro de algumas histórias suas. Eram bonitas, bonitas mesmo.
- (...)
- Estão todas na gaveta ou você já publicou alguma?
- Na verdade joguei todas fora.
- Mas por quê?
- Porque eram bonitas demais.
Soltou uma risada gostosa. Eu tinha me esquecido de como sua risada era gostosa.
- Você não existe, cara!
- E você, existe?
- Não sei. Parece que hoje em dia o tamanho da sua existência é proporcional ao tamanho da sua conta bancária
- Então você tem razão: eu não existo.
Rimos. Eu também gostava disso nela – da ironia.
Alguns segundos de silêncio. Eu observava as pessoas que circulavam por entre as estantes e pensava em algo inteligente para dizer. Como é difícil ser original! Ainda mais sabendo que a originalidade não dista um palmo sequer da idiotice. Mais fácil teria sido me deixar levar por aquela sensação de letargia que tomava quase todo o meu corpo. Dormir talvez. Eles se importariam se eu dormisse? A professorinha sentiria a minha ausência?
- Você estava longe.
- Desculpe, é que...
- Vamos indo? – indagou, e em seguida ajeitou os livros e apostilas numa pilha sobre a mesa.- Você não vai levar nada para ler hoje?- e, ao se levantar, esbarrou suavemente a mão em meus cabelos.
A conversa me agradava de tal modo, que eu até me esquecera do real propósito de minha ida
à biblioteca.
- Ainda bem que você perguntou. Eu já ia me esquecendo de devolver os livros que emprestei. Você já leu Juan Rulfo? É um escritor mexicano. Maravilhoso! Você tem que ler.
- Eu preciso ler mais mesmo. Sou muito preguiçosa.
- Se bem que literatura amolece a gente. A literatura, você deve saber, é a arte do inútil.
Ela riu, levando a mão esquerda à boca.
- Que é isso? Você só pode estar de gozação.
- Não, é verdade. E é justamente por ser inútil que a literatura é rica, linda, poderosa!
- Ai, eu não entendo você!
- Tem nada, não. Deixa pra lá.
Antes de sairmos, após devolver “Pedro Páramo” e “O Chão em Chamas” à bibliotecária, dei uma última olhada para aquelas pessoas debruçadas sobre livros técnicos e apostilas, absorvidas por uma determinação hercúlea, por um sentido de direção exato, e me perguntava se eles realmente sabiam para onde estavam indo, ou se fingiam objetividade e serenidade quando na verdade estavam gritando, pedindo ajuda, mas ninguém os ouvia.
A professorinha se mantinha indiferente a tudo; senhora de si, transitava entre dois mundos completamente distintos. E ainda que o teto do prédio começasse a desabar, ela se manteria incólume, enquanto eu seria atingido por enormes blocos de concreto, até ser levado ao chão, sem vida.
Caminhamos vagarosamente pelas ruas do centro da cidade, ruas estas que, naquela tarde específica, estavam repletas de mulheres grávidas, fecundadas pelo mesmo sol que castigava os caminhantes. Já passava das quatro e a professorinha começava a demonstrar sinais de ansiedade, na certa porque teria de se aprontar para um compromisso logo mais à noite. Disse que não estava namorando, embora o ex a procurasse quase que diariamente para tentar reatar o namoro. E, como ela se mostrasse pouco à vontade, não insisti nesse assunto, a convidei para tomar um sorvete, mas ela recusou. A professorinha não gostava de falar de sexo. Era tímida. O que ficara evidente quando do nosso banho de piscina no sítio de um amigo que comemorava o aniversário. Na ocasião, caminhara até a piscina envolta em uma toalha roxa e felpuda, e, após passar pouco mais que um quarto de hora nadando de uma borda à outra, saiu e mais que depressa se enrolou novamente na toalha, mal deixando entrever seus contornos femininos sob o maiô azul-claro.
Finalmente chegamos ao ponto de ônibus.
- O meu já deve estar vindo, comentou.
- Você não quer mesmo tomar um sorvete comigo?, insisti.
- Não, Marcel, obrigada. Fica pra próxima. Eu marquei de ir à missa com uma amiga, e se eu não for ela briga comigo.
Não insisti mais. Já começava a me acostumar com a idéia de tomar sorvete sozinho mesmo. Além do quê, seria praticamente impossível manter mais algum tempo de conversa com a minha querida professorinha, sem conseguir lembrar o seu nome. O que seria: minha cara Ana Laura... Beatriz, meu amor, eu não sou anti-social, não senhora. Pelo contrário, amo demais as pessoas, tanto que, numa tarde incandescente e lúbrica como esta, eu desejaria a anulação de minha própria sexualidade para poder caminhar de mãos dadas com homens e mulheres nos vergéis do paraíso.
E no entanto eu era só um homem perdido na tarde grávida, recém-semeada pelo rei Sol. Quando Maria Isabel selou nosso encontro com um beijo terno no meu rosto, antes de depositar um pedaço de papel com seu número de telefone no bolso da minha bermuda.
- Me liga pra gente combinar de ir ao cinema qualquer dia desses.
- Pode deixar. E você também, vê se não some.
- Eu vou tentar.
Na sorveteria, enquanto tomava meu sorvete de creme a lentas colheradas, me incomodava a hipótese de que, se eu morresse naquele dia ou nos dias seguintes, provavelmente Ana Clara demoraria a saber, isso se viesse a saber. Mas fui deixando de lado esses pensamentos nefastos na medida em que me empenhava na observação de um cartaz com uma propaganda de refrigerante na parede. Continha a foto de um casal de adolescentes se beijando, e quem quer que olhasse com um pouco mais de atenção para aquela imagem vislumbraria a sutileza com que a língua rosada da moça se misturava à do rapaz, e como a mão do rapaz escorregava lentamente para dentro da saia da moça, até aninhar-se no púbis, a salvo.
15/05/2006
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Inspiração
Sentado à mesa da cozinha, esperando a água do chá ferver, Vladimir foi arrebatado por uma idéia genial para um romance, que nasceu bem atrás do olho esquerdo e, grandiosa, logo se espalhou por toda a cabeça. Foram cerca de quarenta segundos de uma deliciosa euforia que terminou com o escritor tombando no chão frio. Incomodada com o zunido da chaleira, sua mulher acorreu à cozinha e pôde socorrê-lo. No hospital, após uma bateria de exames, o médico deu o diagnóstico: AVC. “Querida, você trouxe meu bloco de notas?”, indagou um débil Vladimir no leito da UTI, segurando com firmeza a mão da esposa.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e eram felizes.

Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e eram felizes. Não gostei delas. Sempre me sentia enjoado e o ar tinha um aspecto estranhamente calmo e puro. Pintávamos com tinta guache. Plantávamos sementes de rabanete no jardim e algumas semanas mais tarde os comíamos com sal. Gostava da senhora que ensinava no jardim de infância, gostava mais dela que dos meus pais. Um problema que eu enfrentava era ir ao banheiro. Estava sempre apertado, mas tinha vergonha de deixar os outros saberem da minha necessidade. Assim, eu segurava. Era realmente terrível conter a vontade. E o ar estava puro, e eu sentia vontade de vomitar, vontade de cagar e de mijar, mas não dizia nada. E quando algumas das outras crianças voltavam do banheiro, eu pensava: vocês estão sujas, vocês fizeram algo lá dentro...
As garotinhas eram bacanas em seus vestidos curtos, com seus cabelos longos e seus belos olhos, mas eu pensava, elas também fazem as coisas lá dentro, mesmo que finjam que não.
O jardim de infância era em grande parte constituído de ar puro...
(Trecho de "Misto-quente", de Charles Bukoski. Tradução de Pedro Gonzaga. L&PM Pocket - 316 páginas.)
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Poema de Ana Cristina Cesar
Nada, esta espuma
Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
Quero tanto os seios da sereia.
Publicado no livro "A teus pés", de 1982.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Reparo
Casa em obras
Cheiro nauseante de cimento
Sem Internet
solicitamos reparo.
Há um elefante branco e pútrido na sala
Solicitamos reparo
Reparo
Para a solidão.
10/02/2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Alguns dos melhores filmes que vi em 2010
Sem ordem de preferência:
Ervas Daninhas
À Prova de Morte
Um Homem Sério
Tudo Pode Dar Certo
Ilha do Medo
Vício Frenético
A Estrada
Ponyo – Uma amizade que veio do mar
O Escritor Fantasma
Como treinar o seu dragão
Férias Frustradas de Verão
Toy Story 3
A Rede Social
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
A juventude do artista
O problema dele é que não está preparado para fracassar. Quer um A ou um alfa ou cem por cento em todas as tentativas, e um grande Excelente! na margem. Ridículo! Infantil! Ninguém precisa lhe dizer isso: pode ver por si próprio. Mesmo assim. Mesmo assim não pode agir. Não hoje. Talvez amanhã. Talvez amanha tenha vontade, tenha coragem.
Se fosse uma pessoa mais cálida, sem dúvida acharia tudo mais fácil: a vida, o amor, a poesia. Mas não há calor em sua natureza. E não é o calor que leva a escrever poesia. Rimbaud não era cálido. Baudelaire não era cálido. Quente, sim, mas era preciso – quente na vida, quente no amor -, mas não cálido. Ele também é capaz de ser quente, não deixou de acreditar nisso. Mas no momento, no momento indefinido, ele é frio: frio, congelado.
E qual o desfecho dessa falta de calor, dessa falta de coração? O desfecho é que está sentado sozinho na tarde de domingo no quarto de cima de uma casa no fundo do campo de Berkshire, com corvos crocitando no campo e uma névoa cinzenta no céu, jogando xadrez sozinho, ficando velho, esperando a noite cair para, sem nenhuma culpa, fritar suas lingüiças para comer com pão no jantar. Aos dezoito anos, podia ter sido um poeta. Agora não é um poeta, nem um escritor, nem um artista. É um programador de computador, um programador de computador de vinte e quatro anos num mundo em que não existe programadores de computador de trinta anos. Trinta é velho demais para ser programador; a pessoa se volta para alguma outra coisa – algum tipo de empresariado – ou se mata. Só porque é jovem, porque os neurônios em seu cérebro ainda estão disparando mais ou menos infalivelmente, é que tem um pé na indústria de computadores britânica, na sociedade britânica, na Grã-bretanha em si. Ele e Ganapathy são dois lados da mesma moeda: Ganapathy morrendo de fome não porque está separado da Mãe Índia, mas porque não come direito, porque apesar de seu mestrado em ciência da computação não sabe nada sobre vitaminas, minerais e aminoácidos; e se trancou num fim de jogo debilitador, jogando consigo mesmo, a cada lance mais encurralado, mais derrotado. Um dia desses, os homens da ambulância terão de ir ao apartamento de Ganapathy e tirá-lo de lá numa maca com um cobertor em cima da cara. Depois de levar Ganapathy, podiam vir buscá-lo também.
Trecho final do romance Juventude, de J. M. Coetzee.
sábado, 13 de novembro de 2010
Um Deus das pequenas e das grandes causas
São raras as vezes em que penso em Deus. Apesar disso, tenho um fundo religioso, uma ânsia de religião. Queria me convencer de que definitivamente tenho uma definição de Deus, um conceito de Deus. Mas não tenho nada semelhante. São raras as vezes em que penso em Deus, pelo simples fato de que o problema me excede tão demasiada e soberanamente, que chega a me provocar uma espécie de pânico, uma debandada geral de minha lucidez e de minha razão. “Deus é a totalidade/’, diz Avellaneda com freqüência. “Deus é a Essência de tudo”, diz Aníbal, “o que mantém tudo em equilíbrio, em harmonia, Deus é a Grande Coerência. Sou capaz de entender uma e outra definição, mas nem uma nem outra são a minha definição. É provável que eles estejam no caminho certo, mas não é desse Deus que necessito. Necessito de um Deus com quem conversar, um Deus em quem possa buscar amparo, um Deus que responda aos meus questionamentos, que suporte as metralhadas das minhas dúvidas. Se Deus é a Totalidade, a Grande Coerência, se Deus não é mais que a energia que mantém vivo o Universo, se é algo tão incomensuravelmente infinito, que importância posso ter para Ele, um átomo tão precariamente alçado a um insignificante piolho de seu Reino? Não me importa ser um átomo do último piolho de seu Reino, mas me importa que Deus esteja ao meu alcance, me importa poder agarrá-lo, não com minhas mãos, claro, nem sequer com meu raciocínio. Importa agarrá-lo com meu coração.
Trecho do romance A Trégua, do uruguaio Mario Benedetti.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Lendo-endo-endo
Pois bem. Para os que vivem querendo saber que livros jazem à minha cabeceira, aí vai:
Comarc McCarthy e Philip Roth – Dois dos maiores – se não OS MAIORES – romancistas americanos contemporâneos. Do primeiro, estou lendo "Todos os Belos Cavalos”, estória de meninos-rancheiros, haciendas mexicanas, e, claro, cavalos, muitos cavalos. (Aliás, o título, “All The Pretty Horses”, me é caro porque considero o cavalo uma das mais belas e fascinantes criações da natureza. Posso não saber montar e não entender bulhufas de eqüinos, mas não há como ignorar a força e o porte magnífico dessa espécie.) McCarthy é preciso nas descrições, usa poucos adjetivos, “abusa” da conjunção “e” em muitas sentenças, tornando-as mais longas e fluidas, além de ser bastante hábil na construção dos diálogos. O narrador em terceira pessoa atém-se o tempo todo aos fatos, à superfície dos corpos, aos gestos. Os sentimentos e pensamentos das personagens nunca são revelados; estamos distante do campo do “fluxo de consciência” à James Joyce, por exemplo.
Não seria descabido considerar “Todos os Belos Cavalos” um road novel, já que boa parte dos acontecimentos se dá na estrada – com a diferença de que o meio de transporte utilizado é o cavalo, e não o automóvel.
Para leitores citadinos, a trama e a ambientação rural do romance podem até soar enfadonhas, mas é praticamente impossível não admirar a boa e sofisticada prosa de Comarc McCarthy.
***
A Humilhação: Trigésimo livro do profícuo Philip Roth, que costuma lançar um livro por ano. O tema desta novela curta (são aproximadamente 100 páginas) é o talento. Um famoso ator sexagenário enfrenta uma grave crise pessoal e profissional: é abandonado pela mulher, sofre com terríveis dores na coluna, e se vê incapacitado de atuar de repente.
Privado de seu talento, o protagonista mergulha numa depressão profunda, que o leva a se internar numa clínica psiquiátrica. Após um breve período de internação, ele retorna para casa e se fecha para o mundo. Mesmo os apelos do agente e melhor amigo para que volte a trabalhar são inúteis. Ele se convence de que está irremediavelmente arruinado e de que nada de inspirador pode voltar a acontecer consigo. Até o dia em que uma mulher vinte e cinco anos mais jovem do que ele entra sorrateiramente em sua vida.
Roth é um mestre da narrativa longa. Seu texto é conciso e elegante. Sua capacidade de criar personagens complexos e de expor suas aflições de modo claro e original é rara. Poucos escritores atuais possuem uma verve narrativa tão vigorosa quanto a sua. E embora este “A Humilhação” não traga o melhor de seu talento, é sem dúvida um deleite para os apreciadores da boa literatura.
domingo, 11 de julho de 2010
Viver é bom
Há tempos tenho ensaiado um contato, mas por algum motivo, geralmente fútil e pedestre, esse gesto não se concretiza. Não faltam oportunidades; elas estão sempre aí, por mais que as desperdicemos. E como o fim de ano é um grande pretexto para reatar laços (de amizade, de admiração, de respeito etc.) frouxos ou estropiados, resolvi me sentar e escrever - atitude da qual alguém com ambições semelhantes às minhas nunca deveria prescindir.
Talvez o amigo não tenha recebido o último email que enviei, pois não obtive retorno. Ou talvez essa mensagem tenha perecido frente à quantidade de ocupações e preocupações que nos consomem dia a dia. Não importa. Março já vai longe no retrovisor e devemos manter nossa atenção na estrada longa e sinuosa que aos poucos se desenha à nossa frente.
Às vezes algum conhecido comum me pergunta de você e eu não sei o que responder. Dia desses estive com o Paulão no shopping e ele me pediu notícias da “turma”. O Paulão, aliás, continua o mesmo. Quem também sempre me pergunta de você é a Bianca, quando conversamos pela internet. Outro dia pensei tê-lo visto passar de carro pela avenida João Pessoa, à altura da Câmara Municipal, mas acho que me equivoquei. Assim como quase cumprimentei um careca nas Lojas Americanas, pensando que era o nosso querido Nenê.
Mas então: como andam as coisas? Está bem de saúde? Continua trabalhando no Fórum? Ainda morando no Rony? Pensei em te ligar, mas perdi seu número. Não é a primeira vez que isso acontece, eu sei, mas ser distraído é parte da minha natureza. Tal qual o Paulão, eu acho que continuo o mesmo. A bem da verdade, estou bem mais calvo, como não poderia deixar de ser, a menos que eu tivesse recorrido a um implante capilar. Ah, agora não pertenço mais à classe dos desempregados; figuro noutra linha estatística: a dos “jovens que conseguiram o primeiro emprego”. Estou trabalhando numa financeira há seis meses. Acordo cedo, dou graças aos deuses que me vêm à memória por mais uma noite mal dormida, me arrumo, e vou trabalhar, resignadamente. Não é tão ruim.
Pra variar, já me alonguei demais para os padrões de um email. Um dia eu aprendo. Melhor ir me despedindo, porque ainda tenho de tomar banho, jantar, ver um pouco de televisão, ler dez ou quinze páginas do livro que me acompanha no momento, e ir dormir. Nós dois sabemos que amanhã tem mais.
Espero que este texto tenha melhor sorte que o anterior e alcance o amigo. Tomara que eu consiga mandar um salve para o Alexandre.
Grande abraço! E até a volta.
